Resenha de Chronografia de Miguel Pselo

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novembro 9, 2011 por João Vicente

Há umas semanas atrás terminei a leitura da tradução para o inglês feita por E. R. A. Sewters do livro Chronografia de Miguel Pselo (1017-1078).

Esse livro é um ensaio histórico que trata dos reinados dos imperadores Basílio II (976 – 1025); Constantino VIII (1025 – 1028); a filha deste, Zoé (1028 – 1050), de seus três maridos que são Romano III Argyros (1028 – 1034), Miguel IV Paflagonio (1034 – 1041) e Constantino IX Monomachos (1042 – 1055); Miguel V Calafate (1041 – 1042); Teodora (1042), irmã e co-imperatriz de Zoé; Teodora (1055 – 1056), restaurada e último membro da Dinastia Macedônia; Miguel VI Sratiotikos (1056 – 1057); Isaac I Comnenos (1057 – 1059); Constantino X Ducas (1059 – 1067); Miguel VII Ducas (1067 – 1078) e seu co-imperador Romano IV Diógenes (1067 – 1071).

Esses noventa e cinco anos de História Bizantina foram conturbados, cheios de mudanças estruturais em cujo autor, Miguel Pselo, esteve profundamente envolvido. Em tempos de Basílio II vemos uma Bizâncio vencedora, expansionista, politicamente estável sob a égide de um autocrata forte e membro de uma dinastia profundamente legitimada (para padrões bizantinos, claro!). Já no reinado de Miguel VII Ducas, encontramos um Império derrotado, na defensiva e constantemente invadido por todos os fronts. Era ainda uma entidade política rica e sofisticada, mas cuja riqueza era apoderada por aristocratas inescrupulosos ou por um Estado ávido por impostos cada vez mais pesados sobre as costas daqueles que não eram ricos ou poderosos o bastante para se livrarem do fisco. A dinastia de Basílio II havia desaparecido e nenhum imperador parecia mais estar o suficientemente legitimado, por isso seus sucessores desviavam recursos do exército para distribuir larguezas aos cortesãos em formas de títulos e as gordas rendas que os acompanhavam. A Chronografia de Miguel Pseloé uma obra-chave para entender esse período.

Professor e aluno: Miguel Pselo e Miguel VII Ducas (manuscrito de entre os séculos XII e XIII)

Uns descrevem Miguel Pselo como um adulador profissional, que usou suas inegáveis habilidades retóricas, inclui-se aí esse livro, para manter-se sempre perto do trono, mesmo nesse período de motins e insurreições. Outros o descrevem como um intelectual impar, que, nesse livro, mostrou que, com sua erudição e inteligência, pode compreender como nenhum outro o processo de degeneração política que o Império Bizantino passou durante sua vida.

Pois bem. Lendo a Chronografia, afirmo que Pselo foi ambos. Ele escreveu esse livro pelos idos de 1078, isto é, durante o reinado de Miguel VII. Sendo assim, a narração do reinado desse imperador e do pai dele, Constantino X, foi tão laudatória que beira a fantasia. Enquanto as províncias se rebelavam e territórios eram perdidos, Pselo rasgava elogios a esse imperador, descrevendo-o como sendo um monarca exemplar. No entanto, se observarmos o livro como um todo, é possível perceber que, por trás de sua aparente subserviência a imperadores medíocres, há um homem público preocupado com a dignidade imperial e o legado político do Império Romano. Essa é claramente sua maior preocupação e ele sabia que usurpações e revoluções fragilizavam a posição bizantina. É possível ver isso no papel que Pselo toma durante a revolução dos generais liderada por Isaac Comneno. O imperador Miguel VI havia perdido toda sua legitimidade e as tropas revoltosas estavam prestes a tomar a cidade. Os esforços do autor em transformar a eminente revolução violenta numa sucessão legitimada foram admiráveis, ainda que infrutíferas. Esse foco e sua inteligência fizeram que Pselo entendesse de forma estrutural (oitocentos nos antes de começar a se falar de “estrutura”) as reais causas da crise política que o Império estava passando: a distribuição desmedida de títulos honoríficos imperiais que consigo traziam rendas provindas do tesouro imperial. Pselo percebe que essa medida tinha duas conseqüências funestas; a desvalorização desses títulos, que eram importantes ferramentas para política externa e interna bizantina, e a necessidade de tirar recursos do exército e marinha para tal fim, resultando em derrotas militares como a de Manzikert (1071) e invasões bárbaras.

Miguel Pselo era também um filósofo de tendências platônicas. Segundo ele próprio afirma, o autor foi responsável pelo ressurgimento da filosofia em Bizâncio (passagens como essa trouxeram acusações de vaidade e heresia sobre ele). Sendo assim, ele acreditava no modelo de rei-filósofo de Platão, portanto seu imperador modelar devia ser também um pensador. Aí entendemos os elogios de Pselo a Miguel VII, considerado um fraco governante pela historiografia atual e da época. No entanto, pela amizade que o autor tinha com Constantino X, pai de Miguel VII, Pselo foi apontado como tutor do jovem príncipe e o modelou segundo seus ideais político-filosóficos. Então, criticá-lo seria, para Pselo, criticar a si mesmo.

Caso estejam interessados em adquirir a Chronografia de Miguel Pselo, recomendo as seguintes traduções:

 Por João Vicente

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2 pensamentos sobre “Resenha de Chronografia de Miguel Pselo

  1. […] Esse projeto resultou em uma série de interessantes trabalhos sobre diversos temas dentro da grande área “Idade Média”. O meu trabalho naturalmente trata do tema Bizâncio, particularmente de um autor cujo trabalho e personalidade tem me interessado cada vez mais ao longo dos últimos tempos: Miguel Psello. […]

  2. […] que ia do absoluto desprezo dos monges e dos patriotas romanos até a reverência dos filósofos Miguel Psello e Pleton. No entanto, Kaldelis vai além e trata da complicada questão da identidade bizantina. […]

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