Livro recomendado: Hellenism in Byzantium: the transformation of Greek Identity and the reception of the Classical Tradition de Anthony Kaldellis

1

agosto 27, 2012 por João Vicente

Há uns meses atrás li um daqueles livros que realmente mudam a forma de você ver as coisas.

Os estudos bizantinos são conhecidos por serem muito conservadores, mesmo comparando com outras disciplinas acadêmicas. A razão disso eu não sei, mas é fato que as grandes mudanças ou quebra de modelos parecem atingir a Bizantinística por último. Desse modo, é prazeroso e impressionante ler um trabalho como Hellenism in Byzantium: the transformation of Greek Identity and the reception of the Classical Tradition de Anthony Kaldellis.

Como o título deixa claro, o livro analisa a forma que os bizantinos lidavam com o legado grego clássico, que ia do absoluto desprezo dos monges e dos patriotas romanos até a reverência dos filósofos Miguel Psello e Pleton. No entanto, Kaldelis vai além e trata da complicada questão da identidade bizantina. Eles eram romanos, gregos ou cristãos? ou os três? Esse paradoxo tem resultado e continua resultando as principais discussões entre aqueles que estudam a civilização bizantina, e o livro de Kaldelis é uma contribuição inteligente e corajosa a essa discussão.

Ele afirma que os pesquisadores atuais são “enganados” pelas fontes bizantinas, pois a maior parte dos documentos que temos a disposição é relacionada ao poder imperial. Esses documentos criam uma imagem de um imperador cristão e universal, por isso não ligado a grupos étnicos. Para o autor, isso é enganoso, pois esses documentos propõem uma imagem idealizada do poder imperial, que muitas vezes não correspondia a realidade e que, por trás, carregavam motivações diplomáticas mais objetivas, como afirmar a soberania imperial sobre tal potentado ou região. Isso e o cânon historiográfico que diz que nacionalidades são fenômenos modernos criaram a ideia de que Bizâncio era um império multiétnico e com pretensões universalistas, a semelhança do Sacro Império Romano-Germânico ou o Império Otomano. Essa tradição é veementemente contestada por Kaldellis.

O autor, então, propõe que havia de fato uma preponderância da identidade romana. Ele chega afirmar corajosamente e com bases teóricas, que existia uma nacionalidade “romana” a partir do século III e que se estende até 1453. Segundo ele, esse sentimento de nacionalidade era expresso de uma forma não muito diferente do jeito que nós compreendemos a nossas nacionalidades contemporâneas: ser bizantino era falar um idioma romano (questão que confundiu muitos estudiosos, que identificaram, por essa razão, os bizantinos como gregos, mas a solução é simples: o idioma pode ter se originado na Grécia, mas mesmo assim ele não deixa de ser romano. Ou nós brasileiros somos portugueses porque falamos um idioma cuja origem é em Portugal?), ser cristão ortodoxo e reconhecer a autoridade política romana. Nesse aspecto, o autor tira o imperador do centro do universo e afirma que o poder imperial é uma das muitas instituições políticas que formavam a polis bizantina, a Romania. O imperador era o detentor de cargo cedido pelos cidadãos da Romania com condições pré-estabelecidas, que era a proteger o Império e seus habitantes de invasores, a aplicar as leis e, após a cristianização, proteger a Igreja. Da mesma forma que hoje, essa nacionalidade podia ser também compreendida pela adoção de hábitos mundanos, mas não menos importantes: como ter um certo tipo de educação, comer um certo tipo de comida ou vestir um certo tipo de roupa.

Kaldelis também mostra que além de coerente, essa “identidade nacional” bizantina foi resiliente: ela sobreviveu, sob jugo estrangeiro, até o século XX, quando uma nova identidade nacional, a helênica, surge e transforma os antigos romanos em gregos.

Ilha de Lemnos, Grécia (fonte:wikipedia)

Para ilustrar essa impressionante duração, Anthony Kaldelis narra um episódio passado na infância de Peter Charanis, historiador grego radicado nos EUA, na ilha de Lemnos em (atenção!) em 1912:

“Quando a ilha foi ocupada pela marinha grega, soldados gregos foram enviados para as vilas e acamparam nas praças das cidades. Alguns de nós crianças corremos para ver eram como aqueles soldados gregos, aqueles helenos. ‘Para o que vocês estão olhando?’, um deles perguntou. ‘Para helenos’, nós respondemos. “Vocês próprios não são helenos?’, ele replicou. ‘Não, nós somos romanos’ (p.42, meus negritos)”

Por João Vicente

Anúncios

Um pensamento sobre “Livro recomendado: Hellenism in Byzantium: the transformation of Greek Identity and the reception of the Classical Tradition de Anthony Kaldellis

  1. […] ← Livro recomendado: Hellenism in Byzantium: the transformation of Greek Identity and the recep… novembro 3, 2012 · 11:32 am ↓ Jump to Comments […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Junte-se a 97 outros seguidores

Arquivos

%d blogueiros gostam disto: