Manuscrito Grec 510 da Biblioteca Nacional de Paris contendo as Homilias de Gregório de Nazianzo (aprox. 880)

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agosto 7, 2012 por João Vicente

Gosto muito descobrir “que sei que nada sei”. Obviamente que não sou um grande especialista da produção artística bizantina, longe disso, mas imaginava já conhecer as grandes obras dessa civilização, principalmente as do período que mais me interesso (séculos IX ao XIII, conhecido como “período médio”). Contudo, essa semana meu colega de faculdade e amigo Rafael Diehl me enviou um vídeo feito pelo site francês Connassance des Arts entrevistando o Christian Förstell sobre o manuscrito Grec 510 contendo a obra “Homilias de Gregório de Nazianzo”, do qual nunca tinha ouvido falar.

Para assistir o vídeo clique aqui!

Esse códice feito por volta do ano 880, durante o reinado de Basílio I (867-886), é uma obra belíssima feito segundo as tendências estilísticas do período Macedônio (867-1056).

 Bizâncio vivia uma época de efervescência artística. Depois de longos e duros anos de Iconoclasmo, o culto aos ícones foi restabelecido em 856. Assim, as igrejas do Império Bizantino tiveram que ser redecoradas e novos livros com imagens tiveram que ser copiados. Os bizantinos passaram então a se voltar ao período anterior ao Iconoclasmo para buscar inspiração. Desse modo, uma arte de pendores “clássicos” surgiu em Bizâncio. Na verdade, a arte bizantina passou a se inspirar na estética tardo-antiga (séculos III e VIII), uma época de transição entre o Paganismo e Cristianismo.

Iluminura retratando o imperado Basílio (86-886) no centro e, ao seu lado, os príncipes Leão (a direita) e Alexandre (a esquerda). Manuscrito das Homilias de Gregório de Nazianzo – Grec 510 (aprox. 880). Fonte: Biblioteca Nacional da França.

Esse foi um tempo de adaptações e experimentações. As expressões culturais surgidas no seio da época clássica e, por conseguinte, do Paganismo, tentavam achar seu nicho dentro de um mundo dominantemente cristão, resultando numa arte que remetia ao individualismo e naturalismo pagão, mas a serviço da nova Fé. Esse diálogo com o legado clássico posteriormente se aprofundou, criando diversas formas de expressões que vão fazer parte da identidade bizantina medieval.

Davi tocando arpa. Saltério de Paris – aprox. 1000 (Fonte: wikipedia) Interessante observar o cenário em que os personagens estão inseridos, assim como seus trajes e gestos, que remetem diretamente a um estética pré-cristã. O próprio personagem Davi, um rei ligado a vida bucólica do campo e a música, reforça o estilo.

Até o momento o principal representante desse estilo era o Saltério de Paris, um manuscrito contendo imagens e miniaturas retratando cenas do Antigo Testamento. Observando os personagens individualizados, o estilo das roupas e o cenário natural, percebemos que essas são imagens profundamente influenciadas por modelos clássicos.

Características semelhantes se observam no manuscrito Grec 510. Além das imagens de estilo “classicizante”, podemos ver que até a escrita foi inspirada em modelos tardo-antigos. Ao invés de usar a letra minúscula bizantina como era o padrão de sua época, o copista preferiu usar as maiúsculas que remontam os séculos V e VI.

Primeira página do manuscrito Grec 510 contendo as Homilias de Gregório de Nazianzo Fonte: Biblioteca Nacional da França.

A própria obra escolhida para ser copiada remete a essa proposta estilística. Tendo vivido numa época em que os cristãos estavam discutindo quais os caminhos que o Cristianismo deveria tomar depois de deixar de ser uma religião perseguida para se tornar a religião oficial e majoritária do Império Romano, Gregório de Nazianzo foi um dos líderes da tendência que se tornou dominante e moldou a forma que o Cristianismo tomou até os nossos dias. Enquanto uns defendiam um divórcio total com o passado pré-cristão e com suas propostas éticas, morais e estéticas, pois esses estavam imersos no Paganismo, Gregório de Nazianzo defendia, principalmente através de suas Homilias, que, desde  os tempos de Paulo, o Cristianismo passou a depender da cultura grega para se expressar e sair do nicho judaico onde se originou, sendo assim ele propunha uma “purificação” do legado clássico para transformá-lo numa forma mais erudita e bela de expressão da mensagem cristã.

A escolha dessa obra, desse modo, é simbólica, pois representa um reinício desse debate artístico e intelectual que marcou a época de reinado da dinastia de Constantino, idealizada pelos bizantinos como um tempo áureo depois de um período obscuro de perseguições religiosas impetradas por tiranos, que era como os bizantinos retratavam Diocleciano e seu reinado. Portanto, a produção desse manuscrito representa uma ponte de uma metáfora, pois, tendo reinado nos anos logo após o fim do Iconoclasmo e seu esforço em estabelecer uma dinastia, Basílio I seria um novo Constantino I, um paladino da Ortodoxia e fundador de uma nova dinastia que levaria a Nova Roma uma outra época dourada depois de um largo e triste período dominado pelos tiranos hereges iconoclastas.

Essa visão é reforçada pelo fato de que essa obra é tão rica e sofisticada que somente poderia ter sido produzida pelas oficinas imperiais (que é o mais provável, se levarmos em conta que a família imperial aparece em uma das primeira páginas do códice)  ou por um dos maiores monastérios de Constantinopla

Infelizmente, o tempo foi cruel com esse códice e boa parte das imagens está relativamente desgastada. Por essa razão, esse manuscrito é raramente exposto e, por isso, menos conhecido do que o Saltério de Paris. No entanto, essa versão das Homilias de São Gregório de Nazianzo não deixa de ser uma das obras-primas da Arte Bizantina.

Iluminura retratando o Concílio de Constantinopla em 381. Manuscrito Grec 510 contendo as Homilias de São Gregório Nazianzo. Fonte: Biblioteca Nacional da França

Iluminura retratando crucificação de Cristo. Manuscrito Grec 510 contendo as Homilias de São Gregório Nazianzo. Fonte: Biblioteca Nacional da França

Iluminura retratando cenas da vida do santo. Manuscrito Grec 510 contendo as Homilias de São Gregório Nazianzo. Fonte: Biblioteca Nacional da França

Por João Vicente

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10 pensamentos sobre “Manuscrito Grec 510 da Biblioteca Nacional de Paris contendo as Homilias de Gregório de Nazianzo (aprox. 880)

  1. Estou trabalhando num texto crítico da Oração 51 – Sobre o Pentecostes de autoria de Gregório o Teólogo. E após tomar conhecimento desse manuscrito (através desse artigo) fiquei deveras excitado!

    Talvez esse manuscrito reflita alguma variante textual interessante. No entanto acessar on-line ou baixar um manuscrito é um martírio!

    Parabéns pelo texto.

  2. […] Por outro lado, havia livros que eram de fato monumentos cuja complexidade e riqueza poderiam ser comparadas as igrejas. Esses códices eram compostos nas oficinas imperiais ou dos monastérios mais importantes, como os de Studio ou aqueles no Monte Athos, esses manuscritos eram ricamente decorados com iluminuras e gravações feitas  com os mais nobres materiais e eram geralmente encomendados para serem enviados como presentes diplomáticos ou recompensas distintivas aos mais próximos do imperador. Exemplo: Manuscrito Grec 510 da Biblioteca Nacional de Paris. […]

  3. […] Por outro lado, havia livros que eram de fato monumentos cuja complexidade e riqueza poderiam ser comparadas as igrejas. Esses códices eram compostos nas oficinas imperiais ou dos monastérios mais importantes, como os de Studio ou aqueles no Monte Athos, esses manuscritos eram ricamente decorados com iluminuras e gravações feitas  com os mais nobres materiais e eram geralmente encomendados para serem enviados como presentes diplomáticos ou recompensas distintivas aos mais próximos do imperador. Exemplo: Manuscrito Grec 510 da Biblioteca Nacional de Paris. […]

  4. Leonardo disse:

    Muito bom o texto, João Vicente.

  5. Realmente Incrível!!!!!

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