Game of Thrones e a Roda da Fortuna

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março 10, 2015 por João Vicente

Caros leitores,

Hoje irei escrever sobre um tema que não tem muito a ver com Bizâncio, mas sobre o qual eu estou querendo tratar há algum tempo: a série televisiva Game of Thrones.

“Game of Thrones” tem tido um sucesso imenso e justificado, pois aliou a fórmula bem sucedida da HBO de fazer séries televisivas com o universo fantástico criado George R. R. Martin.

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O que mais me chama atenção nela é o quanto ela é “histórica”. Não, eu não surtei e nem estou dizendo que os Sete Reinos, os dragões ou os “outros” existiram. Todo aquele universo saiu da cabeça criativa e aparentemente (mas não realmente) sádica de Martin.

Um dos traços mais marcantes da série é que não há, como dizia um mestre de RPG que tive, “personagens de ouro”, isto é, aquele personagem-chave na história que você sabe que definitivamente não vai morrer. Na primeira temporada isso já ficou bem claro quando Ned Stark é executado (se bem que não é surpreendente que um personagem do Sean Bean morra). Nas temporadas seguintes, uma série de personagens importantes morrem. Às vezes de formas tão inesperadas que deixam os espectadores perplexos (vide Rains of Castamere, S03E09).

Essa característica não é – e aqui retomo a questão da “historicidade” da série – um sinal de sadismo do autor, que sentiria prazer em executar personagens queridos pela audiência. Isso se explica porque o mundo de Game of Thrones é fantástico somente em sua aparência, pois internamente ele tem todas as características, ou quase todas, de um reino europeu do final da Idade Média (séc. XIV-XV). Está tudo lá: as relações vassálicas de serviço dentro de uma nobreza claramente marcada com símbolos e valores de grupo como estrato social diferenciada, uma sociedade basicamente rural sustentada por um campesinato ligado por servidão a nobreza, uma religião instituída e institucional que está sob o controle do poder real, etc.

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Imagem flamenca da Batalha de Barnet (1471). Ela foi um evento da Guerra das Rosas, disputa dinástica que dividiu a Inglaterra no século 15 e que inspirou George R. R. Martin.

 

A medievalidade de Game of Thrones transcende as suas organizações e instituições políticas, econômicas e religiosas. Ela também surge na própria narrativa da série. Quando George R. R. Martin insere personagens na história, lhes dá destaque e depois os lança na desgraça ou mesmo os mata, o autor está fazendo uma clara referência ao conceito medieval da  rota fortunae, a roda da fortuna, que eleva as pessoas inesperadamente para as mais alta gloria para depois, de forma igualmente rápida, lançá-la na desgraça.

 A Fortuna é divindade romana  e personificação da sorte. Na Idade Média, o conceito de roda da fortuna inspirou obras religiosas, literárias e manuais de política, representava as incertezas da vida terrestre. Para as obras religiosas, essa alegoria servia para lembrar as pessoas da brevidade da vida e alertá-las para o Julgamento Final. Para as obras políticas, ela era usada para lembrar os príncipes que toda sua majestade e poder podiam desaparecer a qualquer momento. Logo, o uso da roda da fortuna tem funções moralizantes. Enfim, a Fortuna era uma força irresistível que humilhava os orgulhosos e aviltava os humildes.

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Roda da fortuna retratada no Manuscrito de Buron.

 

Maquiavel (1469-1527), posteriormente, defendeu n’O Príncipe que as forças da Fortuna podiam ser de alguma forma conduzidas, pois ele acreditava que a fortuna beneficiava aqueles que tinham virtudes. Aqui ele não estava se referindo as “virtudes cristãs” como seus predecessores,  mas algumas características, incluindo a crueldade, se necessária, que permitiam alguns príncipes se manter no poder, construir reinos e estabelecer dinastias.

Nesse sentido, podemos dizer que George R.R. Martin é um aluno de Maquiavel. Esse último trailer da próxima temporada confirma isso. O mundo criado por ele se encontra num caos político e há muitos que querem governá-lo, mas uns, por não possuírem a virtù, a virtude política segundo Maquiavel, são derrubados pela roda da fortuna. Ned Stark caiu por ser bom demais e Joffrey por ser cruel demais. O Príncipe de Maquiavel ou de Martin precisa saber ser bom e ser cruel na medida e na hora certa. A pergunta é saber quem é ele. Ou ela.

Por João Vicente

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