O verdadeiro fim da civilização bizantina

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novembro 3, 2012 por João Vicente

Muitos acusam os Otomanos de destruírem o legado bizantino por terem conquistado Constantinopla e acabado com que restava do Império Romano do Oriente em 1453. No entanto, os otomanos mantiveram muito da estrutura urbana das cidades bizantinas, mantiveram as igrejas, transformando algumas em mesquitas, mas modificando-as muito pouco e permitiram que os que professavam religião cristã-ortodoxa e falavam o idioma grego, os auto-proclamados romanos, mantivessem suas tradições, sendo liderados pelo Patriarca de Constantinopla, que respondia diretamente ao sultão. Isto é, uma parte importante da civilização bizantina foi preservada pelos otomanos, incluindo a Igreja, que era parte do Estado Bizantino.

Igreja bizantina na Turquia

A desgraça do legado bizantino foi trazida pela “modernidade” do século XIX. A jovem República da Turquia alimentado pelo nacionalismo expulsou comunidades greco-ortodoxas da Anatólia, destruindo igrejas milenares e desenraizando uma população que ali vivia há mais de 2.500 anos. O grande incêndio de Esmirna foi o exemplo mais trágico desse movimento.

Esmirna ou Izmir é uma cidade localizada na atual Turquia. Fundada por gregos na Antiguidade, ela foi um importante centro urbano e comercial por toda a História Bizantina. Durante o domínio turco, ela se tornou um grande, senão o maior centro urbano da população romana, isto é, de fala grega e rito cristão-ortodoxo, representando a metade de uma cidade habitada por 300.000 pessoas.

Em 1922, o exército grego, que havia ocupado a cidade três anos antes, retirou-se, sendo seguido por tropas turcas que entraram em Esmirna ateando fogo nos bairros cristãos dos gregos e armênios. Milhares morreram (as estimativas vão entre dez e cem mil) e outros milhares foram expulsos para o mar, sendo resgatados por barcos gregos e dos aliados dos gregos. Esse desastre foi um dos maiores golpes a cultura “pós-bizantina” e pode ser considerado um dos marcos finais da transformação da identidade “romana” em “grega”, pois, expulsos e desenraizados, essas pessoas não tiveram outra opção senão migrarem para Grécia e tornarem a si próprios gregos.

Já o nacionalismo grego teve sua parcela nessa triste História. Em busca de uma ligação direta entre a Grécia Moderna do século XIX e a Atenas de Péricles, os nacionalistas gregos perpetraram um enorme esforço para descontruir a antiga identidade coletiva da maior parte da população cristã-ortodoxa falante do grego, a chamada romaiosyne ou romanidade, quase uma proto-nacionalidade existente desde muito antes da invenção do próprio conceito de nacionalidade, para então erguer a nacionalidade grega, baseada num ideal do que foi a Grécia Clássica. O resultado disso foi igualmente trágico, pois o legado bizantino na Grécia foi por mais das vezes ignorado.

Em Atenas, por exemplo, as camadas bizantinas da cidade foram sumariamente destruídas por arqueólogos movidos por esse nacionalismo neo-helênico. Eles pretendiam, desse modo, resgatar a Atenas Clássica a qualquer custo e integrá-la a Atenas, capital da nova República Helênica. Além disso, o impulso da modernidade exigiu que as cidades milenares fossem postas abaixo para a construção de edifícios, teatros e largas avenidas. Essa foi a causa do desaparecimento em cidades como Istambul e Tessalônica, que viveu um enorme incêndio em 1917, de inúmeros edifícios, igrejas, palácios e estruturas urbanas bizantinas que conseguiram sobreviver até século XX.

No final deste mesmo século, no entanto, o posicionamento das autoridades mudou em relação ao legado bizantino. Surge, nas últimas décadas, em diversos países, principalmente na Turquia, uma preocupação com relação a conservação do que sobrou.  Deve-se isso principalmente ao potencial turístico que esses edifícios têm e o interesse em se integrar a União Européia. Exemplos dessa tendência são as reformas da Igreja de Cora e das Muralhas de Constantinopla.

Para saber mais:

Mark MAZOWER, Tessalônica – a Cidade dos Fantasmas: Cristãos, Muçulmanos e Judeus (1450-1950), Companhia das Letras, 1950.

Por João Vicente

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2 pensamentos sobre “O verdadeiro fim da civilização bizantina

  1. rocky gadelha disse:

    Excelente o texto. Morei em Istanbul por um ano e tenho sempre retornado. Aqueles que hoje chamamos “turcos”, na realidade são os habitantes locais que adotaram a religião e costumes otomanos, como Sinan. Os sultões, eram filhos, netos e bisnetos de escravas gregas, onde as origens otomanas se perderam, como Süleyman, filho de mãe grega, cujo pai e o avô eram também filhos de mães gregas…

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