Suprimento de água de Constantinopla

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fevereiro 2, 2014 por João Vicente

Caros leitores,

Hoje posto mais um dos interessantíssimos vídeos do projeto Byzantium 1200 que faz a reconstrução digital do sistema de suprimento de água de Constantinopla.

A Idade Média conheceu poucas grandes cidades. A maior parte da população vivia no campo, em habitações rurais ou em pequenas vilas. As cidades tinham, quando muito, alguns milhares de habitantes. Grande cidades com dezenas ou centenas de milhares de habitantes eram raridade. As únicas que passaram de cem mil habitantes foram Córdoba (Espanha), Bagdá (Iraque), Cairo (Egito), Constantinopla e, no final da Idade Média, algumas cidades do norte da Itália.

As razões desse pequeno número de grandes cidades se encontram nas condições de sua existência. Esse centros urbanos necessitavam de um enorme sistema de suprimento de comida, água e produtos básicos, que em sua maior parte não eram produzidos nas regiões vizinhas dessas cidades. Devemos levar em consideração que a agricultura pré-industrialização tinha uma produtividade muito menor do que a atual, tanto que a maior parte dos agricultores dificilmente conseguiam produzir um excedente maior que a sua necessidade e de sua família. Aí entendemos porque os impostos nos impérios antigos e medievais eram tão odiados, pois muitas vezes os agricultores eram forçados a tirar a comida da boca de seus filhos para pagar os tributos. As cidades necessitavam, portanto, de um complexo sistema logístico que traria esses recursos de lugares longínquos. Logo, elas tinham que se situar ou no mar ou ao longo de rios navegáveis.

Constantinopla, por exemplo, quando (re)fundada por Constantino I em 324, tinha a disposição a enorme produção egípcia de grãos. Isso permitiu que sua população no final do século VI ultrapassasse, segundo estimativas, os 500.000 habitantes. Porém, a conquista muçulmana do Egito no século VII resultou num baque para Constantinopla, pois não havia mais como provir alimentos para essa enorme população. A reorganização política do Império dos séculos seguintes e as consequentes reorganizações logísticas e crescimento econômico permitiram que a população de Constantinopla crescesse novamente até atingir, nos séculos XI e XII, uma população semelhante a que tinha no século VI.

O suprimento de água era outra questão. Constantinopla, diferentemente das outras grandes cidades medievais mencionadas, não se assentou na beira de grandes rios. Por isso, Constantino I e seus sucessores construíram uma enorme rede de aquedutos e cisternas para suprir a cidade de água. O vídeo mostra isso claramente. Vemos que o sistema de aquedutos coletava água de lugares que eram até 200 km de distância de Constantinopla. Um feito de engenharia grandioso levando em conta as tecnologias disponíveis naquele tempo. Chegando em Constantinopla, a água era armazenada numa das muitas cisternas da cidade que até hoje existem e continuaram a armazenar água potável, só que da chuva. Até elas serem redescobertas por arqueólogos, diz-se que alguns habitantes de Istanbul conseguiam misteriosamente se suprir de pescado abrindo buracos no chão de suas casas.

Leitura Recomendada:

Ralph-Johann Lilie, Einführung in die byzantinische Geschichte. (em alemão)

Warren Treadgold, History of the byzantine State and Society. (em inglês)

Angeliki Laiou & Cecile Morrisson, The byzantine Economy. (em inglês)

Por João Vicente

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Um pensamento sobre “Suprimento de água de Constantinopla

  1. […] Fontes: Bizântinística, Espaço Geográfico, Engenharia Civil. […]

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