O “background” histórico do encontro entre o papa Francisco e o patriarca Cirilo de Moscou

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fevereiro 12, 2016 por João Vicente

Caros leitores,

Nessa sexta-feira, dia 12 de fevereiro, o papa Francisco e o patriarca Cirilo de Moscou irão se encontrar em Havana, Cuba, pela primeira vez na história.

Muitos jornais ou blogs (aqui e aqui) já explicaram resumidamente o porquê do aspecto “histórico” desse encontro.

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Papa Francisco e Patriarca Kirill. Fonte: noticias.gospelmais.com.br

Resumidamente, há as causas estruturais e as conjunturais.

Ambas tradições cristãs têm a mesma origem: comunidades cristãs fundadas por apóstolos nos anos que seguiram a morte e (pra quem acredita) ressurreição de Jesus Cristo. Contudo, ao longo dos anos cada uma das comunidades cristãs foram adquirindo características únicas com relação ao dogma e ao ritual.

Enquanto as comunidades orientais (Grécia, Asia Menor, Síria, Palestina e Egito) não sofreram pouco ou nenhum rompimento com as instabilidades trazidas pelas invasões bárbaras, as comunidades ocidentais (Itália, Galia, Península Ibérica, Ilhas Britânicas e Norte de África) suportaram diversas invasões, as quais enfraqueceram ou mesmo acabaram com as comunidades cristãs locais.

Praticamente só o bispo de Roma permaneceu e, a partir do século V, empreendeu grandes esforços para “recristianizar” a Europa Ocidental, que passou a ser controlada por reis pagãos (como no caso dos Anglo-Saxões nas Ilhas Britânicas) ou por aderentes da heresia ariana (como no caso dos Visigodos na Península Ibérica ou os Francos na Gália). Sob a liderança de papas como Gregório Magno (590-604), os reinos germânicos da Europa Ocidental passaram a ser convertidos e postos sob a autoridade, em primeiro momento puramente religiosa, do papa de Roma.

Enquanto isso, no Oriente, a continuidade da situação existente na Antiguidade, de grandes cidades com forte autonomia e identidade própria, favoreceu o surgimento de diversas autoridades religiosas autônomas.

No Concílio de Calcedônia, em 451, estabeleceu-se o que foi chamado a “Pentarquia”, segundo a qual a Igreja possuia cinco líderes, os Patriarcas: o de Alexandria, o de Jerusalém, o de Antioquia, o de Constantinopla e o de Roma. Ao patriarca de Roma, o papa, foi dado uma primazia, por ser o assento do apóstolo Pedro.

Apesar de ela ser simbólica, os papas seguintes foram dando pequenos passos em direção a tranformação dessa primazia simbólica em primazia de facto. Por essa razão, nós devemos relativizar algumas datas consideradas como “cismas”, como aquela no século IX e o outrz (o Grande Cisma), no qual o patriarca Miguel Cerulário de Constantinopla e o papa Leão IX se excomungaram um ao outro.

Esses eventos foram, na realidades, épocas mais tensas, depois das quais reaproximações eram feitas. Contudo, as Igreja Romana e as suas Igrejas-Irmãs orientais foram gradativamente se separando devido a questões teológicas, como a adoção da doutrina segundo a qual o Espírito Santo provem do Pai e do Filho (Filioque) pelos católicos, diferenças rituais, como o uso do pão azimo pelos católicos, diferenças de calendários, delimitações de jurisdição e por fim, e diria principalmente, os eventos políticos relacionados a expansão ocidental no Mediterrâneo Oriental: as Cruzadas.

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Conquista de Constantinopla pela Quarta Cruzada em 1204 numa miniatura européia do século XV. Fonte: Wikipédia.

Pensadas para ser um escape para a jovem aristocracia feudal sem-terra, as cruzadas tinham como objetivo inicial a conquista dos lugares santos na Palestina. Porém, elas resultaram na rápida degradação da relação entre bizantinos,  que suspeitavam que o objetivo real das cruzadas era conquistar Constantinopla, e os ocidentais, que passaram a desprezar cada vez mais os bizantinos, acusando-os de covardia e conspirar com os muçulmanos. Esse ódio crescente, a má-organização dos cruzados, a ganância dos venezianos e a ambição egoísta de alguns membros da dinastia imperial bizantina Angelos levaram a catástrofe que foi a conquista de Constantinopla pela Quarta Cruzada em 1204. Esse evento cimentou de uma vez por todas o cisma entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas.

