Um relato bizantino sobre Maomé – Tradução de relato de Teófanes Confessor séc. IX

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agosto 24, 2015 por João Vicente

Caros leitores,

Um dos fatores delimitadores para o desenvolvimento dos Estudos Bizantinos no Brasil é a inexistência de fontes traduzidas. Para contribuir mesmo que um pouco para superação dessa limitação, hoje inauguro uma nova categoria no site: traduções de fontes bizantinas para o português.

A primeira fonte é um relato biográfico e polêmico sobre Maomé composto pelo cronógrafo bizantino Teófanes Confessor (século IX). Ela vem acompanhada de uma análise de fonte

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As representações satíricas do Profeta do Islamismo que impulsionaram o massacre perpetrado na França por extremistas religiosos na redação da publicação “Charlie Hebdou”  levantam a discussão sobre em que nível as religiões devem ser poupadas e até onde vai a revolta justa de um fiel. Esse debate inter-religioso exaltado nos parece ser algo próprio dos nossos dias. Contudo, essas polêmicas  não são um fenômeno novo.

É comum, em toda História, que surja uma literatura polêmica em épocas nas quais duas religiões disputam uma hegemonia dentro de uma sociedade ou se torna elemento identitário entre poderes políticos dissonantes. Esse gênero literário pode ser expresso através de diálogos entre sábios de diferente religiões (cristão vs judeu, muçulmano vs cristão) nos quais o vencedor é naturalmente o representante da religião do autor. Outra forma de expressão de polêmica religiosa são relatos que difamam figuras-chave dentro da religião que se quer rejeitar. Autores gregos como Celso (século II) e Porfírio de Alexandria (sec. III), por exemplo, negam a santidade de Jesus de Nazaré e afirmam que ele era uma fraude. Celso chega a afirmar que ele era um filho bastardo de um legionário de nome Panthera. Esses comentários difamatórios ao Deus-Homem dos cristãos surgem num momento em que o movimento cristão começa a se destacar nas principais cidades do Império Romano. O surgimento de religiões novas não é um fenômeno raro no Império Romano, o qual era, aliás, um cadinho religioso, no qual diversos cultos surgiam, se encontravam, se fundiam e desapareciam. No entanto, o caráter politeísta deles não causava atritos, pois o culto a um Deus (ou Deusa) não resultava na negação de todos os outros e outras. O Cristianismo era, nesse sentido, um caso a parte, pois ele negava a existência de outras divindades e quando as reconhecia, era para afirmar que eram ídolos vazios ou pior, manifestações do demônio. Desse modo, entende-se as declarações agressivas e difamatórias contra o Cristianismo pelos pagãos.

Algo semelhante aconteceu com o surgimento do Islamismo. O surgimento dessa nova religião pegou os bizantinos de surpresa. O Império Bizantino mantinha, no século VI, além das tropas fronteiriças (limitanei), príncipes-clientes aliados que serviam para três propósitos: (1) prover o imperador de tropas auxiliares quando fosse necessário, (2) auxiliar na função de guardar e policiar as fronteiras e (3) informar os bizantinos sobre desenvolvimentos preocupantes em regiões além das fronteiras. Para manter a fidelidade desses príncipes-clientes, o imperador bizantino os agraciava com títulos palacianos e presentes luxuosos. Gradativamente, Constantinopla tentava atraí-los para sua zona de influência através da conversão da elite local ao Cristianismo Ortodoxo e posteriormente, os anexando a aristocracia bizantina.

Um desses príncipes-clientes eram os reis gassânidas do noroeste da Península Arábica. Convertidos ao Cristianismo Ortodoxo, eles passaram a servir como um estado-tampão entre Bizâncio e as tribos nômades árabes e um auxiliar na constante guerra contra os sassânidas. Entretanto, no final do século VI, a relação entre o Império Bizantino e os Gassânidas azedou. As razões para isso foram, provavelmente, uma mudança de foco na política externa bizantina, com as guerras ocidentais de reconquista por Justiniano I, e uma conversão de parte dos Gassânidas a versão miasita (monofisita) do Cristianismo, que era duramente perseguido em Bizâncio no período.

O distânciamento desse aliado foi especialmente negativo nesse período entre o final do século VI e o início do VII, pois o início do Islamismo e a unificação das tribos árabes foram completamente ignoradas pela autoridade central bizantina, que mais uma vez se envolvia num longo e custoso conflito com os Sassânidas. Apesar de tê-los derrotado, os bizantinos saíram extremamente fragilizados do conflito. Isso explica a rápida conquista islâmica de praticamente metade do Império Bizantino em menos de cem anos.  Mesmo assim, os bizantinos se saíram melhor do que os sassânidas, que foram completamente conquistados pelos sucessores do Profeta.

