Haile Selassie: um imperador bizantino na Etiópia

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fevereiro 15, 2012 por João Vicente

A perda de território e a fragmentação política observada a partir do século XIII em Bizâncio de forma alguma não resultou na perda de seu prestígio internacional.

Por mais que estivesse cercado, invadido e dividido internamente, a continuidade romana ainda colocava seu imperador e o próprio Império Bizantino num patamar diferenciado e respeitado por outros potentados que, na prática, eram muito mais poderosos do que ele.

Esse “respeito” explica parcialmente a demora dos sultões otomanos em avançar decisivamente sobre o que restava de Bizâncio e conquistar Constantinopla, permitindo que o Império tivesse uma existência de meio século como uma ilha autônoma num oceano otomano.

Esse enfraquecimento do poder político prático bizantino sem perda de prestígio fez que várias monarquias ortodoxas na Europa Oriental – algumas delas surgidas de dentro do território bizantino há alguns anos antes, como a Sérvia ou a Bulgária – passassem a se apropriar de rituais e símbolos de poder bizantinos, fazendo de seus monarcas e cortes cópias da de Constantinopla.

Mesmo com a dominação otomana e com a posterior ocidentalização da Europa Oriental, essas práticas tiveram uma larga existência. Ainda podia se observar nas coroações, casamentos e outros jubileus a execução de rituais e uso de símbolos claramente bizantinos. Principalmente na Rússia, que tornou-se na maior potência política ortodoxa depois do desaparecimento de Bizâncio, transformando-se, ou melhor, querendo se transformar na “Terceira Roma” a partir do reinado de czar Basílio III (1505-1533), que por acaso era filho de uma princesa bizantina da Casa Paleóloga.

Coroação do czar russo Alexandre III (1883)

Contudo, as revoluções do século XX, principalmente as comunistas, desapareceram com as monarquias ortodoxas do Leste Europeu e, assim, com os rituais bizantinos.

Longe da Europa, porém, no meio da África, havia um reino que teve um curto período de intenso contato com Bizâncio, mas que resultou no surgimento de uma cultura resiliente e duradoura: a Etiópia.

Etiópia: um reino entre dois mundos.

Situada na fronteira entre a África Negra e a África Semítica, o Alto Nilo sempre foi uma área de contato entre essas duas matrizes civilizacionais , resultando em culturas que misturavam elementos da África Negra ou Subsaariana e elementos vindos da Europa e do Oriente Médio. Foi por essas regiões que foi introduzido o Islamismo na África, e mais anteriormente o Cristianismo.

A Cristianização da Etiópia se deu no início do século IV, quando essa região estava sob domínio do Império de Axum. A conversão foi uma iniciativa de um grego de origem síria chamado Frumêncio, que fora capturado quando criança durante uma viagem com sua família para Etiópia. Como cativo, ele foi ganhando gradualmente a estima dos monarcas de Axum, que eram politeístas. Frumêncio, desse modo, convenceu-os a se converter ao Cristianismo. Por seu esforço catequizador, ele foi reconhecido por Anastácio, patriarca de Alexandria, como bispo fundador da Igreja Ortodoxa Etíope.

Moedas do Império de Axum: cópia das cunhagens romano-bizantinas da época

A cristianização do Império de Axum inseriu-o num contexto internacional mais amplo, permitindo que os etíopes estabelecessem relações comerciais com o Império Romano Oriental e com a Índia.

Além disso, por fazer fronteira sul com a província romana bizantina do Egito, os etíopes absorveram muitos elementos romanos e bizantinos, principalmente suas práticas políticas. O imperador de Axum, o negus, passou a imitar o imperador romano bizantino em seus rituais, em seus símbolos de poder e até na sacralização do poder imperial através da Igreja Ortodoxa.

Esse contato intenso entre a Etiópia e o Império Romano Oriental foi subitamente interrompido com a invasão Sassânida, em 614, e com a conquista muçulmana do Egito algumas décadas mais tarde. Apesar disso, nesse período de trocas, uma identidade local e autônoma muito forte foi formada. Ela foi resistente: continuou a existir depois do fim repentino do Império de Axum no século X, às guerras civis e fragmentação políticas que se seguiram, resistiu à influência dos jesuítas portugueses que, no século XVI, tentaram trazer os etíopes ao catolicismo, às empreitadas colonialistas do século XIX e à invasão italiana durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, os cristãos etíopes tiveram que, por todo esse período, fazer frente a constante ameaça dos reinos de maioria muçulmana que cercavam todas as suas fronteiras.

Curiosamente, o isolamento dos etíopes cristãos em meio de vizinhos muçulmanos e pagãos foi um elemento importante para criação do mito medieval do Reino do Preste João. Na época das Cruzadas, surge um boato sobre um potentado imensamente rico e cristão, ainda que herético, que dominava um largo império no meio da África ou da Ásia, que na geografia medieval eram regiões amplamente misteriosas.

Apesar desse isolamento, a identidade etíope baseada na sua Igreja somente se reforçou. Criou-se, ainda na época do Império de Axum, a curiosa lenda de que os negus, os imperadores da Etiópia, eram descendentes de um relacionamento entre o rei bíblico Salomão e a rainha de Sabá. Mais tarde, no século XIII, seus descendentes passaram a afirmar que tinham a guarda da Arca da Aliança. Os cristãos etíopes acreditam que ela está atualmente localizada na Igreja de Nossa Senhora Maria de Zion em Axum.

Igreja de Nossa Senhora Maria de Zion, em Axum

A construção aqui desenvolvida é semelhante a dos bizantinos. Assim como o imperador de Constantinopla, os monarcas etíopes estabeleceram uma ligação com os reis bíblicos de Israel, ungidos por Deus e que, em nome Dele, reinavam e guardavam seu povo escolhido. Esses imperadores até seu último representante, Haile Salassie (1930-1974), tinham o título de Leão de Judá.

