Entre solidificação cósmica e a transformação social ou o Império Bizantino realmente existiu?

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junho 10, 2011 por João Vicente

Alguns podem ser chocar com essa afirmação, mas nunca, em nenhum momento da História, existiu um lugar chamado “Império Bizantino”. Ponto!

Explico-me. O Império que chamamos de “bizantino”, nunca, no período de sua existência, se autonomeou dessa forma. Bizâncio foi uma cidade fundada por colonos provindos da cidade grega de Mégara, em 667 a.C e ganhou esse nome devido ao líder dos colonos, que chamava-se Byzas. Bizâncio, então, prosperou comercialmente devido sua posição geográfica favorecida, porém nunca foi um grande centro urbano na Antiguidade até que Constantino I (306-337) decidiu estabelecer ali uma nova capital do Império Romano e rebatiza-la como “Constantinopolis”, a “cidade de Constantino”. A partir daí o nome “Bizâncio” gradualmente caí em desuso e passa a ser utilizado por alguns autores que pretendiam dar um ar de arcaísmo em seu texto. Os termos mais utilizados era “Constantinopolin”, “He Basileousa” (a Imperial) ou “Nea Rome” (Nova Roma). Da mesma forma, os habitantes dessa cidade e do Império em geral nunca se chamaram de bizantinos, mas sempre de “romaioi” ou romanos. Porque se chamariam de outra coisa? Seu Império (por eles comumente chamado de “Romania”, a terra dos romanos) era a continuadora da instituição imperial fundada por Augusto em muitos aspectos. A linha de sucessão imperial se manteve intacta desde esse primeiro imperador até, pelo menos, 1204, quando a Quarta Cruzada toma Constantinopla e lá estabelece uma linhagem imperial de origem francesa. Paralelamente, outras três tradições imperiais gregas surgem em pontos independentes do Império: no Épiro, em Trebizonda e em Nicéia. Sendo que a última sairá como grande vencedora ao tomar Constantinopla dos francos em 1261.

Augusto (27 a.C-14 d.C) e Basílio II (976-1025): dois imperadores dos romanos, mas que romanos são esses?

Além da linhagem imperial, uma série de outras instituições bizantinas remontava diretamente do Império, República e muitas vezes da Monarquia Romana: o Senado, a Justiça, o Exército, a burocracia etc. Um bom exemplo são exércitos das themata, sobre as quais a administração provincial bizantina se reformou a partir do século VII. Elas têm suas origens nas antigas legiões romanas acampadas nas províncias orientais do Império e que se refugiaram na Anatólia depois da grande expansão muçulmana posterior a morte de Maomé, nos séculos VII e VIII.

Obviamente nem todos viam os bizantinos dessa forma, principalmente os Ocidentais, que, tendo refundado seu próprio Império Romano, com a coroação de Carlos Magno, no natal do ano de 800, passaram a se recusar a dar o título de “imperador dos romanos” àquele sentado no trono de Constantinopla. Eles preferiam chamá-lo de “imperador dos gregos”, uma ofensa aos brios bizantinos. Um diplomata do imperador ocidental passou um tempo na masmorra por se dirigir ao imperador Nicéforo Focas (963-969) dessa forma.

Alguns apontam na transformação da identidade “romaioi” para uma proto-nacionalidade grega no período dos imperadores Paleólogos (1261-1453). Eu sou cético. Essa afirmação é quase inteiramente baseada nos trabalhos do humanista bizantino Gemisto Pleton (1355–1452/1454) que advogava a volta dos deuses olímpicos e chamava os bizantinos de “helenos”. Não acredito que os bizantinos de seu tempo pensassem como ele e há evidências bem claras que essa a identidade romana perdurou até os últimos dias do Império e Além. A população de religião ortodoxa e idioma grego continuaram a se chamar de romanos sob o domínio otomano. Isso só mudou quando o nacionalismo ocidental foi adotado pelos herdeiros de Bizâncio, no início do século XIX, que, por isso, passaram a idealizar o passado da antiguidade grega como um precursor do ideário liberal, e o legado bizantino, por isso, foi deixado em segundo plano.

Retrato de renascentista de Gemisto Pleton (1355-1452)

Para concluir, há que se pontuar que essa continuidade institucional e retórica romana existente no Império Bizantino era parte de um discurso que tinha duas pretensões: (1) manter o prestígio bizantino no universo medieval e (2) principalmente estabelecer quase forçadamente um ideal de permanência cósmica, a taxeis, que era o centro da concepção de mundo bizantina. Portanto, esse discurso escondeu importantes forças de mudanças sociais e culturais existentes na sociedade bizantina. Por durante um bom tempo, historiadores foram enganados por essa retórica. Devido as diferenças, principalmente estéticas, entre esse ideal bizantino do que era romano e a imagem que esses historiadores tinham da Roma Clássica, concluiu-se que o Império Bizantino era somente uma versão corrompida do Império Romano de Augusto, Trajano e Marco Aurelio e foi somente nos últimos cem anos que a historiografia passou a perceber a existência de um universo complexo, cambiante e completamente diverso debaixo dessa imagem estática que os próprios bizantinos criaram para si mesmos. É o que explica a utilização do termo “bizantino” até hoje. Cunhado para qualificar o Império Romano Medieval como uma versão decadente de sua fase clássica, hoje ele é necessário para compreender sua coerência e a singularidade histórica.

Leituras recomendadas:

ANGOLD, Michael. Bizâncio: A ponte da Antiguidade para Idade Média. Rio de Janeiro: Imago. 2002.

KAZHDAN, A & CONSTABLE, G. People and Power in Byzantium. Washington: Dumbarton Oaks. 1982

Por João Vicente

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2 pensamentos sobre “Entre solidificação cósmica e a transformação social ou o Império Bizantino realmente existiu?

  1. […] de seis séculos, mas pela enorme dificuldade em traçar o que é e o que não é bizantino (aliás, temos um post sobre isso). Por exemplo: a Bulgária era fortemente ligada politicamente e culturalmente a Bizâncio. Ela […]

  2. Isso que eu sempre pensei desde que ouvi o termo “Império Bizantino” pela primeira vez. A parte ocidental do Império Romano caiu mas a outra perdurou por muito tempo. E exatamente por essa imagem que se foi criada como eles sendo gregos parece que se tornou outro império, mas eles sempre foram romanos, nunca deixaram de ser.

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