Intrigas adentro, perigos afora: artigo do “The Economist”

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abril 28, 2012 por João Vicente

Publicado originalmente em 17 de Fevereiro de 2012, 15:14 por B.C.

Traduzido por Bizantinística de http://www.economist.com/blogs/prospero/2012/02/byzantine-studies

Comentários: Apesar do jornalista que escreveu esse texto ter uma ideia desatualizada da história bizantina, qualificada por ele como “disputas teológicas e intrigas palacianas de assassinatos de imperadores com nomes complicadamente semelhantes”, o artigo é interessante por apontar quatro importantes tendências: (1) o aumento de interesse do público em geral sobre Bizâncio , (2)o surgimento da Turquia como uma nova força no campo da Bizantinística, até pouco tempo criticada por renegar seu legado bizantino (3) a crescente integração entre os Estudos Bizantinos  e de outras civilizações mediterrânicas, desmanchando a imagem de que o Império Romano do Oriente como uma entidade estática e destacada dos desenvolvimentos históricos da Idade Média, e (4) a citação do Brasil como um local onde há Estudos Bizantinos (modéstia a parte, creio que tenho certo crédito nisto, pois imagino que ele tenha listado os países representados no Congresso Internacional em Sofia, no qual foi o único representante do país) 

PARA A mente atual, o mundo de Bizâncio é ao mesmo tempo fascinante, perturbador e complicado. O Império Romano do Oriente e a cultura que ele deu origem tiveram uma presença poderosa na História Mundial por mais de mil anos, aproximadamente entre o quarto e o décimo-quinto século. Mesmo no período final, quando o poder político do Império Bizantino decaía e seu território se resumia em um pequeno trecho de terra na intersecção entre Europa e Ásia, a influência cultural de seus artistas, arquitetos e artesãos se manteve inalterada.

As exibições de museus com temas bizantinos tendem a ser imensamente populares. Há alguma coisa nos mosaicos, ícones, esculturas de madeira e bordados de Bizâncio que acende a imaginação das pessoas que de outra forma teria pouco interesse em disputas teológicas e intrigas palacianas de assassinatos de imperadores com nomes complicadamente semelhantes. Grandes multidões atenderam uma exibição sobre Bizâncio na Academia Real de Londres em 2008-2009, as como as magníficas mostras bizantinas no Metropolitan Museum de Nova York nos últimos anos. A próxima exibição do Metropolitan Museum sobre Bizâncio e Islã – uma escolha corajosa de tema – causará sem dúvida sensação quando abrir dia 14 de Março. Mas para as pessoas da área dos Estudos   Bizantinos – os professores universitários, estudantes, curadores e conservadores que se dedicam suas vidas a campo – há pouco tempo para se aquecer em gloria refletida. A comunidade global de bizantinistas é grande, diversa e briguenta. Eles vêm de locais esperados – Grécia, Balcãs, Russia e Gerogia – e alguns inesperados, como Japão, Argentina, Brasil e até mesmo Tadjiquistão. As grandes universidades da América do Norte e Europa Ocidental estão presentes em força. Em cada cinco anos até mil desses acadêmicos se reúnem em uma cidade ou outra para passar uma semana compartilhando suas últimas pesquisas, fazendo network e talvez conspirando. Essas reuniões são uma boa oportunidade para fazer exibições públicas, concertos e leituras, e a competição para recebê-los pode ser quente.

Londres foi a anfitriã em 2006, e no último mês de Agosto foi a vez de Sofia na Bulgária. Qual o próximo? A florescente comunidade de bizantinistas na Turquia estava otimista que Istambul teria sua vez em 2016. Então foi uma grande tristeza no último congresso quando os participantes decidiram que o próximo encontro seria em Belgrado. Judith Herrin, a presidente britânica da Associação Internacional de Estudos Bizantinos (conhecido por sua sigla em francês AIEB), se demitiu em protesto.

Ela afirma que o voto foi manchado, pois havia poucas delegações nacionais presentes. Alguns argumentam que realizar o próximo Congresso em Istambul daria um reconhecimento adequado aos atuais florescentes estudos bizantinos na Turquia, onde doadores privados como a Fundação Koc estão dando bolsas de estudo para conservação e pesquisa. Essa é uma bem-vinda mudança num país que tem sido acusado há muito tempo de negligenciar – e constantemente despojar – legado das civilizações grega e cristã que floresceram em seu solo. Com a comunidade acadêmica de bizantinistas em tumulto, a AIEB fez uma reunião em 11 de Fevereiro para ocupar o posto deixado pela Sra. Herrin. Muitos acharam positivo que o processo envolveu uma votação aberta. Johannes Koder, um professor da Universidade de Viena, derrotou Michel Kaplan, francês e ex-presidente da Universidade de Paris. O Sr. Koder tem sido rápido a instar seus colegas bizantinistas a evitar a complacência e a introspecção, erros que levaram a ruína da própria Bizâncio. Apesar de toda a excitação das exibições em espaços prestigiados, esse campo tem enfrentados sérios problemas desde a década de 1980, Johannes Koder afirma. Na maioria dos países ocidentais, o número de pessoas  que estudam latim e grego na escola ou universidade tem despencado. Era essa educação clássica uma precursora básica para o estudo de períodos medievais posteriores. Para a sobrevivência da bizantinística, Koder reconhece que ela deve ser integrada no campo mais amplo dos Estudos Mediterrâneos, para ilustrar a relação entre Bizâncio e o surgimento do Islã e a posterior Renascença Européia. Talvez os primeiros passos nessa direção será a exibição do Metropolitan Museum, que se concentrará nos primeiros séculos muçulmanos: um tempo em que, entre as lutas, os bizantinos e os muçulmanos estavam trocando técnicas artísticas.

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2 pensamentos sobre “Intrigas adentro, perigos afora: artigo do “The Economist”

  1. […] Tudo mudou com a UE. Querendo se juntar a festa da bonança de crédito pré-2008, a Turquia pela primeira vez retornou seus olhos ao seu passado e passou a dar valor o que houve nos anos A.A, ou antes-de-Ataturk. Não só o Império Otomano, mas também o Império Bizantino. Escavações arqueológicas nas camadas romanas e bizantinas passaram a ser incentivadas e foi nessa época que a academia turca começa a ter destaque nos Estudos Bizantinos. […]

  2. […] Tudo mudou com a UE. Querendo se juntar a festa da bonança de crédito pré-2008, a Turquia pela primeira vez retornou seus olhos ao seu passado e passou a dar valor o que houve nos anos A.A, ou antes-de-Ataturk. Não só o Império Otomano, mas também o Império Bizantino. Escavações arqueológicas nas camadas romanas e bizantinas passaram a ser incentivadas e foi nessa época que a academia turca começa a ter destaque nos Estudos Bizantinos. […]

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