A corrupção do corpo político bizantino – uma tradução da Cronografia de Miguel Psellos

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junho 29, 2017 por João Vicente

Caros leitores,

hoje publicarei um pequeno trecho de fonte traduzido para o português do grego antigo da obra Cronografia de Miguel Psellos, que, apesar de escrito há quase mil anos, é muito atual na situação política brasileira em que vivemos.

Miguel Psellos (1018-1078 ou 1096) é um dos personagens mais interessantes e desconhecidos da Idade Média. (Já falamos sobre ele. Você pode ler uma curta biografia de Psellos nesse link). Ele foi historiador, cortesão, filósofo, historiógrafo, astrônomo, monge, epistológrafo e retórico.

Miguel Psellos e o imperador Miguel VII Doukas (Fonte: wikicommons)

Sua obra prima, contudo, foi a Cronografia. Ela é ao mesmo tempo uma história política de Bizâncio, entre 976 e 1078, e um relato biográfico de sua carreira intelectual e política. A Cronografia é com toda certeza uma obra à frente de seu tempo. Diferentemente de outros historiógrafos bizantinos que dão um forte peso à influência de Deus sobre as ações humanas, Psellos faz um relato no qual a História é somente determinada pelas ações humanas.

Outro ponto importante nessa obra é a profundidade psicológica de seus personagens principais, os homens e mulheres que portaram o diadema imperial. Tradicionalmente, as histórias e crônicas bizantinas utilizavam uma série de protótipos estabelecidos pela tradição para retratar os imperadores. Isso não quer dizer que esses relatos eram inventados. Essa forma de retratar os imperadores é a consequência do caráter sagrado do próprio cargo imperial. Logo, da mesma forma que o homem ou a mulher mortal quase desaparecia quando coberto(a) pelas insígnias da dignidade imperial, os historiadores e cronistas bizantinos cobriam o portador ou portadora do título imperial com uma forma de representação dos governantes consagrada pelo tempo. Psellos, contudo, “expôs” os imperadores e imperatrizes, dando ênfase às diferentes formas como lidavam com o poder. O resultado é uma série de retratos imperiais, que, embora não sejam inteiramente verdadeiros, são extremamente realistas. Ao ler a Cronografia, temos a sensação de estarmos em contato com pessoas reais, de carne e osso. É impressionante que um autor do século XI tenha conseguido usar formas que nos parecem ser extremamente modernas.

Mosaico com Constantino IX Monomaco e Zoe em Santa Sofia (Fonte: arquivo pessoal)

O terceiro ponto importante é a capacidade analítica de Psellos. Embora não seja uma exclusividade dele, pois outros historiadores bizantinos igualmente demonstraram a capacidade de entender as ações humanas de forma abrangente e analítica, Psellos se sobressaiu, pois sua carreira política como membro da burocracia imperial e cortesão lhe permitiu ficar próximo de monarcas e influenciar governos de seis imperadores diferentes durante quase três décadas, quase um Delfim Neto medieval. Essa posição privilegiada o possibilitou compreender perfeitamente o processo de deterioração política em Bizâncio ao longo do século XI, o qual foi curiosamente contemporâneo a uma crescente prosperidade econômica e a uma forte atividade intelectual.

É disso que se trata o trecho que traduzi a partir da edição de Renaud (1976). Nesse pequeno excerto é possível perceber tanto o estilo pitoresco de Psellos, quanto sua capacidade de compreender os processos políticos de seu tempo. Psellos descreve a  gradativa degradação da política bizantina usando uma metáfora médica. Ele compara o corpo político com o corpo humano. Esse corpo era saudável e vigoroso durante o reinado de Basílio II (976-1025), mas seus sucessores, se sentindo politicamente fracos e em busca de suporte, beneficiaram cada vez mais pessoas com cargos e prebendas, os quais são comparados por Psellos com membros extras e substâncias malignas introduzidas num corpo humano. Esse lento processo resultou na transformação de um corpo forte e saudável num monstro inchado, doente e com diversos membros prestes a morrer.

Quase mil anos depois, podemos ver que um processo semelhante aconteceu e continua acontecendo no Brasil. Contudo, devo destacar aqui que a História NUNCA se repete, mas processos históricos semelhantes podem sim acontecer em sociedades e períodos diferentes se fatores parecidos estiverem presentes. Apesar de serem dois universos diferentes, Bizâncio do século XI e o Brasil do século XXI compartilham o patrimonialismo arraigado em suas sociedades, o qual se reflete na política. As consequências são semelhantes: a tomada do Estado por interesses de grupo, visões de curto prazo que beneficiam os amigos do rei e instabilidade política. Bizâncio sobreviveu a isso, mas a um grande custo: um general, Aleixo I Comneno, tomou o poder e transformou o patrimonialismo da sociedade bizantina – que até então tinha um papel não oficial na política – em política de estado e monopolizou os principais postos para seus parentes e amigos.

