A coleção bizantina do Metropolitan Museum (Nova Iorque) – parte III

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julho 5, 2011 por João Vicente

Nas últimas entradas, eu postei algumas fotos que tirei da coleção bizantina do Metropolitan Museum de Nova Iorque acompanhadas de algumas explicações.  As fotos postadas foram selecionadas entre aquelas peças mais belas, interessantes e cujas fotos ficaram melhores.  Entretanto, deixei o crème de la crème por último: o conjunto de seis pratos de prata retratando a história do Rei Davi feitos em 629 e 630 e achados em Caravas, no Chipre.

A coleção bizantina do Metropolitan Museum (Nova Iorque) – parte I 

A coleção bizantina do Metropolitan Museum (Nova Iorque) – parte II 

Essa belíssima coleção de pratos retratando a história do rei hebreu Davi, conforme relatado no primeiro livro Samuel, no Antigo Testamento, tem sua datação registrada na sua parte detrás como tendo sido feito entre 613 e 630, data que o localiza exatamente na primeira metade do reinado de Heráclio (610-641). Como irei mais a frente mostrar, a sofisticação do trabalho, as referências iconográficas a corte imperial e eventos políticos importantes apontam que esse trabalho muito provavelmente foi realizado nas oficinas imperiais e para a corte de Constantinopla.

O primeiro prato mostra o profeta Samuel reconhecendo Davi como o escolhido de Deus que o unge (1 Samuel 16: 13). Enquanto isso, seu pai Jessé e dois de seus irmãos o observam.

Prato 1- Samuel reconhecendo Davi como o escolhido de Deus que o unge (1 Samuel 16: 13)

A interpretação desse segundo prato é mais complicada. Alguns afirmam que é Davi sendo repreendido pelo seu irmão Eliab por ter descuidado do rebanho para assistir a batalha de Golias (I Samuel 17: 28-30). Pode ser também Davi desafiando Golias (I Samuel 17: 41-45). Ou mesmo Davi encontrando o soldado Egípcio (I Samuel 30: 11-15).

Prato 2 - Davi sendo repreendido pelo seu irmão Eliab por ter descuidado do rebanho para assistir a batalha de Golias (I Samuel 17: 28-30). ou Davi desafiando Golias (I Samuel 17: 41-45) ou Davi encontrando o soldado Egípcio (I Samuel 30: 11-15).

No terceiro prato observamos Davi apresentado ao rei Saul e afirmando que está disposto a dar batalha ao gigante Golias (I Samuel 17: 32-34). O rei Saul está vestido como um membro da corte bizantina. Ele usa com uma chlamys, uma capa militar, sobre uma túnica de manga comprida, que é presa por um broche cruciforme, um signo do alto oficialato da burocracia imperial.  A clâmide é adornada com uma tablion, um bordado retangular que aponta a posição de seu portador. O homem a esquerda veste traje persa, que na época torna-se moda na corte bizantina. As arcadas e colunatas sugerem um cenário palaciano.

Prato 3 - Davi apresentado ao rei Saul e afirmando que está disposto a dar batalha ao gigante Golias (I Samuel 17: 32-34)

Para mostrar que ele poderia matar Golias, Davi descreve ao rei Saul como ele matou um leão (I Samuel 17: 34-37). O naturalismo da imagem é uma referência clara as tradições artísticas greco-romanas.

Prato 4 - Davi descreve ao rei Saul como ele matou um leão (I Samuel 17: 34-37)

O quinto prato retrata Davi recebendo de Saul a armadura para seu combate com Golias (I Samuel 17: 38). A panóplia é tipicamente romana-bizantina e sua posição na imagem, logo abaixo de uma arco sobre colunas, como os imperadores bizantinos tipicamente eram retratados, mostrando assim o destino monárquico de Davi.

Prato 5 - Davi recebendo de Saul a armadura para seu combate com Golias (I Samuel 17: 38)

O sexto prato é a apoteose da coleção. Observamos três cenas: uma maior no meio e duas outras menores embaixo e em cima. A cena principal é a batalha entre Davi e Golias. Apesar de Golias parecer estar na ofensiva, os exércitos que acompanham Davi avançam sobre os de Golias. Na cena abaixo, Davi decapita Golias (I Samuel 17: 41-51).

Prato 6 - Combate entre Davi e Golias (I Samuel 17: 41-51)

Muito provavelmente esse conjunto de pratos não foi concebido para utilização em refeições, mas para exposição, pois acredita-se que ele tenha uma mensagem clara. Entre 609 e 629, o imperador Heráclio empreendeu uma longa e custosa guerra contra o maior adversário do Império Romano: os Sassânidas. Esse embate mobilizou profundamente a sociedade bizantina, pois, em 614, os sassânidas invadiram Jerusalém, destruíram a Igreja do Santo Sepulcro e levaram, como butim, a Cruz onde se acreditava Cristo fora crucificado. A vitória completa dos bizantinos e o retorno da Cruz a Jerusalém foi intensamente festejada. Então, acredita-se que esse belo conjunto de prataria é uma celebração dessa vitória. Constantinopla era considerada como sendo a nova Jerusalém e seus imperadores como os novos reis de Israel, fazendo de Davi uma representação de Heráclio. O gigante Golias era a imagem dos bárbaros sassânidas e a vitória de Heráclio era análoga a vitória de Davi. Ambas seriam fruto do favor do mesmo Deus.

 Por João Vicente

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