De repente, Bulgária

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agosto 12, 2011 por João Vicente

Em alguns dias estarei indo a Bulgária para participar do 22º Congresso Internacional de Estudos Bizantinos, onde apresentarei a seguinte comunicação “The Alexiad and Digenis Akritas: an indirect relation”. Esse evento será organizado pela Associação Internacional de Estudos Bizantinos e pela Universidade de Sofia entre os dias 22 e 27 de Agosto. Esses encontros internacionais de bizantinistas acontecem desde o início do século XX a cada cinco anos, mas são organizados pela associação acima mencionada desde 1948.

Esse congresso em especial será particularmente volumoso – li em algum lugar que há mais de 2.000 inscritos  – e importante, visto que o presidente da Bulgária será seu patrono.

Para mim será uma chance para conhecer colegas que trabalham também com Bizâncio e expor meu trabalho a especialistas de fato na área. Isso é completamente novo para mim, então minha ida será ao mesmo tempo uma grande oportunidade e um grande desafio.

Além disso, será uma chance para conhecer a Bulgária ou pelo menos Sofia, a capital, e arredores.

Sinceramente confesso que meus conhecimentos sobre a Bulgária são parcos, basicamente a parte em que a História Búlgara se mescla com a História de Bizâncio.

Os búlgaros eram originalmente uma ramificação dos hunos. Sendo assim, sua origem é a Ásia Central, mas, devido a política “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” promovida por Bizâncio, os búlgaros foram atraídos ao vale do Rio Danúbio para combater os ávaros.

Porém, como acontecia frequentemente com essa política, os búlgaros acabaram se tornando um problema maior do que aquele que eles deveriam resolver e, por volta de 680, o Cã Asparuc, líder de uma facção búlgara, atravessou o rio Danúbio, entrou em território bizantino, derrotou as forças imperiais e criou Primeiro Canato Búlgaro, que durou até 1018.

Búlgaros massacrando bizantinos. Menologion de Basílio II. (século X) Biblioteca Vaticana.

Nesses mais de três séculos, o Império Búlgaro tornou-se um cadinho para os povos eslavos já muito presentes nos Balcãs.

Devido a proximidade com Império Bizantino, os búlgaros se cristianizaram e helenizaram profundamente, tanto que no auge do Império Búlgaro, no século X, os cãs pretenderam coroar-se como “Czar” ou “César” dos romanos e dos búlgaros.

Porém, essa pretensão foi abafada pela expansão bizantina no final desse mesmo século. A Bulgária foi totalmente subjugada pelo imperador bizantino Basílio II(976-1025) na Batalha de Kleidion, em 1018. Após o final desse encontro, Basílio II mandou cegar todos os 10.000 prisioneiros búlgaros, por causa disso ele é conhecido pelo epiteto “Matador de Búlgaros”.

Os bizantinos liderador por Basílio II na Batalha de Kleidion (acima) e a morte do Tsar búlgaro Samuel, em 1018.

Depois da batalha de Kleidion, a Bulgária viveu quase dois séculos sob o domínio bizantino, porém foi reconhecida sua identidade através da independência de sua Igreja e absorção de sua elite nas fileiras da aristocracia bizantina.

No entanto, a coesão do Império Bizantino era tão forte quanto o era seu poder central, então o falecimento de Manuel II Comnenos em 1180 e o reaparecimento das guerras dinásticas deram a oportunidade para a elite búlgara dar seu grito de liberdade e fundar o Segundo Império Búlgaro. No entanto, essa segunda existência da Bulgária teve menor ímpeto que a primeira, pois logo se fragmentou e, a partir do século XIV, passou a ser absorvido pelos turcos otomanos, cujo domínio sobre a Bulgária durou até 1878.

A partir de então a história da Bulgária passou pelo denominador comum de outros povos balcânicos: teve um governo colaborador dos nazistas durante a Segunda Guerra, tornou-se comunista até 1989, escapou da onda de guerras civis e limpezas étnicas que marcaram seus vizinhos durante a década de 90 do século passado, uniu-se a União Europeia em 2005 e adotará o Euro em 2013.

Vista Quartel-General do Partido Comunista Búlgaro (1984)

Hoje em dia a Bulgária, assim como outros países balcânicos, é uma nação em busca de algum rumo. Esse país luta para superar a estagnação resultante das reformas mal-feitas nos últimos anos de governo comunista e para não se tornar uma mera fonte de mão de obra barata para os principais países da União Europeia.

A eleição de Dilma Roussef para presidência do Brasil parece ter animado a Bulgária. Acreditando que, com a eleição de uma descendente búlgara para a presidência de um país que desponta como nova liderança internacional, a Bulgária possa começar a achar um caminho no mundo pós-cortina de ferro…

Seleção de futebol da Bulgária na Copa do Mundo de 1994.

Para fechar essa entrada, eu recordo da Copa do Mundo de 1994, nos EUA, quando eu criei uma ligação com a Bulgária. Essa copa foi a primeira que de fato lembro e uma das coisas que mais recordo é que, devido a qualidade do futebol da seleção búlgara liderada por Hristo Stoichkov, tornei-me um torcedor da Bulgária. Sua eliminação frente a Itália nas semi-finais me desapontou bastante…

Espero que minha estadia búlgara me ajude a expandir a boa imagem que comecei a criar da Bulgária em 1994 quando eu só tinha dez anos.

Manterei vocês informados.

Por João Vicente

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2 pensamentos sobre “De repente, Bulgária

  1. […] já escrevi um post onde faço uma rápida retrospectiva histórica da Bulgária. Sendo assim, passarei rapidamente […]

  2. […] última entrada desse blog, eu comentei sobre minha ida a Sofia, capital da Bulgária, para atender o 22º Congresso […]

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