 

É. Renauld, Michel Psellos. Chronographie ou histoire d’un siècle de Byzance (976-1077), 2 vols., Paris : Les Belles Lettres, 1 :1926 ; 2 :1928 (repr. 1967). 7, 52-55.

52. Depois da morte do famoso Basílio (II, 976-1025), eu falo do filho de Romano (II, 959-963), que trouxe o Império para terceira geração 1, aquele que era por um lado o filho mais novo deste, por outro o irmão daquele, herdou o Império com muito dinheiro. Depois do irmão Basílio [II] ter sobrevivido muito tempo no poder e, mais do que qualquer outro imperador,  se tornado o senhor de muitas nações, trazido então a fortuna para o império e feito mais e seguidas entradas dos que saídas, ele [Basílio II], ao morrer, deixou para seu irmão Constantino [VII, 1025-1028] um tesouro de riquezas nunca vistas.  Depois de ele [Constantino] ter entrado no poder imperial já bastante idoso, tendo o desejado há muito tempo, não tentou liderar exército ou adicionar algo as coisas já possuídas [2] e nem se importou em guardar as coisas que já existiam.  Ele conduziu uma vida luxuosa. Ele decidiu a gastar tudo com autoindulgências. Se a morte não o tivesse levado embora rapidamente, ele teria sido o suficiente para, ao invés todos, ter destruído o próprio império.

53. Ele foi o primeiro a iniciar a piora e o inchamento do corpo político, depois de ter alegrado alguns dos súditos com muito dinheiro e elevado outros com honras, estabelecendo para eles uma vida vazia e corrupta.  Depois que este morreu, seu genro Romano [III Argiro, 1028-1034] tomou para si o governo. Depois que este acreditou governar e depois que a família até então na pórfira [3] ter acabado, ele considerou como algo bom estabelecer as fundações de uma dinastia semelhante. Para que o gênero urbano e os exércitos alegremente e de boa vontade dessem boas vindas à dinastia sucessora, ele antecipou enormes presentes para eles e os adicionou ao corpo supérfluo. Ele aumentou a doença, e o corpo corrompido é preenchido com um fluxo de banha. Ele também falhou em ambos, em suas noções sobre família e em deixar o corpo político organizado.

54. Depois que este morreu e a sucessão do Império passou para Miguel [IV o Paflagônio, 1034-1041], este homem segurou muitos dos fatores que adoentavam [o corpo político]. Contudo, ele não era forte o suficiente para arriscar não enriquecer levissimamente o corpo já acostumado em ser alimentado com más substâncias e ser inchado com alimentos corrompidos, mas este, se também de forma cuidadosa, adicionou pelo menos algo à gordura. De fato, ele poderia morrer imediatamente, se ele não tivesse vagarosamente imitado os imperadores precedentes. Mas se este tivesse sobrevivido mais um ano no poder, os súditos teriam aprendido então o modo de vida filosófico. [4] Então, não era possível naquele tempo que estes corpos saudáveis, sendo engordados ao máximo, não fossem rebentados.

55 Rapidamente este imperador faleceu – para deixar para trás o sobrinho, depois de ter reinado de forma miserável, de forma mais miserável ele afastou-se do poder – Constantino [IX Monomaco, 1042-1055), o Benfeitor (pois assim ele era chamado pelas multidões), eu digo o Monomaco, subiu ao topo do poder. Ele tomou o Estado como se fosse um barco mercante, que tinha uma carga até o final da cinta . [5] Quando ele ultrapassou levemente o influxo de ondas, ele afundou ao atingir a beirada, ou – para que eu diga igualmente de forma clara e retorne para a forma inicial – ele mais do que todos conferiu partes e membros ao corpo corrompido ao introduzir substâncias ainda mais malignas nas partes internas. Ele, por um lado, o privou das coisas de sua própria natureza, e espoliou o ser político e civilizado, ele, por outro, quase o enlouqueceu e o bestializou, colocando sob o controle  muitos como seres de muitas cabeças e centenas de mãos. Depois dele, a imperatriz Teodora, depois de tomar o poder sozinha legitimamente, pareceu bestializar não excessivamente este ser recém-criado, mas então ela adicionou imperceptivelmente também algumas mãos e alguns pés a este.

