Delícia Turca no filme épico “Fetih 1453”

17

junho 3, 2012 por João Vicente

A versão “turbante-e-testosterona” feita de computação gráfica da conquista de Constantinopla pelo sultão se alimenta no apetite pelo passado imperial otomano.

Escrito por Fiachra Gibbons. Publicado no guardian.co.uk, no dia 12 de Abril de 2012. Traduzido por Bizantinística

Observações de bizantinística: esse artigo comenta o lançamento de um filme épico estilo hollywoodiano sobre a conquista de Constantinopla por Maomé II em 1453. Não vi ainda o filme, então não posso comentar sobre ele, mas publico o artigo, pois achei interessante a relação que seu autor faz entre o lançamento de um filme como esse e as atuais mudanças conjunturais no Oriente Próximo e Médio, onde países como Turquia e Irã estão retornando ao seus passados imperiais para justificar projetos hegemônicos modernos.

Mais de 5 milhões de turcos já foram assistir o conto em computação gráfica da conquista de Constantinopla por Maomé II – parte do ressurgimento do interesse do passado imperial do país.

É um filme que está orgulhando milhões de corações turcos com ainda mais orgulho patriótico do que o normal. Fetih 1453, um épico de “turbantes-e-testosterona”, não só estourou nas bilheterias turcas com sua versão de ação e gráficos da conquista da antiga capital imperial bizantina Constantinopla por Maomé II, mas tem sido saudado como uma reafirmação de que a Turquia ainda tem sangue conquistador em suas veias.

 Como o jornal diário de direcionamento religioso Zaman notou “os turcos estão novamente se sentindo imperiais” depois de uma década de crescimento econômico sem precedente, e estão se virando mais e mais para seus ancestrais otomanos para inspiração – tanto na política externa quanto no design interior, comida e moda, com uma tendência “neo-otomanista” para reafirmar hegemonia diplomática turca frente aos antigos domínios árabes e europeus orientais.

 O tom religioso do filmes – com a parte coadjuvante do profeta Maomé profetizando que a antiga capital romana iria um dia cair para os fieis – tem atraído uma nova e atenta audiência para o cinema e especialmente favorável ao primeiro ministro Recep Tayyip Erdogan, ressoando sua visão de “ascender gerações devotas… que abracem nossos valores históricos

Alguns de seu partido estão demandando que o filme deva ser exibido nas escolas como um antídoto para a “mentalidade cruzada” de Hollywood – não que o próprio filme não seja inteiramente inocente de licenças históricas, por exemplo, o retrato do último imperador de Constantinopla, Constantino XI, como um hedonista (ele era em maior parte um celibato); a magnificência da cidade (ela foi amplamente saqueada pelos cruzados ocidentais em 1204); e o fato de que havia muito mais gregos lutando pelo sultão do que defendendo as muralhas. Quase a mesma quantidade de soldados do sultão estava rezando pela Virgem na manhã do assalto final em maio de 1453 como para Alah.

Em uma outra cena, sapadores fazendo túneis debaixo da imensa muralha terrestre que não havia sido rompida em mil anos preferem explodir-se com o grito “Allahu Akbar” do que se render quando capturados pelos bizantinos. Na realidade, os sapadores de Maomé II eram cristãos ortodoxos tirados das minas de prata da Sérvia.

Enquanto o público pode estar cercando os cinemas para assistir o filme, o veredicto crítico não tem sido unânime, até no Zaman. A crítica Emine Yildrim advertiu que se aproxima do “nacionalismo extremo” e de antigos estereótipos turcos dos seus vizinhos cristãos. “Da mesma forma que nos enfurecemos ao ver retratos degradantes e orientalistas do Oriente, nós deveríamos pelo menos ter a decência de não cometer os mesmos erros”, ela disse.

Fetih 1453 é um conjunto confuso de hipocrisia. Enquanto se alimenta na paranoia comum de ver o Ocidente como pouco acolhedor e desonroso, ele reforça nossas aspirações de superioridade”.

 Como para provar o seu ponto, o comentador Burak Bekdil recebeu uma ameaça de morte ao satirizar essa tendência de supremacia. Qual é a próxima, ele brincou, um filme chamado “Conquista 1974”para celebrar a invasão turca de Chipre, ou “Extinção 1915’, para o genocídio armênio?

 “Ao invés de lembrar timidamente 1453, os turcos lembram o mundo inteiro que sua maior cidade uma vez pertenceu a outra nação e foi capturada pela espada. É bastante difícil de pensar em britânicos comemorando a conquista de Londres ou os alemães de Berlim

Blogueiros enfurecidos posteriormente postaram que Bekdil era um “grego desprezível” que “não deveria respirar ar”. Outro se pronunciou que sua foto de assinatura traia “traços armênios”.

