O Islã, o Imperador e o Papa.

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setembro 23, 2011 por João Vicente

Uma das figuras mais mal compreendidas no cenário internacional, por isso, uma das mais controvertidas e criticadas, é o Papa Bento XVI. Apelidado de “Rotweiller de Deus”, taxado de nazista e sempre comparado com seu popular e midiático antecessor, o atual Bispo de Roma com certeza não é muito popular. Em seus cinco anos de papado, suas ações e palavras foram criticadas pela imprensa e por outras religiões, por isso, ele é considerado um inábil líder e um desastre em “relações públicas”. Principalmente agora, com a atual crise relacionada às várias acusações de pedofilia que atingem padres e paróquias por todo o globo.  Enfim, essa é a imagem que surge na superfície da personalidade deste Bento XVI e seu reinado, mas tal visão está fadada a não perceber o projeto concreto que ele defende e que cada ação e palavra do Papa não é de forma nenhuma uma iniciativa mal pensada, mas coerente com esse projeto.

Para melhor entender essa forma de agir, na maior parte das vezes não compreendida pela imprensa e público geral, será necessário analisar um desses casos que foi considerado um “desastre de relações públicas”: a Aula Magna ministrada por Bento XVI na Universidade de Regensburg, Alemanha, no dia 12 de Setembro de 2006. Nessa data, o Papa, sentindo-se a vontade no meio acadêmico alemão de onde proveio, fez uma leitura em que ele analisa o caráter e a missão da instituição universitária, como difusora da razão, como também o caráter racional do Deus Cristão. Assim, para criar um contraponto à racionalidade cristã, Bento XVI utiliza como ponto inicial de sua dissertação o discurso do imperador bizantino Manuel II Paleólogos (1391-1425) onde ele diz ao seu interlocutor, que é um sábio persa, o seguinte: “Mostra-me também o que Maomé trouxe de novo, e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como a sua ordem de difundir através da espada a fé que ele pregava”. Mais a frente, o imperador justifica sua afirmação dizendo que Deus não se apraz com o sangue diz ele não agir segundo a razão ‘σὺν λόγω”. A partir daí, Bento XVI construiu sua argumentação teológica que, na verdade pouco tem a ver com a fé muçulmana, mas sim com a fé cristã, sua racionalidade e seu papel formador da identidade européia. Inicialmente esse discurso era para ser somente um evento acadêmico sem maiores repercussões, mas transformou-se numa polêmica global. Nos dias seguintes, os noticiários e jornais estavam cheios de imagens de muçulmanos irados protestando e incinerando “bonecos de Judas” retratando o Papa e “vaticanistas” criticando a falta de tato de Bento XVI. Enquanto isso, o Papa evitava os olhos públicos e enviava notas, através de porta-vozes, lamentando-se que sua comunicação tenha causado tantos transtornos e afirmava respeitava a Fé Islâmica. Porém, com uma leitura mais aprofundada desse evento e suas consequências, compreenderemos o real caráter do programa desse papado e que o Papa queria ao publicar uma critica tão contundente ao último profeta do Islã, mesmo que essa crítica não seja dele. Para isso temos entender cada um dos personagens dessa polêmica: o Islã, o Imperador e o Papa.

O Islã

Enquanto, na Idade Media, a Europa Cristã tentava se reorganizar depois da queda do Império Romano, recriando núcleos de pensamento fragmentados em monastérios que lentamente copiavam obras da antiguidade e começavam uma produção intelectual de base cristã, o Islã já tinha um ambiente intelectual e científico dinâmico, diversificado e que se dialogava intensamente devido a universalidade do idioma árabe. Na Espanha, filósofos persas polemizavam com autores egípcios, que contestavam doutrinas sírias e todos liam traduções da obra de Aristóteles, para assim racionalizar a revelação profética e nômade de Maomé. No entanto, na mesma velocidade que o mundo intelectual cristão se dinamizava e enriquecia em qualidade e quantidade com a criação das primeiras Universidades, em Bolonha e Paris, a partir do século XI, o mundo muçulmano se fragmentava politicamente e sofria com a chegada continua de invasores nômades do Oriente. Turcos primeiro e depois os mongóis. Resultando, assim, numa gradativa decadência desse rico universo intelectual muçulmano. Uma nova unidade política muçulmana foi conquistada pelo Império Otomano, mas isso não evitou que decadência da produção intelectual muçulmana universal continuasse. Hoje em dia, encontramos um Islã politicamente despedaçado, economicamente atrasado e com a boa parte de seus fieis vivendo em profunda pobreza. Terreno muito pouco fecundo para a existência de um universo intelectual dinâmico e de alto nível como existiu nos primeiros séculos do Islã, mas bastante fértil para discursos simplistas de extremistas que culpam todos os infortúnios que os Islã está passando à elementos externos, em especial ao laicização do mundo ocidental. Portanto, a revolta de parte do mundo muçulmano ao discurso de Bento XVI era previsível, em especial para o próprio Bento XVI.

Manuscrito islâmico do século XIII retratando Sócrates e seus pupilos

O Imperador.

O Império Romano do Oriente – ou Império Bizantino, como nós o conhecemos hoje em dia – foi o estado mais rico e mais prestigioso de Europa até o final do século XII, quando uma série de guerras civis e por fim o saque a Constantinopla, a capital imperial, pelas forças da Quarta Cruzada, em 1204, tenha iniciado um processo de decadência política que somente terminaria quando os turcos otomanos tomassem essa cidade em 1453. Portanto, a Bizâncio da época de Manuel II Paleologos, que reinou entre 1391 a 1425, era uma sombra de suas antigas glorias. Seu território era limitado a Constantinopla e algumas poucas cidades ilhadas em meio do crescente Império Otomano. Suas forças de defesa eram praticamente limitadas a algumas tropas mercenárias que mais causavam problemas do que resolviam. Constantinopla, que havia sido a maior e mais importante cidade do mundo por século, havia perdido seu brilho. O comercio todo estava na mão dos italianos, as antigas construções e igrejas estavam em ruínas e a população como um todo havia diminuído significativamente e os que restavam estavam divididos em encarniçadas disputas teológicas. As narrações da época apresentam Constantinopla como uma cidade formada por várias cidades, pois os bairros se tornaram distritos murados separados por áreas ruralizadas, onde ovelhas pastavam em meio de forae abandonados. Por outro lado, talvez para demonstrar a superioridade bizantina que seus exércitos e sua economia não poderia mais mostrar, esse período é marcado por uma grande e brilhante produção intelectual e artística. O imperador Manuel II Paleologos foi parte desse “renascimento” bizantino. Ele foi um profícuo autor de cartas, epitáfios, obras teológicas e filosóficas. Foi também um hábil estadista, conseguiu, com os parcos recursos que tinha, dar último suspiro de prestígio ao desgastado Império Bizantino. No entanto, pouco ele pode fazer, pois ao se tornar imperador, Bizâncio era pouco mais de um protetorado otomano. Tanto que o discurso citado pelo Papa supostamente aconteceu durante um dos períodos que o imperador foi obrigado passar na corte do Sultão Bayezid (1389-1402) para prestar-lhe homenagem e dar ajuda militar. Em um pitoresco evento, acompanhado de um rico séquito, Manuel II viajou pela Europa para pedir ajuda contra os turcos aos reis cristãos. Em todo o lugar que passava o imperador surpreendeu as cortes reais e os humanistas renascentistas pela sua erudição, inteligência e conhecimento do grego clássico, ao mesmo tempo em que despertava compaixão quando lembravam a razão de ele estar viajando. Então, reforçar a superioridade intelectual do Cristianismo sobre o Islamismo, Manuel II apontou a única face de sua civilização que a invasão turca não poderia ser tomada pelos turcos.

O Papa

Último personagem da polêmica é o Papa Bento XVI, que, até sua nomeação para o trono papal, era um desconhecido para a maioria das pessoas. Alguns poucos, no Brasil, o conheciam por presidir a Congregação da Doutrina e da Fé, a instituição descendente da afamada Inquisição e que conduziu o processo disciplinar do teólogo brasileiro Leonardo Boff, onde ele foi “condenado” e expulso dos quadros sacerdotais da Igreja. Por esse cargo, muitos o taxaram de “ultra-conservador”, “Rotweiller de Deus” e até mesmo de nazista. Porém, a maior parte das pessoas ignora que Joseph Ratzinger é um dos mais famosos intelectuais vivos. Manteve discussões profundas com outros brilhantes pensadores contemporâneos, como Jürgen Habermas. Ratzinger criticou como professor, e critica agora como Papa, o que ele chama de “ditadura relativismo” cultural e por isso, defende superioridade intelectual e a racionalidade do pensamento católico. Ele defende também a ideia da base cristã da identidade europeia, por isso é contrário à entrada da Turquia na União Européia. Desse modo, entendemos as diferenças entre o papado de João Paulo II e Bento XVI: João Paulo II era midiático, político e agregador. Já Bento XVI é diferente, ele acredita numa Igreja mais coerente, mesmo que menor, não abrindo mão de seus dogmas para agradar gregos e troianos. Do mesmo modo, Bento XVI defende a superioridade da Igreja sobre todos os outros credos, mesmo dizendo que os respeitam.

Voltando ao evento que abriu essa entrada. Dessa forma nos perguntamos: Será que o Papa, ao citar o dizer daquele imperador, sabia exatamente a reação que haveria, assim queria expor exatamente aquilo que o imperador bizantino Manuel II queria mostrar, isto é, a “irracionalidade” do Islã e para isso provar a superioridade intelectual da Igreja a qual preside? Não é muito conveniente que esse discurso tenha sido feito um ano depois de outra polêmica envolvendo um jornalista dinamarquês que foi ameaçado de morte por extremistas islâmicos por fazer um cartoon retratando Maomé? Bem, se essa era a proposta do Papa, pode dizer-se que ele conseguiu, pois os jornais das semanas seguintes estavam recheados de fotos estereotípicas de vociferantes homens com turbantes portando fuzis e queimando bonecos do papa.

Leitura recomendada.

RUNCIMAN, Steven. 1453: A queda de Constantinopla, Tradução de Laura Rumchinsky, Rio de Janeiro, Imago, 2002.

HOURANI, Albert. Uma História dos Povos Árabes, São Paulo, Companhia do Bolso, 2006.   

“Fé, razão e universidade. Recordações e reflexões”: A leitura do Papa Bento XVI na Universidade de Regensburg.


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4 pensamentos sobre “O Islã, o Imperador e o Papa.

  1. […] como o atual papa Bento XVI, a chanceler alemã Angela Merkel e o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy eram contra e outros […]

  2. […] como o atual papa Bento XVI, a chanceler alemã Angela Merkel e o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy eram contra e outros […]

  3. Daiane disse:

    Os povos do Islã retratavam figuras de homens? Achei muito interessante a imagem retratando Sócrates, no manuscrito do século XIII.

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