 

 

Μετὰ τὸν θάνατον Βασιλείου τοῦ πάνυ, λέγω δὲ τὸν τοῦ Ῥωμανοῦ παῖδα, ὃς δὴ ἐς τριγονίαν τὴν βασιλείαν ἀνέφερεν, ὁ τούτου μὲν νεώτερος παῖς, ἀδελφὸς δὲ ἐκείνου, τὴν βασιλείαν παραλαβὼν πολλῶν χρημάτων ἀνάπλεω, ὁ γάρ τοι ἀδελφὸς Βασίλειος μακροὺς ἐπιβιώσας χρόνους τῷ κράτει καὶ ὅσους οὐκ ἄλλος τῶν αὐτοκρατόρων, ἐθνῶν τε πολλῶν ἐγκρατὴς γεγονὼς καὶ τὸν ἐκεῖθεν πλοῦτον εἰς τὰ βασίλεια εἰσενεγκὼν, πολυπλασίους τε τὰς ἐπιγινομένας εἰσόδους τῶν ἀπογιγνομένων πεποιηκὼς, τῶν ἐντεῦθεν ἀπιὼν θησαυροὺς ἀμυθήτους χρημάτων καταλελοίπει τῷ ἀδελφῷ Κωνσταντίνῳ· οὗτος δὲ εἰς βαθὺ γῆρας τὴν αὐτοκράτορα ἡγεμονίαν ἀναζωσάμενος, ἐκ πολλοῦ τε ταύτης ἐρῶν, οὔτε στρατεύειν ἐπικεχείρηκε καὶ τοῖς εὑρημένοις προστίθεσθαι, οὔτε τὰ ὄντα διαφυλάττειν διανενόητο· ἐπὶ δὲ τὸν ἀπολαυστικὸν ὡρμηκὼς βίον, σπαθᾶν πάντα καὶ ἀναλίσκειν διέγνωκε, καὶ εἰ μὴ ταχὺ τοῦτον ὑπεξεῖλεν ὁ θάνατος, ἤρκεσεν ἂν ἀντὶ πάντων εἰς τὴν τοῦ κράτους διαφθοράν.

(53) Οὗτος μὲν δὴ πρώτως τὸ σῶμα τῆς πολιτείας κακοῦν τε καὶ ἐξογκοῦν ἤρξατο, τὰ μὲν ἐνίους τῶν ὑπηκόων χρήμασι καταπιάνας πολλοῖς, τὰ δὲ ἀξιώμασι διογκώσας καὶ ὕπουλον αὐτοῖς καὶ διεφθαρμένην τὴν ζωὴν καταστήσας· ἐπεὶ δὲ οὗτος ἐτεθνήκει, καὶ ὁ ἐκείνου κηδεστὴς Ῥωμανὸς τὴν ἀρχὴν διεδέξατο, ἄρξαι νομίσας οὗτος, τῆς ἐν πορφύρᾳ γέννας ἤδη ἀποτελευτησάσης, θεμελίους ὥσπερ  καλοὺς τῆς τοιαύτης γενέσεως ᾤετο καταβάλλεσθαι, καὶ ἵνα δὴ καὶ τὸ πολιτικὸν γένος καὶ ἡ στρατιωτικὴ πληθὺς τὰς ἐγγενεῖς διαδοχὰς ἑτοίμως τε καὶ ἱλαρῶς ὑποδέξαιντο, προλαμβάνει τὰς εἰς αὐτοὺς μεγαλοδωρεὰς, καὶ προστίθησι τῷ περιττεύσαντι σώματι, καὶ αὐξάνει τὴν νόσον, καὶ τὸ διαφθειρόμενον καταπληροῖ ἐκκεχυμένης πιότητος, καὶ διαμαρτάνει δυοῖν, τῆς τε περὶ τὸ γένος ὑπολήψεως καὶ τοῦ τὴν πολιτείαν τεταγμένην ἀπολιπεῖν.

