Como viviam a maioria dos bizantinos? (parte 1)

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setembro 29, 2019 por João Vicente

Esse blog é dedicado ao Império Bizantino. Isso significa que seu assunto principal são os próprios bizantinos, isto é, as pessoas que viveram dentro do território controlado pelo governo imperial em Constantinopla entre o século IV e o ano de 1453, quando Constantinopla foi conquistada pelos turcos otomanos. Aí inclui-se também pessoas que se identificavam como “romanos” mas viviam fora do domínio imperial.

O imperador Teófilo 829-842) e sua corte numa iluminura do manuscrito Skylitzes Madrilensis (s. XII). Sobre essas pessoas temos muita informação, embora eles tenham representado uma pequena minoria dentro da sociedade bizantina.

Contudo – e isso deve ser bem evidente – os bizantinos tratados por esse blog são quase sempre pessoas vindas de um grupo bem específico: ricos e poderosos. São as pessoas registradas pelas fontes que chegaram até nós. Elas foram escritas por pessoas capazes de escrever num grego considerado sofisticado, que era uma tentativa de imitação do grego escrito na Atenas Clássica, ou no grego eclesiástico, o idioma no qual a Bíblia fora escrita.

Para conseguir escrever dessa forma eram necessários anos de treinamento. O estudante precisava não somente de um tutor que lhe ensinasse os fundamentos da escrita, mas também de professores que pudessem lhes ensinar a ciência da retórica. Porém, tais tutores – pelo menos a partir do século VII, quando outros centros educacionais do Império Romano como Alexandria e Beirute foram conquistados pelos árabes – estavam somente em Constantinopla. Além do mais, era considerado que uma obra era merecedora de ser copiada e transmitida somente se ela fosse escrita nessas duas versões do grego. Saber escrever obras que tinham pretensões de ser transmitidas, por consequência, era um privilégio de pouquíssimos e esses pouquíssimos escreviam quase somente sobre seus iguais ou seus superiores, que os pagavam.

São Marcos Evangelista (s. XII). A escrita era um privilégio de poucos na sociedade bizantina. (Fonte: http://special.lib.gla.ac.uk/exhibns/month/apr2006.html)

O problema para os historiadores se torna, desse modo, óbvio: temos poucos registros históricos sobre a maioria esmagadora da população bizantina, que eram pobres e analfabetos, ou pelo menos incapazes de escrever no idioma sofisticado e merecedor de ser escrito. Isso torna muito difícil saber quem eram a maioria dos bizantinos. Porém, não impossível. Abaixo, vou listar alguns gêneros de fontes através dos quais podemos ter acesso a informações sobre essa parcela da população. Num segundo post, irei tratar mais a fundo do tecido social bizantino. Por ora, digo quem era essa maioria: camponeses que viviam nas províncias.

Fontes sobreviveram que nos permitem saber como eram suas vidas. Um exemplo são as hagiografias, vidas de santos. Essa literatura tinha como objetivo divulgar culto a santos específicos e apresentá-los como modelos de comportamento. Como o ascetismo era uma característica necessária para uma vida santa e os autores dessas vidas queriam mostrar que o culto ao santo tinha iniciado ainda em vida, podemos ver os santos em contato próximo com as populações locais, curando seus doentes, recebendo presentes, as aconselhando e sendo venerados por elas. Quem quiser saber mais sobre as hagiografias bizantinas pode acessar a página da Dumbarton Oaks que disponibilizar também algumas traduções para o inglês.

Outra fonte importante são os cadastros fiscais. O governo central em Constantinopla fazia questão de taxar seus súditos da forma mais ampla e eficiente possível. Para isso foram produzidos diversos cadastros fiscais, muitos dos quais sobreviveram porque cópias eram enviadas para arquivos de monastérios, como os localizados no Monte Atos, que até hoje existem. Nesses cadastros, as autoridades fiscais registravam o tamanho, os recursos e a produtividade das propriedades rurais taxadas. Podemos, assim, observar como a população rural produzia seu sustento.

Mosaico retratando Virgem Maria sendo registrada pelo fisco romano. Igreja de Chora. (Arquivo pessoal)

Registro de litígios legais são outra fonte de informação preciosa. Graças a fome por terras dos monastérios bizantinos, existem uma grande quantidade de documentos relatando processos legais entre as instituições religiosas e proprietários rurais vizinhos. Esses documentos são ricos em informações sobre a população local. Podemos assim saber seus nomes, conhecer suas famílias, com quem se relacionavam, como moravam e o que produziam. Existe uma edição por Paul Lemerle dos atos de Lavra, o mais antigo monastério bizantino em Atos. Infelizmente não há traduções para línguas modernas, mas há um estudo de Leonora Neville sobre exercício de autoridade nas províncias bizantinas que usa esses atos de forma bastante intensa e nos dá uma perspectiva sobre como as pessoas viviam nas províncias bizantinas.

Na próxima semana, publicarei um texto falando mais especificamente como os bizantinos que não pertenciam a elite letrada viviam.

Por João Vicente

 

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Um pensamento sobre “Como viviam a maioria dos bizantinos? (parte 1)

  1. Horazib disse:

    Muito interessante.

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