A principal crítica de filme da Turquia, Alin Tasçiyan, disse que a “otomania” nostálgica está em alta, então é natural que os produtores de filme devam ver de novo o legado otomano, particularmente porque ele foi deliberadamente abandonado por Atatürk e seus predecessores secularistas. “É tempo que nós olhássemos o império de uma forma mais objetiva. Foi uma enorme civilização, porque demonizá-la? Ela tem pontos positivos e negativos.

 “Mas deixemos algo claro, esse filme não é isso. Nem é um filme feito com motivos religiosos ou políticos. É puramente comercial, jogando muito inteligentemente para a galeria.”

 Ela diz que há um enorme interesse na História Otomana precisamente porque é tão pouco e tão mal ensinada. “O ensino de história nas escolas turcas é rigidamente nacionalista. Os otomanos eram o oposto. Eles próprios eram bastante misturados. Na escola, nós aprendemos que os otomanos conquistaram metade do mundo e de repente se tornaram maus, sem explicação. Antes de você saber, o sultão está conspirando com os britânicos. Por sorte, Ataturk apareceu e nos salvou.”

 Yildrim disse que o filme revelou uma clara contradição na forma que os turcos vêem a si próprios: por um lado, uma “sede autoritária por poder, mas então tentando concertar com uma ampla tolerância que você observa na cena final em que Maomé II, tendo entrado na [igreja] de Hagia Sophia, segura uma criança loura em seus braços e declara, ‘Não se preocupem, povo de Constantinopla, você pode pratica sua religião da forma que vocês quiserem’.”

 Nada vende como nacionalismo na Turquia, e o produtor/diretor, Faruk Aksoy – que já triplicou em lucros os gastos de US$ 17 milhões do filme – está planejando outro épico em Galipoli, onde Ataturk, o fundador da república moderna, derrotou os britânicos. Claramente não foi a melhor hora de Chuchill.

Por João Vicente

Leitura recomendada.

RUNCIMAN, Steven. 1453: A queda de Constantinopla, Tradução de Laura Rumchinsky, Rio de Janeiro, Imago, 2002.


Anúncios

17 pensamentos sobre “Delícia Turca no filme épico “Fetih 1453”

  1. […] Por essas razões o passado otomano e o bizantino tem sido finalmente retomado pelo Estado Turco. Digo “finalmente retomado” porque durante décadas a História Pré-Ataturk foi relegada ao esquecimento e agora passa a ser valorizada pela Turquia. […]

  2. Igor disse:

    No site O MELHOR DA TELONA tem o filme com legendas em portugues e qualidade 10 tanto em audio quanto em video. link abaixo:
    http://www.omelhordatelona.biz/genero/acao/2920-a-conquista-de-constantinopla.html

  3. Ju Bertechini disse:

    Já há releases disponíveis tanto no TPB quanto no Isohunt com legendas em inglês e português, data de estréia no Brasil infelizmente ainda não há…uma pena, uma obra dessa tem que ser assistida em grandes telas. Abraços a todos.

  4. Mehmet ali disse:

    Prezado João, obrigado pela recepção.
    Pois é. Eu procurei tb há muito tempo mas nao chegou ainda. Alias eu encontrei o seu blog procurando notícias do Brasil sobre este filme. Mas por coincidência, reparei que você tem um ótimo trabalho. Acabei de ler três notícias publicadas. Parabéns mesmo.! Eu tenho um dia de passeio recomendado em Istambul seguindo as herancas bizantinas. Na realidade, Um pacote que difícil de vender para os brasileiros 🙂 mas com este tipo de trabalhos que surgem recentemente vai incentivar as pessoas ficarem mais interessadas nesta civilização bizantina.

    Mais uma vez, parabéns e nao esqueça dar uma olhada neste programa sugerida por mim. Abraços,

  5. […] Por essas razões o passado islâmico e o bizantino tem sido finalmente retomado pelo Estado Turco. Digo “finalmente retomado” porque durante décadas a História Pré-Ataturk foi relegada ao esquecimento e agora passa a ser valorizada pela Turquia. […]

  6. eu cansei de procurar esse filme pra baixar com legendas em português, nem mesmo em inglês! os turcos só fazem filmes pra eles assistirem! :/

  7. Trailer do filme: http://www.youtube.com/watch?v=5HoR9_VdAXc

    O caso é ainda pior do que o artigo deixa entender…

    • João Vicente disse:

      Pois é… Já não tenho mais esperança de que os filmes sejam comprometidos com a História, assim fico positivamente surpreso quando acho um que seja mesmo que um pouquinho. De qualquer forma, achei o artigo interessante pois examina esse link que o filme faz da presente situação da Turquia, que está mudando junto com todo Oriente Médio, e o passado bizantino e otomano, até então esquecido.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Junte-se a 97 outros seguidores

Arquivos

%d blogueiros gostam disto: