Impressões da Bulgária

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setembro 15, 2011 por João Vicente

Numa entrada abaixo, eu falei um pouco da minha experiência no 22º Congresso Internacional de Estudos Bizantinos entre os dias 22 e 27 de Agosto de 2011 e  e nessa, eu irei falar sobre o lugar que hospedou esse evento: Sofia, Bulgária.

Confesso que o congresso deu muito trabalho, ia cedo para voltar tarde. Então, poucos dias me sobraram para conhecer de fato o lugar, mas, mesmo com tempo limitado, eu pude visitar e apreciar alguns lugares interessantes.

Eu já escrevi um post onde faço uma rápida retrospectiva histórica da Bulgária. Sendo assim, passarei rapidamente sobre a história de Sofia, sua atual capital e onde passei a maior parte de minha estadia búlgara.

Sofia foi fundada na Antiguidade e era originalmente um povoado trácio chamado Serdica. Em 29 d.C, Serdica-Sofia foi conquistada pelos romanos, que, por volta do ano 100, promoveram uma ampla reforma urbana na cidade.

Serdica-Sofia aumentou seu prestígio no fim da Antiguidade. O imperador Constantino I (306-337) fez dela uma de suas principais residências, chegando a chamá-la de “Minha Roma”.  Nessa cidade aconteceu o Concílio de 343, onde foi discutida a legalidade do Arianismo.

Durante reinado de Justiniano (527-565), Serdica passa por uma nova fase de melhoramentos urbanos, quando a Igreja de Santa Sofia, que futuramente deu nome a cidade, foi construída. No restante da Idade Média, o controle de Serdica-Sofia trocava de mãos rapidamente entre os bizantinos e os búlgaros, os novos senhores dos Balcãs. Até que, em 1382, os turcos-otomanos a tomam definitivamente.

Nesse período, o nome “Serdica” ou sua variante eslava “Sderets”, deu lugar ao nome “Sofia”, tirado de sua catedral metropolitana.

Igreja de Santa Sofia em Sofia.

Durante o domínio otomano, Sofia tornou-se um importante centro urbano e capital da província da Rumélia. Sua população cresceu e se tornou muito variada. A cidade era habitada por búlgaros, turcos, gregos, judeus etc. Em 1878, Sofia foi “liberada” do jugo otomano por forças russas e, em 1908, tornou-se capital da Bulgária independente.

Na Segunda Guerra, ela foi ocupada pelos nazistas, que deportaram sua numerosa população judaica para os campos de concentrações. Depois que os soviéticos expulsaram os nazistas, Sofia tornou-se o centro da Bulgária Comunista até 1989.

Interior de Mesquita de Sofia, construída durante o domínio otomano (sec. XVI).

Minha percepção da atual Sofia é uma cidade se adaptando ao mundo após o fim do Comunismo. Grandes marcas e corporações estão num processo inicial de inserção lá. Vemos marcas e outdoors em todo lugar, mesmo em antigos prédios, onde a presença de uma enorme placa da Pepsi fica bastante estranho.

Sofia é uma cidade agitada. Era alto verão quando estive lá, então as pessoas estavam aproveitando os dias mais longos (anoitecia as nove e meia) para ficar mais tempo nas ruas. Eu via famílias inteiras passeando além da meia-noite.

Apesar de eu não ter tido tempo de aproveitar, notei que a vida noturna de Sofia é bastante agitada e, como é comum por toda Europa, dominada pela musica eletrônica.

Eu também tive uma sensação de segurança muito grande, mesmo comparando com outros lugares na Europa que estive. Sendo brasileiro, eu ando com meu radar para potenciais ameaças sempre ligado, mas em nenhum momento em Sofia eu precisei me preocupar com isso. Só os taxis. Aliás, ande a pé, de ônibus, de bonde, no lombo de um jumento ou mesmo não vá para onde você pretende ir, mas nunca pegue um taxi em Sofia!  

Por outro lado, eu percebi uma economia bastante desmonetarizada. As pessoas, principalmente as mais jovens, dificilmente têm emprego e, por isso, estabelecimentos comerciais, como bares e restaurantes, estão quase sempre vazios.

O centro da cidade é bastante semelhante a qualquer cidade européia, mas conforme você vai se afastando, vê aqueles tristes conjuntos de prédios iguais característicos da era comunista e em péssimo estado.

Paisagem de Sofia

Saindo de Sofia, o cenário de estagnação se mantém. No único dia que sai da cidade para visitar o Monastério de Rila, eu pude ver algumas vilas do interior e vi um país que um dia teve um momento efêmero de prosperidade causado pelo planejamento econômico estatal. Casas espaçosas, prédios, pontes, estradas e, principalmente, monumentos foram construídos. Porém, devido a insustentabilidade desse mesmo sistema, a economia búlgara não teve como mantê-los. Então, monumentos foram engolidos pelo mato, obras não foram terminadas – inclusive equipamentos e veículos que identifiquei como da década de 1950 foram simplesmente deixados lá – e casas foram abandonadas. Quando habitadas, as residências são muito mal conservadas ou mesmo meio tombadas. Enfim, pobreza… No entanto, é diferente da pobreza que nós brasileiros estamos acostumados, aqui há dinheiro, mas ele não circula em todos os lugares. Na Bulgária, o dinheiro é simplesmente escasso, ou pelo menos foi essa a minha impressão.

Agora passamos para Bizâncio.

Para mim, essa experiência na Bulgária foi muitíssimo interessante, pois foi a primeira vez na minha vida que estive num lugar que foi parte integrante do Império Bizantino.

Bizâncio foi muito importante para a identidade búlgara, pois, afinal de contas, os bizantinos converteram os búlgaros para religião ortodoxa, o alfabeto cirílio (farei um post sobre esse tema um dia) foi uma criação de monges bizantinos a partir do alfabeto grego e seu modelo de centralização política foi adaptado da autocracia bizantina. Os relativistas que me perdoem, mas digo com segurança que Bizâncio civilizou os búlgaros e, por conseqüência, os eslavos estabelecidos nos Bálcãs.

Igreja de São Jorge (sec. IV)

Várias camadas de afrescos do interior da Igreja de São Jorge (do século X ao XV)

Sendo assim, a Bulgária está repleta de cidades, fortalezas, monastérios e igrejas fundadas pela autoridade bizantina ou por autoridades locais sob forte influência de modelos estéticos bizantinos. Por causa do tempo limitado, eu só pude ver alguns desses monumentos: algumas igrejas e monastérios em Sofia, exposições de arte bizantina e o Monastério de Rila.

Começamos pelo último. O Monastério de Rila foi fundado no século X, pelos discípulos de São João de Rila (876-946), um dos primeiros santos da cristandade ortodoxa búlgara. Enquanto o santo vivia numa caverna, seus alunos fundaram o primeiro monastério a alguns quilômetros do eremitério. Pela popularidade de São João de Rila e da preeminência do monastério, o local tornou-se um importante centro da ortodoxia e, durante o domínio otomano, um bastião da cultura búlgara. Por isso, hoje o Monastério de Rila é um importante centro para essa nacionalidade.

Boa parte das construções que vemos atualmente no monastério, como a igreja e os dormitórios, foi construído no século XIX, porém os estilos, tanto da arquitetura quanto das decorações são marcadamente bizantinos.

Monastério de Rila: igreja no primeiro plano e dormitórios ao fundo são construções do século XIX, mas a torre, logo atrás da igreja, foi obra de um potentado sérvio do século XIV.

Em Sofia e arredores, pude visitar alguns monastérios, como os de Boyana e Dragalevtski, e ir a exposições de arte bizantina ligadas ao Congresso.

Mesmo sendo uma arte periférica e não tendo sofisticação dos mosaicos e igrejas bizantinas de Constantinopla, a arte búlgara medieval tem seu charme. Ela é basicamente composta de afrescos em pequenas igrejas. No entanto, por ser uma área distante dos grandes centros e de recém-evangelização, os trabalhos artísticos muitas vezes se desprendem ao cânon estético bizantino, com resultados interessantes.

Afresco retratando Jesus Cristo subindo a cruz sozinho e com uma escada(!). Monastério de Dragalevtski (sec. XV)

Afresco retratando Jesus sendo batizado, ao seu lado dois arcanjos com pernas(!). Monastério de Dragalevtski (sec. XV)

Ícone bizantino da Virgem Portadora de Deus (Theotokos)

Ícone bizantino altamente decorado da Virgem Portadora de Deus (theotokos). Sec. XIV.

Ícone bizantino altamente decorado da Virgem Portadora de Deus (theotokos). Sec. XIV.

Para concluir, digo que minha estadia na Bulgária foi algo extremamente positivo, principalmente para meu futuro como bizantinista. Lá pude ampliar meu conhecimento e contatos no mundo dos estudos bizantinos e, ao conhecer uma parte integrante do universo bizantino, pude ter uma melhor perspectiva de algo que pode ser chamado de “alma bizantina”.

 Por João Vicente

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10 pensamentos sobre “Impressões da Bulgária

  1. arcellina helena disse:

    Querido sobrinho Bizantinista (?) João Vicente,
    Parabéns! Viajar é bom, partilhar com os amigos e as amigas pode ser também muito bom. Especialmente para nós. Encontrei muita arte bizantina na Romênia. com a diferença de que lá, o povo não permitiu a entrada dos turcos. Eles contam isso com muito orgulho… E os Mosteiros de lá são cheios de vida religiosa. Você não falou sobre isso. A imagem do mosteiro que você mostrou só tinha turistas. Eh assim de fato nos demais mosteiros??
    Um beijo e mais uma vez parabéns. sua tia arcelina

    • Tia Arcelina,
      Em primeiro lugar obrigado pelo comentário.
      De fato, os monastérios ortodoxos são ambientes de profunda vivência religiosa. Essa religiosidade tão forte foi o principal ponto de resistência das populações cristãs dos Balcãs na época do domínio otomano.
      Infelizmente, eu pude compartilhar muito pouco dessa vivência religiosa ortodoxa durante minha estadia na Búlgaria. O tempo que tive para conhecer o país foi muito limitado (o congresso tomou quase todo meu tempo) e também só pude visitar igrejas não mais em uso (afinal de contas o governo comunista fez um grande esforço para desencorajar a religião e, por isso, muitas igrejas foram desativadas) ou, quando em funcionamento, eram lotadas de turistas. Apesar de tudo isso, eu pude presenciar algumas coisas: celebrações religiosas, venerações aos ícones e pessoas que terminavam suas peregrinações no Monastério de Rila beijando o sarcófago do fundador daquele monastério…

  2. Vera Marta disse:

    Olá João.
    Viajar é sempre bom. ( já dizia meu pai, seu avô). Mas viajar com o conhecimento o lugar que se visita , e procurando aprender mais, é algo indescritível.
    Aprendi muito com seu blog. Parabens! Beijos e bênçãos da tia Vera Marta

  3. CARLOS disse:

    JV, Quando vais nos contar ao vivo esta experiência?
    DUDA

  4. Rosi disse:

    Sempre aprendendo com você! Gostei da leitura facil e gostosa. Parabéns e abços. Rosi

  5. juliana disse:

    bacana, curioso e fotos de alto nível, Abço, Juliana.

  6. Emmanuel disse:

    Muito bom João
    vou postar pra familia
    bjs

  7. ana disse:

    Revisando: pois sempre admirei a arte bnizantiba- dois gostei numa mesma frase é pobreza de vocabulário.

  8. ana disse:

    volto para ler com mais calma. Por enquanto so uma pequena correção – dinheiro é simplesmente escasso. Mania de quem fez muito copydesk em redações. Gostei muito pois sempre gostei da arte bizantina mesmo sem maiores conhecimentos. Parabéns.

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