Uma Breve História Política e Cultural do Idioma Grego

Deixe um comentário

março 29, 2018 por João Vicente

Por João Vicente

Não há dúvidas que a Língua Grega teve um papel importante na História, mas ela é na maior parte das vezes associada com atividade cultural de Atenas do século V a.C e seus principais atores, como Sócrates, Platão, Hipócrates, Heródoto, Tucídides etc, ou com o atual país Grécia, fundado em 1821. Contudo, esses dois pontos de referências são também o ponto inicial e final de uma história épica de um idioma, que é pouco conhecida pela maior parte das pessoas. Por séculos, o Grego foi a língua mais importante do mundo, não somente por ser o idioma da ciência, mas também do comércio, da política e posteriormente da religião. Por mais importantes que sejam os desenvolvimentos científicos, culturais e filosóficos de Atenas do século V a.C, a extensão de seu uso era ainda muito limitada a atual Grécia, a costa ocidental da atual Turquia e algumas colônias gregas espalhadas pelo Mar Mediterrânico. Curiosamente, os maiores promotores do grego, os que transformaram essa língua basicamente étnica na língua franca do mundo conhecido, foram não-gregos; primeiro os macedônios e depois os romanos.

linear B wikicommons

Tabulas de barro contendo Linear B, a forma escrita mais arcaica do Grego: o Micênico. Datado de 1450 a. C. (Fonte: Wikicommons)

 

A Macedônia era um domínio considerado pelos gregos como semibárbaro, mas que adotou integralmente a cultura helênica e conquistou através das armas a hegemonia na Grécia, primeiro com Felipe II (359-336 a.C) e depois com Alexandre III ou o Grande (336 a.C-323 a.C). Alexandre foi um jovem brilhante e educado por Aristóteles, que herdou um império num processo de expansão, logo o sucesso que ele teve foi de certa forma previsível, ainda que surpreendente. Contudo, mais importante que seu legado político e militar foi o cultural. O enorme império que Alexandre construiu sobre as ruínas do antigo Império Persa Aquemênida se fragmentou logo após sua morte, mas o conceito de um mundo civilizado (oikoméne= mundo habitado) cuja língua oficial era o grego criado sob a batuta de Alexandre continuou existindo e se expandindo por séculos. Na realidade, o grego, ou melhor, a versão demótica do idioma, o koiné (em grego: a língua comum), tornou-se o meio pelo qual a cultura helênica foi difundida. Da Grécia a Índia, do Egito a atual Criméia, o panteão helênico era reverenciado, por vezes associado com divindades locais, edifícios eram construídos conforme modelos arquitetônicos gregos e a educação de modelo grego – a paideia – passou a ser mandatória a qualquer um que queria se apresentar como membro da elite. Um exemplo da força e da extensão da cultura grega foi que o surgimento das primeiras estátuas do Buda no atual Afeganistão (infelizmente destruídas pelo Talibã) teria sido uma resposta budistas à expansão do panteão grego e às estátuas construídas em homenagem aos deuses helênicos. Resumindo, o Grego passou a ser sinônimo de alta cultura. Esses desenvolvimentos não foram ignorados em outras regiões, mesmo distantes das conquistas de Alexandre, como por exemplo Roma.

uma das primeiras representações de Buda sec 2-1 a.C Paquistào

Estátua Helenística de Buda do séculos II-I a.C. achada no Paquistão (Fonte: Wikicommons)

 

Roma era originalmente uma comunidade de pastores que se estabeleceu numa região acidentada e rodeada por pântanos. Em seus primeiros séculos de existência, os romanos se digladiaram com seus vizinhos, outras comunidades agrícolas latinas ou etruscas, pelos parcos recursos que a região central da península itálica poderia oferecer. No século IV a.C, isto é, mais ou menos simultaneamente às conquistas de Alexandre, Roma saiu como vencedora. Assim, ao entrar no cenário internacional, a República Romana passou a se helenizar rapidamente, começando com a elite. Os romanos adotaram o ideal grego de educação, assim toda família com recursos suficientes passou a adotar preceptores gregos para educar seus filhos. O grego tornou-se gradualmente o segundo idioma da aristocracia romana. Marco Túlio Cícero, o grande nome da literatura romana cujas obras em Latim são consideradas modelos de escrita e estilo, escreveu também em Grego. Saber o idioma helênico não era somente um sinal de sofisticação cultural e pertencimento ao mundo civilizado, era também uma ferramenta utilíssima para lidar com os vizinhos e depois súditos dos romanos no Mediterrâneo Oriental. Com a expansão romana ao Oriente, o Grego se tornou a segunda língua oficial da República e depois Império Romano. Éditos eram escritos em Latim e Grego, sendo o último idioma o único usado em documentos oficiais e éditos nas províncias orientais. Isso quer dizer que a suposta helenização do Império Romano Oriental, a qual teria sido marcante para divisão posterior criada pelos historiadores entre Império Romano e Bizantino, aconteceu bem antes da divisão do Império Romano em 395 d. C.

