Livro: “Investigando Piero” de Carlo Ginzburg

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junho 30, 2011 por João Vicente

Ao observar uma obra de arte, qual a importância de uma orelha ou de um nariz? Para o historiador italiano Carlo Ginzburg a importância é enorme. No livro “Investigando Piero”, Ginzburg analisa a obra do pintor do cuattrocento italiano Piero della Francesca (1415-1492), principalmente seu trabalho mais famoso e enigmático: a Flagelação de Cristo.

“Investigando Piero” por Carlo Ginzburg, Editora Cosacnaify, 2010.

Essa é uma das principais pinturas do Renascimento. Seu uso de diferentes perspectivas é considerado um avanço técnico notável e apesar de trabalhar com um tema iconográfico bastante famoso, a flagelação de Cristo por soldados de Pôncio Pilatos, há vários questionamentos sobre esse quadro: Quem são os três personagens retratados em primeiro plano? Porque Pôncio Pilatos foi retratado como um imperador bizantino (os trajes, o chapéu e o sapato púrpura acusam)? Por fim, qual é a mensagem principal dessa obra?

"Flagelação de Cristo" por Piero della Francesca.

Baseado numa análise iconográfica de detalhes em geral considerados relevantes, como as orelhas e narizes, Ginzburg constrói uma intrincada argumentação. Ele afirma que esse quadro relaciona-se com o círculo humanista de Urbino (onde esse quadro foi pintado), a figura do bispo bizantino convertido em cardeal católico e humanista Bessarion (1403-1472) e a causa da Cruzada pela retomada de Constantinopla das mãos dos turcos. No primeiro plano, a imagem de Cristo sendo açoitado enquanto assistido pelo imperador bizantino, aqui identificado como sendo João VIII Paleólogo (1425-1448), representa a inação dos bizantinos em relação ao sofrimento impingido pelos turcos aos cristãos do Oriente. Enquanto, os três personagens misteriosos do segundo plano seriam, da esquerda para direita, o cardeal Bessarion, o filho-prodígio e bastardo do Duque de Urbino Federico de Montefeltro e o humanista Giovanni Bacci.

A discussão que Ginzburg teceu para chegar a essas conclusões e o grande tema da pintura, eu deixo para os leitores. Quem conhece a obra de Carlo Ginzburg sabe que ler seus livros é uma experiência única. Sua inteligência, erudição e suas linhas de argumentação fazem de seus trabalhos uma aula de metodologia da História. Fico feliz que tais habilidades tenham sido utilizadas para tratar temas tão importantes para os Estudos Bizantinos.

 Por João Vicente

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