Desesperados por auxílio ocidental contra os turcos otomanos, os imperadores bizantinos concordaram em unir suas Igrejas à de Roma – e reconhecer a superioridade papal – em Lyon em 1272 e Ferrara-Florença em 1439. A resistência interna fez com que os imperadores abandonassem rapidamente essa ideia. A conquista turca de Constantinopla em 1453 acabou com qualquer motivação possível para união das Igrejas, restando somente um enorme ressentimento por parte dos ortodoxos devido ao posicionamento arrogante de Roma e traidor dos católicos.

A situação começou a mudar no século XX, quando o papa Paulo VI encontrou-se me Jerusalém com o patriarca Atenágoras de Constantinpla (ou Istanbul) em 1964. Foi o primeiro encontro desse tipo. Ambos (simbolicamente) cancelaram as excomunhões e estabeleceram que ambas as Igrejas iriam reconhecer os sacramentos um do outro.

Correção: fui instruído que não existe esse reconhecimento “automático” de sacramentos. As Igreja Ortodoxas são regidas pelo conceito de “economia”, segundo a qual as Igrejas podem reconhecer formas exteriores de batismo, exigindo, então, a crisma, a confirmação. Contudo, a regra não vale para todas Igrejas ou mesmo para todas as congregações de uma mesma igreja, as quais podem seguir a “akribia”(exatidão) e exigir um novo batismo para o catecúmeno vindo de outra igreja.

Nem eles e nem seus sucessores puderam levar o processo mais além por causa das diferenças teológicas e rituais, além de ressentimentos antigos e a suspeita dos ortodoxos muito ciosos de sua autonomia.

Porém, a conjuntura atual faz a Igreja Católica e as Ortodoxas terem algumas agendas comuns: ambas lutam para acharem seu lugar num mundo contemporâneo extremamente secularizado e ambas estão bastante preocupadas com as perseguições de cristãs no Oriente Médio. Essas motivações favorecem o encontro entre o Papa de Roma e o Patriarca de Moscou, líder da maior congregação ortodoxa do mundo.

Eu vejo esse encontro positivamente, pois pode ser um passo importante para a reaproximação das Igrejas Cristãs depois de muitos séculos de atritos e desentendimentos e ambos, o papa Francisco e o patriarca Cirilo, podem ser uma ponte de entendimento e arrefecimento das tensões entre o Ocidente e a Rússia, cujas relações tem rapidamente se deteriorado desde a crise na Ucrânia em 2012.

Por João Vicente

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2 pensamentos sobre “O “background” histórico do encontro entre o papa Francisco e o patriarca Cirilo de Moscou

  1. Serafim disse:

    Oi, João!

    Parabéns pelo artigo!

    Porém, gostaria de notar dois pontos:

    1) Assim como na tradição católico-romana, nós ortodoxos também “traduzimos” os nomes de nossos bispos. Portanto, o usual é “Cirilo” (você mesmo escreveu “Atenágoras”! :]). É dessa forma como Sua Santidade é celebrada liturgicamente nas liturgias em português no Brasil.

    2) A retirada das excomunhões foi uma ação simbólica para o início do diálogo entre a Igreja Ortodoxa e o Catolicismo Romano. Não foram feitos compromissos teológicos nem eclesiológicos como o “reconhecimento dos sacramentos um do outro”. Apesar de alguns ortodoxos falarem que o batismo católico é “reconhecido como válido”, isto é um mal entendido, um afastamento do entendimento tradicional de “economia” (como foi exposto por São Nectário de Egina), que diz que aplicar economia é reconhecer somente as formas exteriores do batismo realizado fora da Igreja. Sendo assim, por economia, a pessoa é recebida pelo Crisma (o “segundo passo” na iniciação cristã), sendo unida através dele à Igreja e recebendo a Graça que faltou naquela celebração anterior fora da Igreja. Como as Igrejas locais tem liberdade para decidir a melhor solução a ser aplicada nessa questão, algumas outras aplicam a “acribia”, que é o rigorismo, preferindo batizar todos aqueles vindos de fora que chegam na Igreja Ortodoxa. O Patriarcado de Moscou, por exemplo, utiliza-se da economia como norma, mas permite que algumas de suas dioceses apliquem a acribia. O mesmo acontece com o Patriarcado Ecumênico, que permite a acribia no Monte Athos.

    Fique com Deus e que Ele lhe abençoe em seus estudos.

    Em Cristo,
    Serafim.

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