P1050301

Inscrição em grego do período Romano Tardio, séculos V-VI, localizada em Éfeso (Fonte: Arquivo Pessoal)

 

O Grego, contudo, não foi um idioma limitado à aristocracia e à administração. Ele era também usado por outras camadas sociais em Roma. A Bíblia é evidência disso. Em suas cartas aos romanos, Paulo escreveu em Grego. Como sabemos que os primeiros cristãos na capital do Império não eram membros da elite política, mas no máximo mercadores abastados, é possível imaginar que a capacidade de entender Grego extrapolava o círculo da mais alta aristocracia em Roma.

O surgimento do Cristianismo representa outro ponto importante da história do idioma grego. Ainda que tenha surgido entre judeus, o Cristianismo ganhou importância ao conquistar gentios, isto é, não judeus, principalmente habitantes de centros urbanos falantes de grego da Grécia, Egito e Ásia Menor. A palavra de origem latina “pagão”, que hoje significa “não cristão”, era usada originalmente para descrever as pessoas que moravam no campo (pagus), o que demonstra a forte associação entre o Cristianismo Antigo e ambientes urbanos. Por mais que tenha existido fortes comunidades cristãs falantes de Latim na Itália, Gália e Norte de África e falantes de siríaco na Síria, o Grego estabeleceu-se como idioma oficial da Igreja, uma vez que as atas de todos os concílios considerados ecumênicos e os evangelhos canônicos estão neste idioma. Assim, se consideramos que a importância de um idioma é a extensão de seu uso e sua influência cultural e política, podemos dizer com segurança que o auge do Grego não foi o século V a. C. de Sócrates e Platão, mas o período que compreende os séculos IV e VIII d. C, pois neste período o Grego não era somente o idioma oficial do Império Romano, mas também o único idioma com o qual um viajante poderia ser entendido aonde quer que ele fosse por todo Mediterrâneo, além de ser o idioma da Cristianismo, que a partir do século V d.C. torna-se a religião majoritária.

800px-End_of_2_Peter_and_Beginning_of_1_John_in_Alexandrinus sec. v

Manuscrito do Evangelho de João em grego em escrita uncial do Codex Alexandrino, séc. V (Fonte: Wikicommons) 

 

Depois disso, o destino do Grego passou ser cada vez mais atrelado ao destino do Império Romano ou, como se prefere chamar, Bizantino. As invasões muçulmanas a partir do final do século VI tomaram do Império importantes centros urbanos helenísticos, como Alexandria e Antioquia, mas ao mesmo tempo deixou o Império etnicamente mais coeso, pois esses centros urbanos eram ilhas gregas isoladas em províncias cuja maior parte da população, a qual vivia no campo, não falava grego. Dessa forma, observa-se um importante desenvolvimento identitário. Como o grego era hegemônico nas regiões que restavam ao Império, esse passou a ser conhecido cada vez mais como “língua romana”. “Rhomaizein” em grego que significa “falar romano” passou a ser o sinônimo de “helenizein”, que significa “falar grego”. Ao mesmo tempo, essa ligação intrínseca entre os bizantinos e o idioma grego era percebido de outra forma fora do Império. Por falarem Gregos, os bizantinos tiveram sua identidade romana negada, principalmente no Ocidente, onde papas e monarcas reivindicavam o legado romano para si e para isso tinham que deslegitimar a reinvindicação bizantina. Sendo assim, os bizantinos eram chamados de “graeci”, isto é, “gregos”. Isso era ofensivo aos bizantinos não somente por lhes negarem a condição de romanos, mas também porque, no idioma grego medieval, o termo para “grego”, “hellenos”, passou a ser sinônimo de “pagão”. Somente nas linhas de alguns autores eruditos que utilizavam uma nomenclatura conscientemente arcaizante que “grego/hellenos” era usado para descrever tanto a etnia e o idioma grego.

A identidade helênica só começaria a ser recuperada pelos bizantinos a partir do século XII, mas principalmente a partir do XIII, quando seguidas invasões limitaram ainda mais o Império Bizantino a áreas de idioma grego. Contudo, essa recuperação da identidade grega limitava-se às elites e a tinha uma importância menor do que a identidade romana. De modo que mesmo depois das conquistas otomanas, a população de fala grega e fé cristã-ortodoxa continuou a se identificar como “romana” até que, no século XIX, o surgimento de movimentos emancipatórios conceberam uma nova identidade nacional helênica, baseada na qual a Grécia, país independente desde 1821, foi criada. Contudo, a identidade romana ─ a “rhomiosyne” ─ resistiu até o início do século XX entre as populações “gregas” ainda sob o domínio otomano. Um exemplo é o relato do historiador Peter Charanis. Em 1912, durante a guerra entre Grécia e Turquia, ele conta que soldados gregos ocuparam sua ilha natal de Lemnos. Ele, que ainda era criança, foi ver os recém-chegados. Ao observar o grupo de criança curiosas, um dos soldados perguntou o que eles estavam olhando e eles responderam: “Gregos!”. Nisso, o soldado responde: “E vocês não são gregos também?” E eles responderam: “não, nós somos romanos.”

Referências:

BROWN, Peter: O Fim do Mundo Clássico. Lisboa: Editorial Verbo.

HERRIN, Judith: Byzantium. The Surprising Life of a Medieval Empire. Londres: Penguin Books. 2008.

KALDELLIS, Anthony: Hellenism in Byzantium. Transformations of Greek Identity and the Reception of the Classical Tradition. Cambridge 2007.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Junte-se a 104 outros seguidores

Arquivos

%d blogueiros gostam disto: