Porque estudar Bizâncio?

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maio 31, 2011 por João Vicente

Uma vez que a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos tem pouca ou nenhuma relação com as navegações portuguesas que resultaram a chegada desses a nossas costas, a resposta a essa pergunta encontra-se numa questão de perspectiva e de um preconceito: há uma ideia que flana na academia brasileira e também estrangeira que, sendo de um país com tantos problemas estruturais, o historiador brasileiro deve se dedicar somente a História do Brasil, para, desse modo, descobrir as “soluções dos problemas” que afligem nossa sociedade.

Eu sou um grande crítico dessa teoria. Primeiro porque a História não fornece e nunca fornecerá ferramentas para se “concertar” a realidade. No máximo, ajudará a compreendê-la, nunca sozinha, mas ao lado de várias outras disciplinas. Segundo, o historiador brasileiro pode ter outros questionamentos que vão além das fronteiras estabelecidas pelo Barão do Rio Branco, não é?!

Não sei de outros historiadores tupiniquins que se dedicam a Bizâncio ou a outros temas “extra-brasileiros”, mas, para mim, estudar a civilização bizantina é esclarecedor para a compreensão da Humanidade como um todo e como ela tem agido no período de sua existência. Além de ser fascinante por uma série de aspectos, por assim dizer, “românticos” (sem os quais a História em si não existiria, diga-se de passagem!).

Estados burocratizados captando recursos da sociedade - Bizâncio (sec. XII) e Brasil (séc. XXI)

Eis uma questão universal: por ser bem menos complexa do que os atuais sistemas estatais contemporâneos, o estudo sobre o Império Bizantino fornece interessantes perspectivas do funcionamento de uma estrutura política sobre uma sociedade. Por sua alta burocratização, impessoalidade administrativa e identidade universalista multiétnica e multicultural, Bizâncio pode ser visto como um predecessor de nossos estados-nacionais.

Além disso, estudar Bizâncio é pertinente para entendermos outras questões pontuais, como o surgimento dos Absolutismos, a atual instabilidade política dos Balcãs, o multiculturalismo, o pan-eslavismo, as Cruzadas, entre outros muitos temas que iremos tratar nesse blog.

Por enquanto, creio que forneci algumas respostas ao questionamento posto no título dessa entrada (essa questão será uma temática constante nesse portal) e, para concluir, cito Michel de Montaigne:

“Perguntaram a Sócrates de onde era e ele não respondeu “de Atenas”, mas “do Mundo”. Para ele, cuja inteligência era mais vasta e aberta que a de outrem abarcava o universo e dele fazia sua cidade, o objeto de sua afeição era o gênero humano; e não agia como nós que apenas olhamos em torno de nós. Quando a vinha se queima sob a geada em minha aldeia, o cura imagina que a cólera divina ameaça a humanidade e crê que já andam os canibais mortos de sede”

Por João Vicente
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