O Epitáfio de Basílio II

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setembro 16, 2019 por João Vicente

Caros leitores,

De todos os imperadores bizantinos, o único que pode talvez competir com Justiniano I (527-565) no quesito popularidade é Basílio II (976-1025).

De imperador-orfão controlado por uma série de regências, Basílio II tornou-se um líder militar vitorioso e a realização dos ideais de autocracia bizantina.

Moeda de ouro (histamenon nomisma) retratando de um lado a imagem do Cristo Pantocrator e do outro a imagem dos imperadores Basilio II e Constantino VIII. Basílio está à esquerda e é barbado e seu irmão está à direita e é imberbe. Essas representações não refletem as aparências reais dos imperadores, mas a barba indica que Basílio II era mais velho e, por isso, tinha precedência sobre o irmão.

Esse imperador subjugou completamente a aristocracia militar depois de parte dela ter se rebelado contra ele e tentado o depôr, terminou a conquista da Bulgária e confirmou a hegemonia bizantina no Oriente Médio. Seu reinado é visto por muitos como o segundo período áureo bizantino, o primeiro sendo o reinado de Justiniano.

Foi durante a guerra contra os búlgaros que aconteceu o episódio mais conhecido da biografia de Basílio II: o cegamento milhares de prisioneiros de guerra búlgaros depois da batalha de Kleidion em 1014. Por causa dessa ação violenta que Basílio II ganhou o epíteto “Bulgaroktonos” ou “exterminador de búlgaros”, embora Paul Stephenson tenha demonstrado que essa imagem de Basílio II surgiu mais de um século depois de sua morte como uma reação bizantina por parte dos imperadores da Dinastia Angelos à revolta dos búlgaros contra Bizâncio que resultou no ressurgimento um estado autônomo no final do século XII.

Representação de vitória bizantina sobre os búlgaros (Crônica Skylizes, Manuscrito Madrilense, Século XII, fonte: wikicommons)

A construção dessa imagem reflete como o reinado de Basílio II ficou marcado na memória dos bizantinos como um período de orgulho e de superioridade. Isso fica claro nas fontes, que descrevem o governo de Basílio II como um período no qual o Império era invencível nos campos de batalhas e temido por seus inimigos. Geralmente essa projeção serve de contraste para o período que seguiu ao reinado de Basílio, que foi marcado por guerras civis, invasões estrangeiras e ruína financeira do estado.

Basílio II sendo coroado por Cristo e tendo sob seus pés inimigos derrotados. Essa imagem também ilustra o tom triunfante que deve ter marcado os últimos anos de reinado desse imperador (Saltério de Veneza, fonte: Wikicommons)

Esse sentimento geral de otimismo, orgulho e alta autoestima deveria ser presente durante o próprio reinado de Basílio II como se vê no epitáfio do próprio imperador abaixo.

Vemos um imperador convencido de que sua coroação como imperador fora resultado da vontade divina e orgulhoso de suas vitórias militares nas fronteiras do Império. Não há um traço de contrição que seria típica de um epitáfio de um imperador cristão, principalmente de um que derramou tanto sangue como Basílio II. Afinal, embora agraciados com um poder de origem divina, os imperadores eram homens comuns que seriam julgados por Deus no Julgamento Final. No caso de Basílio II, os pedidos a Deus pela salvação de sua alma não são feitos pelo morto, mas pelos visitantes de sua tumba.

Basílio II foi enterrado na Igreja de São João, o Teólogo, na região suburbana de Constantinopla de Hebdomon. É natural que Basílio tenha escolhido esse local para seu descanso eterno. Essa região era onde o exército imperial se reunia quando o próprio imperador conduzia as campanhas e era um tradicional local no qual novos imperadores eram aclamados pelos soldados. Tendo aparentemente abandonado todos os confortos do palácio imperial e se mantido celibatário, passando parte significativa de sua vida em campanhas militares, Basílio preferiu passar a eternidade na companhia de outros soldados com quem ele partilhou as agruras da guerra.

Lauxtermann, Marc Diederik. Byzantine Poetry from Pisides to Geometers Texts and Contexts, vol 1, Viena: Verlag der österreichischen Akademie der Wissenschaft, 2003,  pp. 236f

ἄλλοι μὲν ἄλλους τῶν πάλαι βασιλέων
αὑτοῖς προαφώρισαν εἰς ταφὴν τόπους,
ἐγὼ δὲ Βασίλειος, πορφύρας γόνος,
ἵστημι τύμβον ἐν τόπῳ γῆς Ἑβδόμου
καὶ σαββατίζω τῶν ἀμετρήτων πόνων
οὓς ἐν μάχαις ἔστεργον, οὓς ἐκαρτέρουν·
οὐ γάρ τις εἶδεν ἠρεμοῦν ἐμὸν δόρυ,
ἀφ’ οὗ βασιλεὺς οὐρανῶν κέκληκέ με
αὐτοκράτορα, γῆς μέγαν βασιλέα·
ἀλλ’ ἀγρυπνῶν ἅπαντα τὸν ζωῆς χρόνον
Ῥώμης τὰ τέκνα τῆς Νέας ἐρυόμην
ὁτὲ στρατεύων ἀνδρικῶς πρὸς ἑσπέραν,
ὁτὲ πρὸς αὐτοὺς τοὺς ὅρους τοὺς τῆς ἕω,
ἱστῶν τρόπαια πανταχοῦ γῆς μυρία·
καὶ μαρτυροῦσι τοῦτο Πέρσαι καὶ Σκύθαι,
σὺν οἷς Ἀβασγός, Ἰσμαήλ, Ἄραψ, Ἴβηρ·
καὶ νῦν ὁρῶν, ἄνθρωπε, τόνδε τὸν τάφον
εὐχαῖς ἀμείβου τὰς ἐμὰς στρατηγίας.
Outros imperadores da antiguidade consideraram para si outros lugares como túmulo. Eu, Basílio, filho da púrpura, estabeleço (minha) tumba no local de Hebdomon e descanso[1] de imensos esforços que aceitei e sofri durante combate; De certo, ninguém viu minha lança ociosa desde que o Rei dos Céus me elevou ao cargo imperial, o grande imperador do mundo; Mas, mantendo-se em vigília por todo tempo de (minha) vida, eu salvei filhos da Nova Roma, quando marchei valentemente para o Oeste e para os extremos do Leste, erguendo miríades de troféus por todos os lados; Testemunharam isso os persas e os citas, e com eles os abecazes, os árabes e os ibérios[2]; Agora olhe, homem, essa tumba e retribua com orações as minhas campanhas.

[1] Literalmente, “faço o shabath”

[2] Georgianos

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Um pensamento sobre “O Epitáfio de Basílio II

  1. Leonardo Avelino Duarte disse:

    Excelente postagem. Adorei.

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