Norte de África, Europa e Oriente Próximo no final do século VI. O Reino Gassânida localiza-se no NO da Península Arábica.

Norte de África, Europa e Oriente Próximo no final do século VI. O Reino Gassânida localiza-se no NO da Península Arábica.

Surpresos e fragilizados, os bizantinos demoraram um pouco para digerir o novo status quo e adaptar os novos arqui-inimigos a sua concepção de mundo. Por essa razão, demorou duzentos anos depois que muçulmanos entraram em contato com os bizantinos para o surgimento de uma literatura polêmica contra os muçulmanos e o primeiro retrato bizantino de Maomé fosse composto.  Nós estamos naturalmente aqui deixando de lado João Damasceno, que, apesar de ser cristão ortodoxo e escrever em grego, ele nasceu, produziu e morreu na Síria sob o domínio muçulmano, portanto não podemos considerá-lo “bizantino” no sentido estrito. Logo, quem compôs esse retrato foi Teófanes Confessor (758-818). Ele foi um monge bizantino que escreveu um dos poucos relatos que se tem dos séculos VII e VIII da História Bizantina, os quais, por causa disso, são conhecidos como “Dark Ages” de Bizâncio. Não tanto por causa de uma suposta decadência cultural, mas pela rarefação das fontes e da consequente falta de informações que nos chegou sobre este período. Na composição cronística de Teófanes que abrange o período entre os reinados de Diocleciano (284-305) e Miguel I Rangabé (811-813), há uma pequena biografia de Maomé. Muito provavelmente, o retrato que ele faz do Profeta não foi inteiramente composto por ele. Teófanes deve ter se baseado em relatos anteriores e boatos que circulavam nos meios bizantinos.

Ícone retratando Teófanes Confessor.
Ícone retratando Teófanes Confessor.

Naturalmente, a imagem bizantina de Maomé é bastante negativa. Ele é apresentado como um farsante que inventou que havia sido visitado por anjos para justificar suas crises epiléticas e usou a influência e a ingenuidade feminina de uma viúva muito rica (Khadija/Chadiga) com quem havia se casado para se promover, além de ter sido apoiado por judeus que odiavam os cristãos e um monge herético. Além de todos esses fatores que, na opinião de Teófanes, deslegitimariam Maomé como profeta, ele aponta seus ensinamentos de recompensa divina àqueles caídos na guerra e o paraíso de prazeres carnais. Apesar de todas essas críticas, Teófanes reconhece que parte dos ensinamentos de Maomé pregavam a filantropia e compaixão com o outro. No fim, Maomé teria sido assassinado.

É interessante considerar alguns pontos:
– Apesar do tom difamatório do relato, Teófanes Confessor estava relativamente bem informado sobre a biografia de Maomé. O que ele fez foi interpretá-la de forma negativa.
– O fato de Maomé afirma ter sido visitado por anjos era complicado aos bizantinos, pois essa era uma marca característica dos profetas. Logo, era necessário a Teófanes refutar a veracidade dessas visitas e criar uma narrativa para assegurar que ele estaria mentindo.

– Essa imagem de Maomé vai ter um forte impacto em Bizâncio, pois relatos mais tardios sobre o Profeta iriam repetir essas mesmas acusações contra ele. Da mesma forma, a associação dos muçulmanos a Ismael, filho de Abraão, se fincou firmemente na mentalidade bizantina, pois um dos termos que os bizantinos usavam para nomear os muçulmanos era exatamente “ismaelitas”.

O relato tinha como objetivo tirar o crédito do Islamismo, considerado pelos bizantinos não como uma religião a parte, mas uma heresia, isto é, um desvio da crença correta e que era também o maior ameaça a existência do Império Bizantino. Então, enquanto os soldados do exército bizantino combatiam em batalhas nas fronteiras orientais do Império, os monges combatiam nas trincheiras das polêmicas inter-religiosas.

Theophanes Confessor, Chronografia, edição Karl Boor, vol 1, Textum Fraecum Continens, Lipsia, 1883, pp. 333-334

Ano do mundo 6122.
Ano da encarnação divina, 622
Heráclio, imperador dos romanos, ano 31, 21
Mouamed, líder dos árabes, ano 9.
Sérgio, bispo de Constantinopla, ano 29, 22
Zacarias, bispo de Jerusalém, ano 22
George, bispo de Alexandria, ano 14, 12

Neste ano morreu Mouamed, o líder dos sarracenos e pseudo-profeta, depois de apontar Aboubáxaros, um parente dele, para o seu comando. Nesta época também, a fama dele chegou e todos foram tomados pelo medo. Assim, no começo do seu advento, os judeus desencaminhados acreditaram que ele era o messias, que era esperado entre eles, de forma que alguns de seus líderes aproximaram-se dele, adotaram o culto a ele e abandonaram culto ao Moisés que viu Deus. Eram de número dez aqueles que fizeram isso e eles permaneceram com ele até o seu assassinato. Depois de observarem, porém, que ele comia carne de camelo, eles perceberam que ele não era quem eles acharam e vacilaram sobre o que fazer. Temendo abandonar o culto a ele, os desgraçados ensinavam a ele coisas ilícitas contra nós, cristãos, e permaneceram com ele.

