Santos guerreiros bizantinos: mártires, guerreiros e orixás

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julho 16, 2012 por João Vicente

Desde minhas primeiras leituras sobre a civilização bizantina que me fascino com a imagem em ícones e mosaicos de santos portando escudos, lanças e espadas a mostra e vestindo panóplias do alto oficialato do exército bizantino. Elas me interessam e me intrigam, pois aquelas imagens me passavam e ainda passam um sentimento de altivez e auto-confiança e contrariavam a imagem criada desde o “Século das Luzes” que desenha os bizantinos como uma raça covarde, efeminada e vil.

Cena do hilário “Incrível Exército de Brancaleone” retratando uma corte bizantina bem esteriotipada!

Então eu via uma imagem como a abaixo e me perguntava: “Como um povo assim poderia produzir algo desse tipo?” Naturalmente, mais tarde descobri que esse aparente paradoxo só existia na minha cabeça e na daqueles que criaram o esteriótipo de Bizâncio.

Mosaico bizantino de S. Demétrio de Salônica anteriormente no Monastério de Teto Dourado de Kiev e atualmente na Galeria Tretyakov em Moscou – século XII. Fonte: wikipedia

Os estudos que conheço tratam desse assunto como um fenômeno paralelo relacionados a outros desenvolvimentos históricos da História Bizantina. Triste, pois, em minha opinião, o culto dos santos militares são tema de primeira grandeza, devido sua divulgação e popularidade dentro não só da sociedade bizantina, mas de toda Cristandade até hoje. Tudo isso tem sua origem em Bizâncio.

A relação que o Cristianismo tinha com a guerra, em especial com a instituição exército romano, nos primeiros séculos de sua existência foi conturbada. O exército romano no fim da República e no início do Império havia se tornado uma instituição bastante rica etnicamente e culturalmente, uma real esponja que absorvia para dentro da sociedade romana práticas religiosas de outras culturas que os romanos iam entrando em contato durante sua expansão.  Apesar de que Roma fosse bastante tolerante com as religiões politeístas estrangeiras, o mesmo não acontecia com as religiões monoteístas. A razão disso é a forma como os cultos religiosos eram indistinguíveis das instituições políticas. Os romanos acreditavam que todas as suas instituições haviam sido criadas pelos deuses, por isso eram sagradas e sua investidura tinha um caráter religioso. Sendo assim, para aceitar o domínio romano era necessário aceitar seus deuses.

Há uma cena da série “Roma” da HBO que ilustra isso perfeitamente, na qual o personagem Vorenus torna-se um “evocatus”, um soldado que decide continuar nas fileiras das legiões romanas depois de findo seu tempo de serviço. Sua nomeação acontece dentro de um templo do deus Marte e envolve um ritual.

Essa organização para um seguidor de uma seita politeísta não apresentava nenhum problema, mas havia conflitos de consciência para um monoteísta cristão ou judeu. A situação piora na medida em que os próprios imperadores romanos se divinizavam, obrigando aos súditos do Império não só reconhecerem a autoridade política de Roma, mas também a autoridade divina de seu monarca.

Esse conflito marcou profundamente os primeiros cristãos, que numerosas vezes tiveram de enfrentar o dilema de aceitar essa outra autoridade religiosa ou sofrer as conseqüências, que constantemente envolviam o aprisionamento, perda de propriedade e a morte. Representantes da maior parcela dos funcionários imperiais romanos, os soldados são parte significativa dos mártires dos primeiros tempos cristãos, principalmente durante as perseguições de Diocleciano (303-311). Ainda que a pesquisa histórica tenha questionado a existência de parte significativa desses “santos militares” e suspeitado que eles tenham sido criação de uma literatura hagiográfica bem posterior, os mártires existiram dentro das legiões romanas e foram resultado desse conflito de lealdades.

S. Jorge frente a Diocleciano. Mural do monastério de Ubisi, Georgia. Século XIV. Fonte: wikipedia

Depois da Cristianização do Império Romano a partir do século IV, outra discussão ganhou força: um cristão poderia matar mesmo para defender sua pátria? O exemplo de Cristo nas Escrituras era de “dar a outra face”. Por isso, alguns cristãos como Basílio de Cesareia (330-379) e o papa Siricio (384-399) defendiam que a guerra era uma atividade impura e que os soldados deveriam passar por algum tipo de penitência antes de poderem participar da Eucaristia novamente. Outros como bispo Ambósio de Milão (330-397), e Atanásio(298-373), patriarca de Alexandria, afirmavam que não era errado, mas louvável defender o Império, agora cristianizado e tornando-se gradativamente uma “Nova Israel” no discurso oficial, contra seus inimigos. Apesar desse último argumento ter sido o adotado, Bizâncio nunca deu o passo que o Ocidente deu ao transformar a guerra contra o infiel em algo sacro por si mesmo e os soldados cristãos caídos em mártires. As tentativas nesse sentido, como a do imperador Nicéforo II Focas (963-969), nunca foram muito populares e sofreram fortes resistências por parte da Igreja Bizantina.

