Musica para o único Deus

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julho 23, 2012 por João Vicente

Quando pensamos em Europa ou União Européia nos dias de hoje, o que nos vem a cabeça são assuntos como “desemprego”, “dívida pública”, “bolha imobiliária”, entre outros temas relacionados ao pântano financeiro que eles estão metidos. No entanto, antes da crise estourar em 2008, um dos principais assuntos relacionados a UE era se a Turquia poderia ou não se juntar ao bloco.

Uns como o atual papa Bento XVI, a chanceler alemã Angela Merkel e o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy eram contra e outros como o premiê britânico David Cameron e o ex-primeiro ministro espanhol José Luiz Zapatero eram a favor. A Turquia e os turcos em geral são a favor e por isso, tem adotado uma política com objetivo de mostrar aos europeus que o seu país é parte integrante da Civilização Européia, assim como o é da Civilização Islâmica.

Por essas razões o passado otomano e o bizantino tem sido finalmente retomado pelo Estado Turco. Digo “finalmente retomado” porque durante décadas a História Pré-Ataturk foi relegada ao esquecimento e agora passa a ser valorizada pela Turquia.

Nota de esclarecimento: Mustafa Kemal Ataturk (1881-1938) foi o indivíduo de maior destaque da História da Turquia. Pensem o que é o Getúlio Vargas para nós brasileiros e multipliquem pelo que é Juscelino Kubitschek, o resultado é o que o Ataturk é pra Turquia.

Ele foi um político vindo das fileiras do exército e a frente de uma revolução, aboliu o Império Otomano e fundou a República da Turquia em 1922. Como primeiro presidente da Turquia, ele empreendeu amplas reformas com objetivo de “modernizar” (aí se entende “ocidentalizar”) o país e hoje seu nome é usado para nomear a maior parte das obras públicas. Além disso, há uma estátua dele em cada cidade turca.

Apesar de que as reformas de Ataturk tenham impedido que a Turquia tenha se tornado um “Irã” em questões de direitos humanos, permitindo uma ampla liberdade as mulheres e uma democracia mais ou menos estável (eventualmente abolida quando os militares não gostavam do eleito ou achavam que o caminho de secularização estatal criado por Ataturk estava em risco), elas não foram muito positivas se tratando do riquíssimo legado cultural e histórico daquele país. O nacionalismo extremo de Ataturk diminuiu o Império Otomano a uma linhagem de déspotas e transformou as outras civilizações que por ali passaram, por exemplo o Império Romano e (ou) Bizantino, em uma pequena nota de rodapé da História.

A restauração da Igreja de Chora em Istambul feita há alguns anos atrás é uma demonstração do nascente interesse turco pelo legado bizantino (Fonte: columbia.edu)

Tudo mudou com a UE. Querendo se juntar a festa da bonança de crédito pré-2008, a Turquia pela primeira vez retornou seus olhos ao seu passado e passou a dar valor o que houve nos anos A.A, ou antes-de-Ataturk. Não só o Império Otomano, mas também o Império Bizantino. Escavações arqueológicas nas camadas romanas e bizantinas passaram a ser incentivadas e foi nessa época que a academia turca começa a ter destaque nos Estudos Bizantinos.

Todo esse esforço acaba sendo recompensado, pois Istambul foi escolhida para ser a capital européia da cultura no ano de 2010. O governo turco realizou, assim, uma série de exposições, restaurações e eventos ligados ao legado que une a Turquia a Europa. Um desses eventos foi o “Music for One God“, o que em português seria “Música para o único Deus”.

Organizado pelo diretor musical turco estabelecido na Alemanha Mehmet Yeşilçay, esse projeto tem como inspiração o musico Ali Ufki.

Fonte: one-god.eu

Nascido como Wojciech Bobowski em 1610, ele foi tomado como prisioneiro durante um ataque tártaro e vendido como escravo a corte do sultão otomano Murad IV. Lá ele se converteu ao Islamismo, adotando o nome “Ali Ufki”, tornando-se um importante organista e alaudista. Seu repertório é bastante eclético, compreendendo músicas sacras muçulmanas e profanas, além de ter traduzido diversas obras cristãs para o turco. Por ter introduzido a tradição musical clássica européia no meio turco, Ali  Ufki é considerado como um dos fundadores da musica clássica turca. Então, inspirado no ambiente cosmopolita encontrado na corte dos sultões otomanos, Mehmet Yeşilçay criou um projeto que junte as tradições musicais das três grandes religiões monoteístas num concerto só.

Sendo assim, o “Music for One God” junta cantores judeus sefaraditas, coristas cristãos ortodoxos gregos e armênios e instrumentistas turcos. O resultado é fascinante. Preces islâmicas cantadas, orações sufis, salmodias bizantinas e árias barrocas numa mesma apresentação, que tem por objetivo mostrar que a convivência pacífica e o intercâmbio cultural entre diferentes religiões – que é um dos objetivos da União Européia – já existiam na corte dos sultões.

Site do projeto “Music for the One God” 

Para concluir, deixo os vídeos da apresentação do “Music for One God” realizada dia 24 de Abril de 2010, na belíssima igreja deSanta Irene, templo bizantino e irmã menor da Catedral de Santa Sofia.

Por João Vicente

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8 pensamentos sobre “Musica para o único Deus

  1. […] Copiado do site do https://imperiobizantino.com.br/ […]

  2. […] Turquia passa atualmente por um momento bastante conturbado. A república laicista fundada por Kemal Ataturk está sendo constantemente contestada pelo governo de tendências cada dia mais religiosas de […]

  3. mehmet ali disse:

    Prezado João, gostei do estilo do texto e conteúdo e se permiter, gostaria de compartilhar este texto no meu site tb: http://www.passeiosemistambul.com

    na realidade, já coloquei, mas se quiser, eu tiro de lá.

  4. […] Copiado do site do https://imperiobizantino.com.br/ […]

  5. […]  Deve-se isso principalmente ao potencial turístico que esses edifícios têm e o interesse em se integrar a União Européia. Exemplos dessa tendência são as reformas da Igreja de Cora e das Muralhas de […]

  6. eloybida disse:

    Amigo adorei seu texto. Apenas uma observação. Ali Ufkî não era alaudista, mas tocava Santur ele era um ‘Santuri’. Também não foi um dos fundadores, ele foi um COPILADOR do repertório do século 16,17 apesar de nesta copilação constar algumas composições dele.

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