(54) Ἐπεὶ δὲ τούτου τὴν ζωὴν τελευτήσαντος εἰς τὸν Μιχαὴλ ἡ τῆς βασιλείας μετῆλθε διαδοχὴ, τὸ μὲν πολὺ τῶν νοσοποιῶν ὁ ἀνὴρ οὗτος ἐπέσχεν, οὐ μέντοι γε τοσοῦτον ἐξίσχυσεν ὥστε τολμῆσαι μηδὲ τὸ βραχύτατον ἐκλιπᾶναι τὸ εἰωθὸς σῶμα χυμοῖς ἐκτρέφεσθαι πονηροῖς καὶ διεφθαρμέναις ἐξογκοῦσθαι τροφαῖς, ἀλλὰ καὶ οὗτος, εἰ καὶ γλίσχρως, προσέθετο γοῦν τῇ πιότητι· ἦ γὰρ ἂν ἐτενήκει αὐτίκα, μηδὲ κατὰ βραχὺ τοὺς προηγησαμένους μιμησάμενος αὐτοκράτορας· ἀλλ’ εἰ μὲν διεβίω πλείω οὗτος ἔτη τῷ κράτει, ἐμεμαθήκεσαν ἄν ποτε τὸ ὑπήκοον τὴν φιλόσοφον δίαιταν· οὐκ ἦν δὲ ἄρα μὴ διαρραγήσεσθαί ποτε τούτους εἰς ἄκρον εὐεξίας ἐκπιανθέντας.

(55) Ταχὺ τοιγαροῦν καὶ τούτου δὴ τοῦ βασιλέως ἀποβεβιωκότος, ἵνα δὴ τὸν ἀνεψιὸν παραλίπω, ὡς ἀθλίως μὲν βεβασιλευκότα, ἀθλιώτερον δὲ τοῦ κράτους ἀποβεβηκότα, Κωνσταντῖνος ὁ Εὐεργέτης (οὕτω γὰρ παρὰ τοῖς πλείοσι κατωνόμασται), φημὶ δὲ τὸν Μονομάχον, εἰς τὴν τοῦ κράτους περιωπὴν ἄνεισιν· ὃς δὴ ὥσπερ τινὰ φορτίδα ναῦν τὴν πολιτείαν καταλαβὼν ἄχρι τοῦ τελευταίου ζωστῆρος τὸν φόρτον ἔχουσαν, ὡς βραχύ τι ὑπερκεῖσθαι τῆς τῶν κυμάτων ἐπιρροῆς, περιχειλῆ πεποιηκὼς κατεβάπτισεν, ἢ, ἵνα δὴ ἐναργέστερον εἴπω ὁμοῦ δὲ καὶ πρὸς τὴν προτέραν ἐπανέλθω τροπὴν, πλεῖστα περιθεὶς μέρη καὶ μέλη τῷ πάλαι διαφθαρέντι σώματι, καὶ χυμοὺς πονηροτέρους τοῖς σπλάγχνοις εἰσενεγκὼν, τοῦ μὲν κατὰ φύσιν ἀπήνεγκε, καὶ τῆς ἡμέρου καὶ πολιτικῆς ζωῆς ἀπεστέρησεν, ἐξέμηνε δὲ μικροῦ δεῖν καὶ ἀπεθηρίωσε, πολυκεφάλους καὶ ἑκατόγχειρας τοὺς πλείους τῶν ὑπὸ χεῖρα πεποιηκώς. Μεθ’ ὃν ἡ βασιλὶς Θεοδώρα γνησιώτερον αὐταρχήσασα, ἔδοξε μὲν μὴ πάνυ τι ἀποθηριῶσαι τὸ καινὸν τουτὶ ζῷον, ἀλλ’ οὖν καὶ αὐτὴ λεληθότως καὶ χεῖράς τινας καὶ πόδας τούτῳ προσέθετο.

 

Por João Vicente

1. Psellos está falando sobre a Dinastia Macedônia, a qual reinou o Império desde 867, quando Basílio, o Macedônio, assassinou o seu antecessor e patrono, Miguel III, e tomou o trono para si.
2. isto é, conquistar mais territórios.
3. Psellos está falando novamente da Dinastia Macedônia. A Pórfira é o recinto do palácio imperial de Constantinopla onde os filhos dos imperadores eram concebidos. Os gerados na pórfira (porphyrogennitoi) eram geralmente coroados em seus primeiros anos de vida e tratados como sucessores designados do imperador. Contudo, a sucessão dinástica não era regra em Bizâncio, por isso em muitos casos os “gerados na pórfira” não conseguiram se afirmar como imperadores.
4. Psellos era um admirador do legado clássico pagão, principalmente da filosofia neoplatônica, tendo reivindicado ter ressuscitado sozinho os estudos filosóficos em Bizâncio. Esse gosto pelos clássicos e pela filosofia pagã causou problemas para Psellos, que teve que responder frente as autoridades eclesiásticas acusações de ser um pagão.
5. Psellos quer dizer uma marcação existente nos barcos mercantes para sinalizar a carga máxima que eles podiam carregar.

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2 pensamentos sobre “A corrupção do corpo político bizantino – uma tradução da Cronografia de Miguel Psellos

  1. Juliana Alves disse:

    Parabéns pelo trabalho.

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