Qualquer semelhança com os rastafáris NÃO é mera coincidência.

Haile Selassie: o último imperador etíope

Haile Selassie foi, como já disse, o último imperador da Etiópia. Seus ancestrais ficaram famosos por ter resistido à investida colonial das potências industriais européias e, desse modo, mantido a independência etíope quando quase toda a África caiu sob o regime colonial no século XIX.

Sua Majestade Haile Selassie I, Leão Conquistador da Tribo de Judá, Rei dos Reis, Imperador da Etiópia, Eleito de Deus.

Já Haile Selassie ficou conhecido por ter liderado a resistência de seu povo a invasão italiana em 1936, durante a Segunda Guerra Mundial, que resultou num genocídio etíope e um exílio forçado do monarca em Londres. Exilado, Haile Selassie teve de assistir de longe a tragédia de seu povo, que era dizimado com uso de armas químicas, e perdas pessoais. Vários membros de sua família morreram na Etiópia ou em exílios forçados na Itália durante a ocupação.

Em 1941, Haile Selassie retorna a Etiópia e, com auxílio britânico, expulsa os italianos. A retomada da Etiópia torna-se, desse modo, um dos momentos de reviravolta da Guerra, quando os aliados começam a tomar a ofensiva. Isso tornou Haile Selassie enormemente famoso no Ocidente do Pós-Guerra, principalmente entre os movimentos de afirmação dos afro-descendentes no continente americano, além de figura de destaque em movimentos pan-africanistas. O movimento rastafári jamaicano, por exemplo, considera Haile Selassie como um Deus. Fato negado por ele, um cristão-ortodoxo.

Com o fim da Segunda Guerra, Haile Selassie faz esforços para modernizar o país, estabelecendo uma universidade na capital e uma Constituição. Entretanto, as conturbações políticas causadas pelas guerras anticolonialistas e pela Guerra Fria atingiram a Etiópia. Não conseguindo dar soluções a pobreza extrema que atingia a maior parte de sua população, a monarquia cai frente um levante comunista apoiado pela União Soviética em 1974. O imperador morrerá no ano seguinte em prisão domiciliar.

Continuidade entre Bizâncio e Etiópia:

Apesar de ter se esforçado para modernizar seu país, o imperador Haile Selassie não abriu mão de certas tradições, principalmente aquelas sobre as quais seu poder imperial era sustentado. Sendo assim, no vídeo abaixo, podemos assistir uma matéria feita por um canal de TV ocidental, provavelmente americano, registrando o jubileu de 25º aniversário de coroação de Haile Selassie, em 1955. Ainda que haja traços de ocidentalização (carros, motos, trajes europeus, fanfarra, etc), observa-se que é um rito claramente bizantino com óbvios traços africanos, onde o poder monárquico justifica-se e oficializa-se pelo divino.

Mais impressionantes são as imagens da coroação de Haile Selassie em 1935. Não havia qualquer “modernização” ou “ocidentalização”. Os registros fotográficos mostram regaliae, que são trajes e símbolos de poder, impressionantemente bizantinos: diademas,  cetros, globos cruciformes, clâmides, loros e sakkos. A continuidade chega ser assustadora.

O imperador etíope Haile Selassie e o imperador bizantino Teófilo (813-842) em meio de seus respectivos cortesãos: notem a semelhança dos trajes aristocráticos.

O imperador etíope Haile Selassie e o imperador bizantino Teófilo (813-842) em meio de seus respectivos cortesões.

O imperador Haile Selassie e o imperador Aleixo IV de Trebizonda (1417-1429) com suas imperatrizes.

O imperador Haile Selassie numa procissão

O imperador Haile Selassie numa procissão

Haile Selassie no trono

Essas imagens são impressionantes, pois os trajes imperiais e cortesões etíopes são bastante semelhantes, senão iguais aos bizantinos. Na segunda imagem, os monarcas etíopes e bizantinos vestem as mesmas regaliae: diademas (coroas), loros, que são as faixas feitas de ouro e pedras preciosas que envolvem os robes dos imperadores, e o cetro cruciforme. Haile Selassie está também segurando o globo cruciforme, outro símbolo imperial bizantino.

A imagem abaixo é um cartão postal fotografado em preto-e-branco e colorido posteriormente, prática comum antes da invenção da fotografia colorida e em que geralmente o autor tentava reproduzir as cores reais do cenário fotografado. Sendo assim, observamos que além de se apropriar com fidelidade dos trajes imperiais bizantinos, os imperadores etíopes se apropriaram da púrpura, um roxo avermelhado que somente poderia ser usado pelo monarca e por pessoas autorizada por ele.

Gostaria de falar mais coisas sobre esse tema interessantíssimo que é civilização etíope e de suas apropriações bizantinas, mas infelizmente, por ignorância mesmo, não consigo me estender mais do que já me estendi. Contudo, esse é um assunto que irei me dedicar num futuro não muito distante, mas por enquanto essas linhas escritas já servem para revelar uma pequena amostra do vasto e desconhecido legado bizantino para humanidade, sobre o qual falarei mais em outros posts.

Por João Vicente

Para saber mais:

Coleção de e-books organizados pela UNESCO congregando diversos especialistas sobre a História da África

PAEZ DE LA CADENA, Francisco. História da Etiopia, Ed. Assirio Alvin. (espanhol)

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2 pensamentos sobre “Haile Selassie: um imperador bizantino na Etiópia

  1. Helbert Alves disse:

    Muito interessante sou um grande admirador da CULTURA BIZANTINA. Gostaria até de indicações bibliográfica com a cultura bizantina.

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