O imperador Nicéforo II Focas

Durante muito tempo, a iconografia não diferenciava muito os santos guerreiros dos outros santos do universo cristão. Isso muda no século IX, quando começa a surgir no universo bizantino diversos registros visuais e hagiográficos se focando no caráter bélico de alguns santos, retratando-os com armaduras, portando armas e escudos, montando cavalos e em posição de ataque. Nessa época que surge a imagem, tão familiar para nós, de São Jorge e o Dragão. O que aconteceu?

S. Demétrio de Salônica. Metropolitan Museum de Nova York – século X

Após um largo período de crise política, social e religiosa, Bizâncio começa a dar sinais de reorganização nesse século IX. O Iconoclasmo é para sempre revogado em 843; depois de séculos de instabilidade política, crises sucessórias e guerras civis, uma dinastia de origem armênio-macedônia consegue se estabelecer no poder em 867, realizando importantes reformas administrativas e legislativas; e a economia começa a dar sinais de reavivamento. Esse retorno da estabilidade foi acompanhada (se foi causa ou consequência é ainda questão de debate) de ressurgimento de uma capacidade ofensiva do Império Bizantino com o início de uma expansão de suas fronteiras orientais no Levante, no final do século IX. Essa capacidade so vai crescer nos anos seguintes, resultando no crescimento exponencial do império e reconsolidando a posição inconteste de Bizâncio como o maior e mais poderoso império medieval nos idos do ano 1000.

Essa expansão militar, principalmente para o leste, e o crescimento da economia bizantina, que tinha bases agrárias, resultou no surgimento de uma aristocracia fundiária com fortes bases no exército. As famílias dessa cepa, como os Ducas, Focades e Skleroi  se tornaram fortes e tinham uma base de apoio tão ampla que seguidamente contestaram os imperadores e mesmo tentaram destroná-los. Por muito tempo não tiveram sucesso, até que um membro de uma família bem menos proeminente que essas acima mencionadas, Aleixo Comneno, conseguiu se fazer imperador em 1081 e com isso a aristocracia monopolizou para sempre o trono bizantino. No entanto, isso só aconteceu porque a autoridade imperial estava fragilizada por invasões externas e uma crise sucessória acarretada pelo fim da dinastia macedônia, em 1056.

Retornando ao assunto, essa aristocracia de ethos guerreiro passou a criar formas de expressão com as quais eles poderiam se identificar, aí que entra o culto de santos guerreiros e as mudanças na sua iconografia. Eles deixaram de ser retratados como passivos mártires com pouca e nenhuma referência ao seu background militar. Assim surge uma miriade de imagens de santos vestindo a panoplia completa de um alto oficial do exército bizantino, portando orgulhosamente  escudos, lanças e espadas a mostra. Eles eram os soldados de Cristo contra o Mal, representado pelo dragão lancetado por S. Jorge, uma clara metáfora para aqueles aristocratas que lideravam pessoalmente os esforços bizantinos contra os infiéis muçulmanos.

Afresco de S. Jorge e S. Teodoro na Igreja de Yilanli na Capadócia – século XI

Até o início século XII, essa iconografia estava limitada a contexto específicos dentro dessa aristocracia, como as igrejas escavadas na pedra na Capadócia, região plenamente dominada por linhagens aristocráticas como os Focas e região de origem do grande herói guerreiro bizantino Digenis Akrites. No entanto, com a ascensão de Aleixo Comneno ao trono e o estabelecimento de seu governo amplamente favorável aos seus familiares e outras linhagens que o apoiaram, as formas de expressões anteriormente limitadas a aristocracia se popularizaram e passaram a ter um alcance que extrapolará os limites desse extrato social e de suas regiões de origem. Sendo, assim os mais famosos santos militares bizantinos como S. Jorge, S. Demétrio, Ss. Teodoros, general e recruta, aparecerão em mosaicos e afrescos em igrejas, selos oficiais, ícones portáteis e até mesmo em moedas, o símbolo iconográfico de maior amplitude e importância do poder imperial bizantino

Moeda de ouro cunhada no reinado de Manuel II Comneno (1143-1180) tendo num lado a imagem da Virgem e no outro a imagem do imperador e de S. Demétrio segurando junto a cruz. Fonte: Wildwinds

