Santa Sofia novamente uma mesquita. Por quê e o que esperar?

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julho 11, 2020 por João Vicente

Fonte: Aljazeera

Na maior parte do tempo Bizâncio passa batido nas grandes discussões atuais e na opinião publica. Contudo, de vez em quando, eventos trazem a tona e à atenção do mundo assuntos relacionados ao Império Bizantino.  Em 2006, por exemplo, o então papa Bento XVI deu uma aula magna na Universidade de Regensburg na qual usou um tratado do imperador Manuel II Paleólogos (1391-1425) para afirmar que o Cristianismo é uma religião da razão e o Islamismo é “da espada”. Isso gerou uma série de protestos no mundo muçulmano e atenção da imprensa mundial. Recentemente, em 2018, houve uma cisma dentro da comunidade ortodoxa quando Bartolomeu, o Patriarca de Constantinopla, reconheceu a Igreja Ortodoxa como autocéfala, o que quer dizer que ela passou a ser autônoma e fora da jurisdição do Patriarcado de Moscou. Isso obviamente deixou a Igreja Russa bastante insatisfeita, criando, com isso, um rompimento entre o Patriarcado de Moscou e o de Constantinopla que dura até hoje.

O exemplo mais recente de Bizâncio vindo a tona nas notícias da imprensa mundial é a recente decisão de Recep Tayyip Erdoğan, presidente da Turquia, de acatar com a decisão do Conselho de Ministros em converter Santa Sofia novamente em uma mesquita.

Erdoğan e ministros em Santa Sofia (fonte: EU greek news)

Santa Sofia foi (re)construída pelo imperador Justiniano I (527-565) para servir de catedral de Constantinopla, sede do Patriarcado e principal palco de projeção pública para a autoridade imperial. Ela teve essa função até 1453, quando o sultão otomano Mehmet II (1451-1481), ao conquistar Constantinopla, imediatamente transformou Santa Sofia numa mesquita, para poupá-la das consequências do saque.

Retrato de Mehmet II por Gentili Bellini (fonte: Wikipédia)

Por quase quinhentos anos, ela foi utilizada como mesquita e modelo para construção de outras mesquitas em Istanbul e em outras regiões do Sultanato Otomano, até que em 1934, o presidente da nova República Turca, Mustafa Kemal Ataturk, a transformou num museu; um ato simbólico para sinalizar os esforços da nova república em se “modernizar”, o que na época significava seguir o modelo laico europeu. Com a mudança de status, o tapete que cobria o chão de Santa Sofia foi removido, assim como o reboco que cobria os mosaicos, expondo elementos da construção  há séculos escondidos.

Mustafa Kemal Ataturk (fonte: Wikipédia)

 A decisão de Erdoğan inicia uma nova fase desse edifício milenar. O que a motivou foi, sem surpresas, cálculos políticos-eleitorais. Depois de 18 anos de poder, o grupo político de Erdoğan começa a mostrar cansaço de material. Ele foi e ainda é um líder muito popular cujo apoio advém das partes menos educadas, mais rurais e, portanto, mais conservadoras da sociedade turca, as quais nunca foram grandes admiradores do laicismo kemalista.

Kemal Ataturk foi um oficial do exército que ficou bastante popular por liderar vitórias turcas durante a 1ª Guerra Mundial. Ao depor o último sultão otomano, tornou-se o primeiro presidente turco e realizou uma série de reformas com objetivo de modernizar a Turquia, o que na época significava ocidentalizá-la. Parte do processo de “modernização” era laicização do Estado. É importante apontar que o legado de Ataturk foi muito poderoso por todo o século XX com o exército se vendo como grande guardião do legado kemalista. Por isso, a história política turca após Ataturk foi marcada por uma série de golpes militares, cujo objetivo era depor governos que pareciam colocar em risco o caráter laico da República Turca. O último aconteceu em 2016, mas não foi bem sucedido.

O governo Erdoğan representa um rompimento com essa tradição. Apoiado pela parcela mais religiosa da sociedade, Erdoğan e seu partido AKP, sigla turca para “Partido para Justiça e Desenvolvimento”, busca inspiração no passado Otomano, que foi desprezado pelos kemalistas que o consideravam símbolo de atraso. A tentativa de golpe militar de 2016 mencionado acima, provavelmente motivada pelo programa religioso do governo, serviu para afastar ainda mais o governo Erdoğan do legado kemalista. Ao se espelhar no Sultanato Otomano que controlou um vasto império e que, na sua extensão máxima, ia do Marrocos a Iêmen no eixo Leste-Oeste e da Criméia ao Egito no eixo norte-sul,  Erdoğan e o AKP criam um discurso que não somente reassocia política com a religião, mas também legitima suas ambições geopolíticas  no Oriente Médio e nos Balcãs. Esse discurso “neo-otomanista” é claramente expresso na construção do novo palácio presidencial, que se inspira na arquitetura imperial otomana.

