Sobre Bizantinística

Sejam bem-vindos ao primeiro site sobre o Império Bizantino em Língua Portuguesa.

Houve um movimento no século passado, o Vinte, dentro do campo das ciências sociais e humanas cujos membros afirmavam que o indivíduo tinha pouco papel nas engrenagens da História. As ações de cada pessoa eram simplesmente reações a um contexto estrutural que ditava os valores e a hierarquia social.

Apesar de essa posição ter contribuído para o enriquecimento da disciplina histórica e das ciências humanas e sociais em geral, houve um exagero: chegou a um ponto em que o ser humano quase desapareceu nos numerosos gráficos e tabelas que davam um ar de maior cientificidade aos trabalhos dos historiadores. Essa posição passou e continua a ser revista (felizmente!) no fim desse mesmo século. O homem reapareceu, mas não só os grandes homens e não só os homens. O indivíduo – homens e mulheres, pobres e ricos, humildes poderosos – passou a ser estudado de diversas formas.

Em minha opinião, a História é composta por um conjunto de ações individuais de todos os membros de uma dada sociedade. A influência política, econômica, social e(ou) cultural de certas pessoas fazem suas ações ter um maior peso por esses serem seguidos, respeitados, admirados ou temidos, mas cada um e cada ação importa, mesmo de uma forma ínfima e de uma forma quase impossível de ser identificada.

Bizâncio é um exemplo claro desse fenômeno. O período entre os séculos IV e VII, denominado como Antiguidade Tardia ou Alta Idade Média, foi uma época de mudanças no Velho Mundo: mudanças climáticas, surgimento de novas idéias, crises institucionais e intensas movimentações populacionais impuseram desafios àquelas sociedades. O Império Romano, por exemplo, dividiu-se em dois, parte Ocidental desapareceu – ou melhor se metamorfoseou em reinos governados por uma elite de origem germânica mas que buscou legitimidade em instituições romanas – e a Oriental perseverou e transformou-se político e culturalmente de tal forma, sendo que a principal transformação foi a cristianização, que a historiografia teve que cunhar um novo nome àquela entidade política, resgatando o antigo nome de Constantinopla, a nova capital do Império: Bizâncio. É importante frisar que, apesar dessas mudanças, as pessoas que viviam nessa sociedade nunca deixaram de se identificar, assim como seu império, como “romanos”.

Apesar de haver fatores ambientais que foram indubitavelmente fulcrais para a continuidade da parte oriental do Império Romano ou, como passaremos a chamar daqui para frente, Bizâncio, as decisões individuais foram importantes.

O trabalho intelectual dos teólogos cristãos bizantinos construiu uma base ideológica mais firme para seus imperadores do que os romanos ocidentais, além de que seus esforços para adaptar a cultura helênica ao pensamento cristão permitiram que o legado clássico, principalmente o grego, fosse transmitido, resultando no surgimento de tempos em tempos de novos helenismos dentro e fora de Bizâncio e da pesquisa científica e filosófica.

O esforço pastoral de bispos como (São) João Crisóstomo (347-407) ergueu uma igreja mais bem estruturada em Bizâncio do que no Ocidente.

Os imperadores bizantinos como Teodósio I(379-395), Marciano (450-457), Zenão (474-491) e Anastácio (491-518) foram melhores administradores, não permitiram que o comando militar fosse completamente dominado por generais estrangeiros e frearam a tendência de descentralização política que transformou a aristocracia local no real poder nas províncias, como se observou no Ocidente.

Num nível mais simples, se não fosse a decisão de muitos cidadãos particulares de se converter e com isso, converter sua família, escravos e dependentes, o Cristianismo não teria se tornado a religião majoritária do Império Romano e o main-stream ético e moral que guiou a sociedade bizantina até seu fim.

Se, no século IV, indivíduos não tivessem decidido independentemente seguir e tornar-se discípulos de São Pacômio (292-348) e São Basílio, em suas fundadoras experiências monásticas, os últimos não passariam de excêntricos no deserto.

Enfim, a originalidade das mudanças que caracterizaram Bizâncio é explicada como uma teia de decisões individuais de cada membro dessa sociedade frente a um mundo cambiante, resultando em uma nova identidade de base religiosamente cristã, politicamente romana e filosoficamente grego. Seu sucesso traduzido em sua milenar duração, até 1453, explica-se pela natureza dessas decisões. Elas foram em grande parte acertadas.

Esse blog, então, tem como objetivo conhecer e entender essa trajetória coletiva e uma miríade de trajetórias individuais que são denominados como Civilização Bizantina, além de compartilhar conhecimento e material com outros estudiosos no assunto.

Boa Leitura!

Por João Vicente

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