Esse culto se expandiu além das fronteiras de Bizâncio. A Europa e o Oriente Médio sofreu mudanças a partir do século XII. A economia estava se reaquecendo e com isso as redes de comércio de longa distância saíram de uma semi-dormência e voltaram a ter a importância que tinha nos tempos do Império Romano. Contudo, não só produtos que circulavam nessas estradas e navios, mas pessoas e idéias. Já não mais no ápice de força militar da época de Basílio II (986-1025), Bizâncio era ainda o mais prestigioso  império do Mediterrâneo. Seu nome era sinônimo de poder, riqueza e estilo. Por isso, os produtos de luxo e a arte bizantina eram altamente procurados por monarcas e elites de tanto reinos cristãos quanto muçulmanos. Todo e qualquer príncipe que se prezasse tinha trajes de seda, joias, coroas até palácios e igrejas feitas por bizantinos ou dentro do Império Bizantino. Obviamente tais produtos tinham sua distribuição firmemente controlada pelo poder imperial, pois temia-se que sua banalização tirasse o prestígio inerente de tê-los. Com isso, arquitetos e pintores bizantinos foram enviados de Kiev a França para projetar, construir e decorar edifícios, em especial igrejas. Desse modo, o culto dos santos guerreiros se alastrou para além das fronteiras do Império, fincando raízes sólidas por todo ecumêne ortodoxa.

A divulgação desse culto na Cristandade Católica é creditada as Cruzadas. Naturalmente o universo católico tinha seus próprios santos guerreiros, por exemplo o culto a S. Tiago de Compostela pelos cristãos da Península Ibérica. Há relatos de visões do santo combatendo os muçulmanos em meio das fileiras cristãs. No entanto, veio do Leste o santo de maior amplitude de todos: S. Jorge da Capadócia.

Inicialmente um culto predominantemente oriental, S. Jorge conquistou uma popularidade enorme no Cristandade Católica, tornando-se santo patrono de diversas cidades, dinastias e reinos. Foi por Portugal que S. Jorge chegou a terras americanas, sincretizando-se mais uma vez, pois a imagem do matador do dragão é um tema muito conhecido no paganismo clássico e com origem em regiões próximas de onde essa iconografia de São Jorge surgiu. No Brasil, S. Jorge se mesclou com a divindade guerreira iorubá Ogum, tornando-se um dos santos mais queridos e venerados de nosso culto popular.

Agora para terminar, uma música em homenagem a São Jorge e algumas imagens de santos guerreiros bizantinos

Mosaico de S. Demétrio antes do período iconoclástico e da tendência de retratar esse santo com equipamento militar – Basílica de São Teodoro. Fonte: wikipedia

S. Teodoro combatendo dragão e S. George matando imperador Diocleciano, afresco do Monastério do Sinai – século IX e X

São Jorge e dragão, século XII – Walter Arts Museum

Afresco de S. Teodoro Stratelates - Monastério de Dragalevtsi, Bulgária - século XIV

Afresco de S. Teodoro Stratelates – Monastério de Dragalevtsi, Bulgária – século XIV

Afresco de S. Jorge – Monastério de Ladoga, Rússia – século XII

Ícone búlgaro de S. Jorge

Por João Vicente

Para saber mais:

Mark BARTUSIS, Late Byzantine Army: 1204-1453, Pensilvania University Press, 1997

John HALDON. Warfare, State and Society in the Byzantine World 565-1204, Londres, Tailor and Francis, 2003 (em inglês)

Christopher WALTERS. The Warrior Saints in Byzantine Art and Tradition, Ashgate Publishing, Ltd., 2003 (em inglês)

“Military Martyrs” – site em inglês de David Woods, professor de Clássicas da Universidade de Cork, com hagiografias traduzidas e iconografia de diversos santos guerreiros bizantinos.

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6 pensamentos sobre “Santos guerreiros bizantinos: mártires, guerreiros e orixás

  1. susyfesta disse:

    Caro João! Não consigo ver o video da reconstrução digital da basilica de Santa Sofia. Poderia passar o link por favor ou colocar no site? Estou fazendo um trabalho sobre império Bizantino. Obrigada.

  2. Juliana Alves disse:

    Ótimo! Muito bom seu post! Sou aluna da UFPR, aluna da Marcella e ela nos indicou seu site para nossos estudos “bizantinisticos”! Parabéns pelo seu trabalho: simples, com imagens e ótima linguagem!

  3. Legal. No próximo dia de São Jorge, vc pode publicar um resumo nos jornais

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