Como surgiu o Império Bizantino? Parte I (transformações e reformas do quarto século)

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julho 15, 2011 por João Vicente

Caros leitores,

A partir de hoje, eu irei disponibilizar um texto que escrevi como exercício quando estudava para um concurso público que participei. Seu tema é a “transformação” do Império Romano em Império Bizantino.

Irei dividi-lo em três partes: o primeiro é sobre as mudanças que o Império Romano sofreu a partir do século III, no segundo falarei sobre a ascensão do Cristianismo à religião oficial do Império e no terceiro irei tratar sobre os primeiros desenvolvimentos da História que se estabeleceu chamar de “bizantina”.

Como surgiu o Império Bizantino? Parte II (a ascensão do Cristianismo)

Como surgiu o Império Bizantino? Parte III (os primeiros passos)

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Em obra clássica, ainda que há muito ultrapassada, Fustel de Coulanges demonstra como as instituições políticas romanas, e gregas, eram também religiosas. De certa forma, um magistrado romano ou grego era um político e um sacerdote. No fim da república e início do império, os homens que ocupavam tais magistraturas não se importavam tanto com o fundo religioso de suas funções, ainda que, pelas aparências, demonstravam respeito por ele. Contudo, a associação entre religião e política volta à tona com a fundação do cargo de Imperador.

Otávio Augusto representando como Imperator – A origem do poder imperial romano é o comando geral das forças romanas dada em caráter excepcional pelo Senado: o Imperium.

 Essa inovação apresentava paradoxo para a tradição política romana por dois motivos. Primeiro, até as mais altas magistraturas como o de cônsul eram fiscalizadas por seus pares, que, em certos casos, poderiam decidir afastar alguém de seu cargo. Desse modo, a elevação de uma pessoa a uma posição como de imperador desequilibrava a equação. Segundo, os romanos tinham um legado anti-monarquista fortíssimo, César havia sido morto por suspeitarem que ele pretendia se coroar rei. Apesar das manobras feitas pelos apoiadores de Augusto, o primeiro imperador, que criaram o título de “princeps”, isto é, o primeiro cidadão, para convencer a sociedade romana, principalmente a elite senatorial, que a autoridade dada a Otaviano Augusto tinha como função resguardar e restaurar a República, a realidade era que a posição do imperador romano era quase análoga a de um rei. Não demorou para que surgissem discursos que divinizavam o imperador e assim, justificasse seu poder. Isso aconteceu, em primeiro lugar, nas províncias orientais, mais acostumadas a serem governadas por poderes monárquicos de origens divinas. Augusto aceitou que os gregos lhe chamassem de “basileos”, “rei” em grego, título que os imperadores romanos vão continuar a portar até o dia em que Constantinopla caiu para os turcos em 1453.

Até o final do século II, essa questão continuou ser complicada, uma vez que, tendo que justificar sua autoridade à elite romana, os imperadores geralmente eram cuidadosos para não ultrapassar o fino limite que diferenciava o poder “imperial” do poder “monárquico”. Os imperadores evitavam se divinizar ao mesmo tempo em que se associavam ao sagrado, divinizando seus ancestrais e declarando-se descendentes de deuses olímpicos e tomavam para si várias magistraturas ao mesmo tempo para dar a sua autoridade um caráter institucional.

Os tetrarcas Diocleciano, Galerio, Maximiano e Constâncio Cloro.

 Com o início do século III, esses cuidados foram deixados de lado. O fiel da balança política romana deixou de ser a elite da cidade de Roma e passou a ser as legiões, com poucas sensibilidades políticas em relação ao caráter religioso do poder imperial e mais preocupadas com a remuneração pecuniária que seus candidatos a imperador poderiam lhes fornecer. Essa foi a chamada “crise do século III”, quando os imperadores deixam de ser magistrados e passam a ser generais.

 Apesar de ter sido uma época de crise política e fragmentação territorial, Peter Brown, em seu “O fim do Mundo Clássico”, aponta que esse foi um período de profundas mudanças, que deram ao Império um novo fôlego no século IV e permitiram que o Império continue a existir, em sua metade oriental, por mais de um milênio, a qual a historiografia passou a chamar de “Império Bizantino”.

1 – Devido às constantes guerras, os imperadores do século III se desvincularam a cidade de Roma. A capital passou a ser onde o imperador estava. Isso permitiu que a identidade “romana”, antes circunscrita a Itália e as elites senatoriais espalhadas por todo Império para governá-lo, expandir-se. Todo habitante do Império podia agora ser nomeado “romano” e o Império passou a se denominar “Romania”.

2 – Apesar de que as frequentes aclamações militares como forma principal de nomear imperadores tenha resultado numa profunda crise política, criou-se a ideia de que o Império deveria ser governado por mérito e não por direitos ancestrais adquiridos. Portanto, nas reformas de Diocleciano, institui-se no exército e na burocracia romana um ideal de meritocracia. O Império passou a ser gerido e governado por figuras cuja origem eram os estratos mais baixos da sociedade romana, porém de grande capacidade, aumentando com isso a efetividade da burocracia e do exército.

3 – As mudanças acima referidas resultaram numa enorme mobilidade social. Então, esses “novos ricos” pretendiam assemelhar-se a antiga elite adotando o legado clássico como “identidade de classe”. Contudo, diferentemente da antiga elite senatorial romana, essa nova elite meritocrática era exponencialmente menos conservadora, portanto, ao adotarem a cultura clássica, essa nova aristocracia patrocinou uma renovação desse legado. Algumas vezes essa nova produção era bastante superficial, pois essa nova elite não tinha ligações fortes com o legado clássico, assim muitos deles só queriam aparentar-se sofisticados, porém outros o adotaram com corpo e espírito, de modo que patrocinaram ou produziram si próprios obras que seguiam os padrões clássicos, mas absorvendo elementos novos e estrangeiros. Aí que entra o Cristianismo.

 No entanto, sobre a ascensão do Cristianismo de culto obscuro a religião imperial irei tratar em outra entrada.

Por João Vicente

  Leituras recomendadas:

COLANGES, Fustel de. A cidade antiga, São Paulo, Matin Claret, 2009.  

BROWN, Peter. O fim do mundo clássico, Lisboa, Verbo, 1972.

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3 pensamentos sobre “Como surgiu o Império Bizantino? Parte I (transformações e reformas do quarto século)

  1. […] do porquê da parte ocidental ter caído sob domínio “bárbaro” e a oriental não, clique aqui) Então, no momento da ascensão de Justiniano a púrpura, Bizâncio era um império rico, estável […]

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