Eu acredito ser necessário esclarecer sobre a origem dele. Este era descendente de uma tribo extremamente ampla, originária de Ismael, filho de Abraão, pois Nixaros, o descendente de Ismael, é considerado pai de todos eles. Este gerou dois filhos, Moudaros e Rabias. Moudaros gerou Kourasos, Kaisos, Themimes, Asadon e outros desconhecidos. Todos estes habitavam o deserto medianita e criavam gado nele, morando em tendas. Havia também os que estavam entre estes, não sendo da tribo deles, mas dos Iektan, os chamados Amanitas, estes eram Homeritas. E alguns deles faziam negócios com os seus camelos .

Sendo o mencionado Mouamed porém um pobre orfão, ele resolveu entrar no serviço de uma mulher rica, que era sua parente, cujo nome era Chadiga, como assalariado para cuidar de camelos e negociar no Egito e Palestina. Depois que ele pouco a pouco passou a falar com ela livremente, ele aproximou-se secretamente da mulher, que era viúva, a tomou como esposa e adquiriu os camelos dela e suas propriedades.

Sempre que ia a Palestina, ele se associava com judeus e cristãos. Ele procurou alguns escritos deles. Ele tinha também a condição da epilepsia. Depois que sua esposa percebeu isso, ela ficou bastante aflita, pois ela era nobre e casou-se com este, que não era somente pobre, mas também epilético. Ele fez parecer ter se curado dela dizendo desse modo: “eu estou tendo uma visão do chamado anjo Gabriel. Não conseguindo aguentar sua visão, eu desmaio e caio”. Ela mantinha um certo monge, amigo dela, que por heresia foi banido e morava ali. Ela reportou a ele tudo e o nome do anjo. Este falou a ela, querendo satisfazê-la: “Ele falou a verdade, pois este anjo também foi enviado a todos os profetas “ Ela, primeiro aceitando a palavra do pseudo-monge, acreditou nele e proclamou as outras mulheres que eram parentes dela que ele era um profeta. Assim também, a partir das mulheres, a fama (dele) chegou aos homens, primeiro Aboubácharos, o qual ele deixou também como sucessor. A heresia dele prevaleceu em partes de Etribos ultimamente através da guerra. Anteriormente, de forma escondida, por dez anos, através da guerra por igualmente dez e abertamente por nove. Ele ensinou aos seus ouvintes, que quem mata seus inimigos ou por ele é morto vai ao paraíso. Ele disse que existia um paraíso de comer e beber carnais e de relações sexuais com mulheres. Que existia rios de vinhos, de mel e de leite, sendo as mulheres não as existentes, mas outras, e as relações sexuais eram duradouras e o prazer permanente. Além de outras libertinagens cheias de asneira, ele falou se deve simpatizar-se com os outros e ajudar os injustiçados.

Naquele mesmo ano, na quarta indicção, mês de Novembro dia 7, nasceu para Heráclio no Oriente Davi, o filho dele. Neste mesmo dia, Heráclio veio ao mundo, o filho de Heráclio, o menor, que também era Constantino, do filho de Heráclio, o Grande. Ele foi batizado em Blachernais pelo patriarca Sergio na Quinta Indicção, mês de Novembro, dia 3.

Por João Vicente
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5 pensamentos sobre “Um relato bizantino sobre Maomé – Tradução de relato de Teófanes Confessor séc. IX

  1. Flavio Aguiar disse:

    Muito bom João, sou leitor do seu blog desde muito tempo. Apesar focar mais no cristianismo primitivo e o Jesus histórico, gosto bastante dos temas relativos ao imperio bizantino. Parabéns pela tradução.

  2. Alfredo Cruz disse:

    Tradução muito útil, João. Gratíssimo por ela, e pelo belo esforço de tornar acessíveis documentos bizantinos pouco conhecidos cá entre nós que não lemos o grego.

    PS. Por coincidência, vou oferecer daqui no fim do mês de outubro/início de novembro um minicurso sobre assunto correlato, aqui no Rio de Janeiro: http://www.clfc.puc-rio.br/cursos/o-profeta-do-isla-atraves-de-lentes-ocidentais/. Pois o relato de Teófanes, agora fortuitamente disponível, acaba de ser incorporado às fontes documentais que utilizarei.

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