Palácio Presidencial em Ancara (fonte: NY times)

A reativação de Santa Sofia como mesquita faz parte desse contexto. Organizações religiosas têm pressionado as autoridades para permitir que igrejas bizantinas transformadas em mesquitas pelos otomanos e em museus por Ataturk sejam novamente usadas como mesquitas. Essa pressão tem resultado em reativações de algumas delas como mesquitas, mas, no caso de Santa Sofia, Erdoğan resistiu dizendo que, antes de pedir que ela seja transformada numa mesquita, os turcos deveriam encher as centenas de outras mesquitas existentes em Istanbul que andavam vazias. Porém, o presidente evidentemente mudou de ideia. A motivação para isso é o enfraquecimento de seu regime nesses últimos anos. Seu partido perdeu eleições municipais nas principais cidades do país, Istanbul e Ancara, e o próprio Erdoğan começou a ser questionado dentro do próprio partido. Obviamente, os desafios trazidos pela pandemia de Covid19 não ajudaram.

Catedral de Santa Sofia em Trebizonda, reativada como mesquita em 2013 (fonte: Wikipédia)

Com a reabertura de Santa Sofia como mesquita, Erdoğan faz um claro aceno aos eleitores mais conservadores, engajados no discurso neo-otomanista, sem grandes custos políticos, pois, por um lado, as partes mais laicizadas da sociedade turca podem até discordar da iniciativa, mas provavelmente não tomarão ações mais fortes contra um governo que tem reprimido duramente a oposição, e, por outro, não se espera grandes reações de governos estrangeiros além de protestos formais. O tratado da União Europeia com a Turquia, na qual a última se compromete a manter os refugiados em suas fronteiras, impedindo-os de entrar na UE, é uma arma constantemente apontada para Europa. Logo, os governos europeus não vão arriscar outra crise de refugiados para defender o status de museu de Santa Sofia. A UNESCO já lançou uma nota expressando preocupação com o edifício e alertando as autoridades turcas que mudanças podem acarretar a perda do status de patrimônio da humanidade.

O que esperar de Santa Sofia como mesquita? É um grande ponto de interrogação. O presidente já prometeu que a mudança não irá impedir que turistas continuem a visitá-la e que suas obras de arte continuarão a ser preservadas. Sinceramente, sou um pouco cético. Não acredito que os grupos religiosos irão se satisfazer somente com a mudança de status de Santa Sofia. Esse edifício não é e nunca será uma mesquita como qualquer outra. Ainda escreverei um post mais extenso sobre o tema, mas a reutilização de templos religiosos é uma constante ao longo da história e a motivação não se limitava à praticidade: é mais fácil usar um edifício existente do que construir um novo.  Templos pagãos foram transformados em igrejas no Império Romano, igrejas em mesquitas no Oriente Médio após as conquistas muçulmanas, e mesquitas em igrejas na Península Ibérica após as conquistas cristãs. Então, tais edifícios com histórico de conquista são símbolos políticos, e rezar em tais lugares é um ato político. Por isso, o fiel que for fazer suas orações na reaberta mesquita de Santa Sofia ou Ayasofia não será o turco muçulmano “padrão”, que continuará a rezar na mesquita do seu bairro, mas sim aquele mais comprometido com o discurso militante neo-otomanista do governo. Aí me questiono se esse fiel vai se satisfizer em ir rezar numa mesquita repleta de imagens religiosas cristãs. O próprio mihrab, o nicho que indica a direção de Meca para a qual o fiel deve rezar, fica no apse da construção diretamente abaixo de um mosaico retratando Maria com o Jesus bebê em seu colo. Portanto, brevemente, vejo o reinício de pressões por parte da ala religiosa para que as imagens, pelo menos as mais expostas, sejam novamente cobertas, talvez não por um reboco como os otomanos fizeram, mas com panos, cortinas ou painéis.  

O mihrab e o mosaico de Maria com Jesus.

Para concluir, devo sublinhar que, a princípio, não tenho nada contra a utilização de Santa Sofia como mesquita. Acho que edifícios, dentro do possível, devem ser usados para as funções para as quais eles foram construídos. Santa Sofia foi um templo religioso por um milênio e meio: uma igreja por um milênio e uma mesquita por cinco séculos, logo é justo que ela seja utilizada para funções religiosas. Para mim, num mundo ideal, Santa Sofia seria usada, simultaneamente, como igreja, mesquita e museu. Embora isso fosse possível com boa vontade e um pouco de flexibilidade dos envolvidos, não vejo isso acontecendo, pelo menos num futuro próximo.

Por João Vicente

4 pensamentos sobre “Santa Sofia novamente uma mesquita. Por quê e o que esperar?

  1. Yeah. that’s what I was exploring for.. thanks. Berna Allyn Olli

  2. […] dia 11 de julho, postei uma análise sobre o contexto político, histórico e religioso da reconversão da Basílica de Santa Sofia em […]

  3. Alfredo Cruz disse:

    Texto excelente! Parabéns, meu nobre!

  4. Raouf Michel disse:

    Parabens pela exposição e pelo conteudo politico religioso. Prof. Raouf

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