Strategikon de Kekaumenos: edição e tradução disponível online.

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abril 9, 2018 por João Vicente

Por João Vicente

Caros leitores,

Existe uma série de dificuldades para aqueles no Brasil que desejam aprofundar seus conhecimentos sobre o mundo bizantino. Uma dessas dificuldades é ter acesso a material de leitura em português ou mesmo em espanhol, principalmente quando se trata de fontes. Elas são traduzidas quase sempre em um dos idiomas “oficiais” dos Estudos Bizantinos – inglês, alemão, francês e grego moderno – e, de vez em quando, em italiano ou espanhol. Outro problema é o custo. Geralmente, essas traduções são lançadas em edições acadêmicas a preços altíssimos. Por isso, de tempos em tempos, publico nesse site pequenos trechos de fontes traduzidos para que vocês, leitores de Língua Portuguesa, possam ter contato direto com os bizantinos.

No post de hoje divulgo uma iniciativa da bizantinista Charlotte Roueché. Ela publicou online uma edição e tradução própria de um texto conhecido como “Concilia et Narrationes” ou “Strategikon de Kekaumenos”. Ela disponibilizou igualmente traduções em línguas modernas como espanhol e italiano.

Virgem Maria e o coletor de impostos Quirinus. Mosaico do século XIV localizado no Monastério de Chora, Karye Camii em Istanbul (fonte: wikicommons)

Os nomes pelos quais essa fonte é conhecida foram dados posteriormente, pois a obra original não foi nomeada pelo autor ou seu título foi perdido no processo de transmissão. Trata-se de uma série de conselhos composta por alguém chamado Kekaumenos. Tudo que sabemos sobre ele vem do próprio texto. Por isso, sabemos que ele foi um aristocrata bizantino que exerceu uma série de comandos militares durante a segunda metade do século XI. Algumas tentativas foram feitas de tentar ligá-lo ao famoso Katakalon Kekaumenos, um importante general e liderança política bizantina da metade do século XI. Contudo, são conhecidas diversas pessoas com o sobrenome “Kekaumenos” em Bizâncio nesse período, por isso não há evidências convincentes o suficiente para ligar o autor do texto a qualquer um dos muitos Kekaumenoi que viveram na época.

Ainda que o autor não seja o importante general mencionado pelas crônicas e histórias, o Strategikon de Kekaumenos é ainda assim de grande importância, pois é uma das poucas fontes bizantinas por assim dizer “não-oficiais” que conhecemos, isto é, não foi produzida por, a mando de ou sob a influência direta da Igreja ou do imperador.

Até onde sabemos, é uma coleção de conselhos que o autor compôs para seus filhos e sobrinhos. O pedigree aristocrático da obra é expresso pelos possíveis caminhos que os endereçados poderiam tomar segundo a concepção do autor: ser cortesão em Constantinopla (o que definitivamente o autor não recomenda), coletor de impostos (também não recomendado), comandantes militares, bispos e grandes proprietários. O autor apresenta seus conselhos baseados em experiências suas e de seus antepassados.

O tom da obra é marcado por um grande pessimismo e suspeita com relação a estranhos, a qual beira a paranoia. A forte subjetividade que marca os escritos de Kekaumenos e os torna especiais pode ser também de difícil interpretação. Seria a profunda desconfiança do autor com relação a pessoas de fora da família um traço característico da elite ou mesmo da mentalidade bizantina como todo? Ou nosso Kekaumenos seria visto pelos seus pares como um misantropo e excêntrico? Mais provável é a segunda opção, mas a raridade de fontes disponíveis para comparação e a ausência de qualquer recepção dessa obra impossibilita a resposta definitiva dessas perguntas.

O Strategikon é ainda assim uma fonte única, pois não somente nos dá acesso a cabeça de um bizantino comum (ainda que rico e possivelmente excêntrico) para assim vermos seus valores, seus medos e suas esperanças, mas também fornece informações importantíssimas sobre como funcionava a administração imperial no dia a dia, as pequenas relações locais de poder nas províncias e mesmo relatos independentes de outras fontes sobre eventos políticos importantes.

Vocês podem ter acesso ao site do projeto com aqui.

No mesmo site, é disponibilizada a tradução para o espanhol por Juan Signes Cordoñer (aqui) e para o italiano por Maria Dora Spadaro (aqui).

 

Para saber mais,

Charlotte Roueché, The place of Kekaumenos in the admonitory tradition. Em inglês, Roueché contextualiza o Strategikon na tradição admoestatória bizantina.

Um artigo meu da época do mestrado em que analiso a representação das fronteiras no Strategikon de Kekaumenos.

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