As três inaugurações de Istambul

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dezembro 15, 2011 por João Vicente

Istambul foi uma cidade fundada, reinaugurada e inaugurada ainda mais uma vez. A primeira vez, como uma colônia grega, a segunda como uma capital imperial cristã e a terceira como uma metrópole islâmica. Seu primeiro nome foi Bizâncio, depois Constantinopla e por último Istambul

Diz-se que quem assentou a pedra inicial de Bizâncio foi Bizas em667 a.C. Saído da colônia grega de Mégara, onde seu pai era rei, Bizas e seus seguidores partem para fundar um novo povoado, mas antes param em Delfos para consultarem-se com as pitonisas, oráculos de Apolo, e perguntar-lhes sobre qual seria o melhor lugar para se estabelecerem. Elas responderam que ele deveriam fundar sua cidade “ao lado dos cegos”. Sendo assim, ele e seus companheiros se estabeleceram no lado europeu do estreito de Bósforo. No outro lado desse estreito, o asiático, ficava Calcedônia (atual Kadiköy, Turquia), fundada alguns anos antes. Esses eram os “cegos”, pois os fundadores de Calcedônia, que chegaram alguns anos antes, não perceberam que a margem oposta do estreito era um local muito mais propício para estabelecer um povoado, por ser um porto natural e de fácil defesa. Não se sabe o quanto dessa história é verdade e o quanto dela é uma narração posterior criada para explicar o por quê dos calcedonianos terem ignorado a clara vantagem da margem oposta do Bósforo.

Moeda retratando Bizas

História ou mito, a escolha do fundador de Bizâncio foi acertada. Sua posição era privilegiada, tanto permitia o controle da entrada e saída do Mar Negro, quanto era um ponto de encontro para rotas comerciais entre Europa e Ásia. Isso trouxe renome e prosperidade a essa colônia grega.

Mais tarde Bizâncio foi anexada ao Império Romano e continuou a prosperar. Em330, acidade é novamente inaugurada pelo seu segundo fundador: o imperador Constantino I. Ele é tradicionalmente chamado de primeiro imperador cristão. Hoje, há dúvidas de quão cristão Constantino era, uma vez que até o momento de sua morte ele não havia sido batizado e o único relato de seu batismo no leito de morte foi de Eusébio de Cesárea, que idealizou tanto a imagem desse imperador que praticamente o transformou em outra pessoa. Várias ações de Constantino também não foram lá muito “cristãs”. Ele é acusado de ter mandado matar o filho, a mulher, parentes e desafetos políticos.

Busto em mármore de Constantino I

Batizado ou não, assassino ou não, Constantino beneficiou enormemente as igrejas cristãs. Ele as tirou da ilegalidade, patrocinou construções de templos, organizou concílios e entregou seus filhos a tutores cristãos. Graças a isso, por gratidão, a Igreja tende a fechar os olhos para seus pecadilhos. Nas igrejas orientais, Constantino se encontra entre seus santos. Assim, ao reinaugurar Bizâncio como a nova capital do Império, esse imperador fez dela uma cidade cristã, construindo diversas igrejas e basílicas. Apesar disso, os festejos inaugurais da cidade foram também marcados por rituais pagãos e por consulta a augúrios[1]

Num primeiro momento, Bizâncio passou a ser chamada de “Nova Roma”, mas a ligação entre criador e criatura era muito forte e rapidamente ela passou a ser conhecida como Constantinopolis, a “Cidade de Constantino”. Esse foi seu principal nome no milênio de História do Império Romano Oriental ou, como melhor conhecemos, Império Bizantino.

 Seu terceiro e último fundador foi o Maomé II, sultão do Império Otomano.

Quando Maomé torna-se sultão, em 1444, o Império Bizantino não era mais um império, mas um reino-vassalo do poderoso Sultanato Otomano e seu imperador era um mero príncipe que era obrigado a cumprir obrigações ao sultão, como lutar suas guerras e prestar-lhe homenagem na corte. No entanto, quando Maomé sobe ao poder ele era um garoto de 12 anos e, tomando essa situação como um momento de fraqueza dos otomanos, imperador bizantino Constantino XI Paleólogos, um carismático e maduro líder na casa dos quarenta anos, coroado em 1449, decide ameaçar o sultão com a soltura do príncipe Orhan, pretendente ao trono que estava sob tutela bizantina, caso os otomanos não aceitassem as demandas de Constantino. Essa ameaça deu o pretexto que Maomé queria para conquistar Constantinopla.

O sultão Maomé II, o Conquistador de Constantinopla

Em 1452, o sultão arrebanha para si um enorme exército de aproximadamente 200.000 soldados, enquanto Constantino tinha sob seu comando cerca de 7.000 homens. O imperador tinha também suas massivas muralhas de Constantinopla que, nos seus mil anos de existência, só havia cedido uma vez, em 1204, e repelido dezenas de outros ataques, alguns deles otomanos. Entretanto, isso não foi o suficiente.

Apesar de lutarem com a coragem cega criada pelo desespero, Constantinopla caiu e seu imperador Constantino XI desapareceu. A última vez que foi visto, ele lutava ferozmente em um dos portões da muralha já conquistada pelos otomanos. Esse mistério resultou num mito semelhante ao ‘arturianismo’ e ao ‘sebastianismo’: a população grega cristã da cidade acreditava que um dia o imperador Constantino iria retornar para retomar a cidade de mãos muçulmanas. Uma das coincidências da história: a segunda fase da existência dessa cidade do Bósforo teve um Constantino em seu início e outro em seu final.

A conquista otomana inicia a terceira fase da História de Istambul. O sultão Maomé, um jovem de então 21 anos, havia tomado uma das mais importantes cidades do mundo e por isso ganhara o titulo de “Conquistador” ou “Al-Fatih”. Apesar de sua importância simbólica, Constantinopla, no momento de sua conquista (29 de Maio de 1453), era uma cidade em decadência: seus forae[2] havia se tornado campo de pasto para as ovelhas e grande parte de suas igrejas e prédios públicos estavam em ruínas. Crê-se que somente a Igreja de Santa Sofia mantinha sua majestade, tanto que ela foi rapidamente transformada em mesquita. Maomé inicia, então, um programa de restauração que será continuado por seus sucessores. Eles erigem novas mesquitas, palácios, banhos e bairros, além de atrair imigrantes para repovoar a cidade.

Gradualmente a metrópole cristã dá lugar a uma muçulmana e a vocação de prosperidade profetizada pelas pitonisas de Delfos a Bizas hás séculos atrás começa a retornar para, então, nunca mais a abandonar

Por João Vicente


[1] Sacerdotes pagãos que eram incumbidos de consultar a vontade dos deuses sobre as decisões públicas.

[2] Forae (sing. Fórum) eram praças de cidades romanas. Por lei e tradição, os forae eram espaços públicos por excelência, era onde os éditos imperiais, negócios comerciais e julgamentos eram anunciados e realizados.

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Um pensamento sobre “As três inaugurações de Istambul

  1. […] O artigo da The Economist revela uma faceta dessa nova tendência: a transformação de igrejas bizantinas em mesquitas. Era comum, na Idade Média, após a conquista de uma cidade islâmica por cristãos, a transformação de mesquitas em igrejas e vice-e-versa. Dois grandes exemplos disso são a Catedral de Córdoba, que, até 1236, era uma mesquita, mas, após a conquista cristã emprendida pelo rei Fernando III de Castela, foi transformada em igreja e a Basilica de Santa Sofia, construída por Justiniano I (527-565) e transformada em mesquita após a conquista otomana em 1453. […]

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