Mais belos mosaicos bizantinos I: os painéis da Igreja de São Vital em Ravena

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junho 20, 2012 por João Vicente

O mosaico é um arranjo de pedras, vidros ou outros materiais coloridos que formam imagens, geralmente caracterizando-se como uma arte decorativa para ambientes internos. Esta é uma forma de arte antiquíssima, há vestígios de sua existência desde o Terceiro Milênio a.C na Mesopotamia, mas ganhou popularidade e sofisticação no mundo greco-romano.

Durante o Império Romano, os mosaicos serviam comumente como decoração das vilae aristocráticas e também tinham que competir com outras formas de arte visual, como os afrescos e principalmente a estatuária. Os mosaicos romanos tinham como principais motivos cenas da natureza e mitológicas, além de temas geométricos. No entanto, durante a cristianização do Baixo Império Romano, algumas formas de expressões artísticas, como a estatuária, perderam bastante importância e outras ganharam enorme relevância, entre as quais podemos contar os mosaicos.

Mosaico romano da Vila de Las Tiendas, Espanha, sec. I d.C. Clique para aumentar (tirado de: http://www.lessing-photo.com/p3/030504/03050435.jpg)

Com as igrejas e catedrais surgindo como as principais expressões arquitetônicas desse fim de Antiguidade, os mosaicos passaram a ter grande importância, pois passaram a ser a principal forma de decoração desses edifícios. Seus principais temas, desse modo, passaram a ser religiosos, ainda assim cenas da corte, dos imperadores e seus próximos, e mesmo motivos mitológicos continuaram a ser retratados.

Os romanos do leste ou bizantinos se especializaram nessa técnica, enriquecendo-a com um estilo hierático característico e com materiais finos, como ouro e pedras preciosas. Apesar de terem ficado conhecidos por aqueles que estão em igrejas e catedrais, os mosaicos bizantinos continuaram a decorar espaços laicos, como prédios públicos, moradas aristocráticas e palácios imperiais, mas esses não sobreviveram ao desaparecimento do Império Bizantino. Uma pena, pois deviam representar um estilo especial, mantendo talvez o tom profano e mitológico dos seus análogos romanos. De qualquer forma, muitas igrejas sobreviveram e nos apresentam com maravilhosas amostras desse estilo artístico que se tornou uma commodity cultural bizantino valiosíssimo. Artistas bizantinos eram chamados para lugares como Itália, Palestina e Rússia para decorar igrejas e palácios.

Imagem interna dos mosaicos da Igreja de São Vital, sec. VI. Clique para aumentar (tirado de: wikipedia.com)

Inicio então com este post uma série na qual irei dar amostras e explicações sobre mosaicos específicos ou conjuntos de mosaicos bizantinos, tanto aqueles feitos dentro do Império como fora. A entrada inicial será sobre um dos conjuntos de mosaicos bizantinos mais famosos: os painéis da igreja de São Vital em Ravena, Itália, que representam o imperador Justiniano I (527-565) junto de bispos, generais e soldados e da imperatriz Teodora junto de suas aias e eunucos.

Painel retratando o imperador Justiniano, bispos, dignatários e soldados, sec. VI. Clique para aumentar (tirado de: http://www.aersonline.de)

Há méritos que justificam a fama desses mosaicos, pois se destacam devido suas características únicas. Sinceramente desconheço qualquer outro retrato imperial tão realista quanto esse retrato de Justiniano. Ali vemos uma figura profundamente individualizada, característica perturbadoramente rara nos retratos imperiais bizantinos, que estavam há algum tempo, pelo menos desde o século IV, em uma tendência de se estilizar, tirando as características pessoais do monarca. Em tempos de Justiniano, esse processo já estava quase completo, de modo que é impressionante ver uma representação tão individual como a de seu rosto redondo com bochechas levemente inchadas indicando algum sobrepeso. O realismo não se limita ao monarca, a imperatriz é representada com sua beleza famosa, seu rosto fino e seu nariz mediterrânico. O mesmo se repete com os outros personagens do mosaico: o severo rosto do general Belisário (explicarei mais a frente essa identificação) a direita do imperador e a calvice do bispo Maximiliano à esquerda.

Mosaico retratando a imperatriz Teodora, suas aias e eunucos, sec. VI. Clique aqui para aumentar (retirado de: http://www.travelplan.it/img/ravenna02.jpg)

Esses mosaicos, no entanto, são somente parte de um conjunto artístico igualmente admirável da Igreja de São Vital. Localizada em Ravena, a capital administrativa bizantina da Itália, essa igreja começou a ser construída em 522, sob domínio ostrogodo e terminada em 548, mas já sob domínio bizantino, tornando-se beneficiária de patrocínio de altos funcionários imperiais bizantinos e imperadores. Com isso, ela foi um dos edifícios mais impressionantes da Antiguidade Tardia a chegar até nós, ao lado da Igreja de Santa Sofia em Constantinopla e a basílica de Santa Maria Maggiore.

Segundo Warren Treadgold, os mosaicos retratando o imperador Justiniano, a imperatriz Teodora e colaboradores foram encomendados por Belisário, o famoso e polêmico general de Justiniano, para comemorar o casamento de sua filha com o neto de Teodora. Esse matrimônio simbolizou uma das várias reaproximações entre o general e o casal imperial. Essa relação era particularmente conturbada, principalmente entre o Belisário e Teodora, mas de auto-dependência. Desse modo, Treadgold afirma que o jovem entre o personagem identificado como Belisário e os soldados é o noivo e, no painel feminino, a noiva é identificada por aquela no lado esquerdo de Teodora.

Naturalmente essa é só uma hipótese entre muitas, mas é inquestionável a importância artística e histórica dessa Igreja e seus mosaicos, que representa um legado da concretização do ambicioso projeto de restauratio imperii de Justiniano e é um patrimônio artístico da Humanidade.

Por João Vicente

Para saber mais:

Irina ANDRESCU-TREADGOLD & Warren TREADGOLD.  Procopius and the Imperial Panels of S. Vitale, in: The Art Bouletin, vol.79, n.4, 1997 (no JSTOR em inglês)

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3 pensamentos sobre “Mais belos mosaicos bizantinos I: os painéis da Igreja de São Vital em Ravena

  1. Maria dos santos meira disse:

    Alguém saberia informar qual o nome da filha do general Belisário?

  2. […] cercado por seu rebanho. Para saber mais sobre os mosaicos bizantinos, achei interessante o blog do especialista João […]

  3. Soraya Silva disse:

    A maléfica Teodora, imperatriz bizantina como santa… assim começou o ‘cristianismo’…

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