Bizâncio, Brasil e as Especiarias.

5

maio 27, 2011 por João Vicente

Durante muito tempo, o pouco que havia sido ensinado nas escolas brasileiras sobre Bizâncio era uma suposta ligação entre a Queda de Constantinopla aos turcos otomanos, em 1453, e o início das Grandes Navegações Lusitanas, que resultaram no “achamento” do Brasil em 1500. Segundo essas explicações, ao tomarem Constantinopla, os otomanos fecharam os mercados dessa cidade, que sempre foi uma ligação mercantil e cultural com entre Europa e Ásia, aos mercadores cristãos. Portanto, querendo estabelecer uma nova rota de acesso aos produtos exóticos do Oriente, os portugueses lançaram-se ao mar em direção às Índias e uma dessas missões, liderada por Pedro Álvares Cabral, aportou na nossa costa.

"Cerco a Constantinopla" pintado em 1499.

Essa explicação tem muitas falhas. Primeiro, os Otomanos não eram estúpidos. Além da importância simbólica de Constantinopla, por ser um grande centro cristão, o que motivou os turcos a tomar essa cidade foi sua importância econômica. Eles estavam ansiosos em tirar proveito da posição geográfica favorecida de Constantinopla. Tanto que dias depois da tomada, o sultão Maomé II firmou tratados com as repúblicas italianas, grandes articuladores do comércio no mediterrâneo e praticamente donos dos bazares da cidade, para a continuação do lucrativo comercio. Mesmo que os otomanos não dessem importância ao comércio, fechar os mercados de Constantinopla aos europeus nunca seria uma opção, pois essa cidade não era mais um centro manufatureiro. Já havia sido nos tempos em que a autoridade imperial bizantina tinha forte prestígio e as oficinas imperiais de Constantinopla podiam manter monopólios de algumas produções como a de seda, cuja qualidade e sofisticação eram admiradas e cobiçadas por boa parte do mundo. No entanto, no período anterior a tomada pelos turcos, Constantinopla havia diminuído de importância e população, suas oficinas não conseguiam mais competir com as de outras partes e a riqueza e prosperidade que restava provinha quase exclusivamente do comércio entre a Ásia e Europa. Portanto fechar seu mercado aos cristãos do Ocidente seria com certeza um suicídio econômico. Não conheço nenhum documento que diga que tal coisa tenha sido feita, mas há sim registros, como afirmei acima, que os italianos mantiveram sua presença em Constantinopla e continuaram a ser os atravessadores dos produtos exóticos orientais para as nações cristãs da Europa. O que pode ter surgido foi uma condenação moral de se comprar produtos nos mercados das cidades do Império Otomano, que, após a tomada de Constantinopla, tornaram-se os grandes inimigos da Cristandade. No entanto, os reis e a nobreza europeia apreciavam demais as sedas e especiarias do Oriente para abrir mão delas por tal imposição moral. Por isso, esses produtos continuaram a ser altamente valorizados e afluindo para Europa através dos mercados turcos.

A segunda falha refere-se às motivações que levaram os portugueses a lançarem ao mar. Quando Constantinopla caiu, os portugueses já eram veteranos na exploração marítima, pois já empreendiam missões as costas africanas há quase quatro décadas e a motivação para isso não fora só econômica. Aliás, pode se dizer que os interesses econômicos ficaram em segundo lugar, uma vez que as primeiras missões marítimas portuguesas eram empreendimentos em que a possibilidade do retorno financeiro não compensava os riscos envolvidos.  O que levou os portugueses se lançarem aos mares “nunca d’antes navegados” foi a vontade de combater muçulmanos.

"Infante D. Henrique na conquista de Ceuta". Azulejo na Estação de São Bento, Porto, por Jorge Colaço (1864-1942)

Portugal era um reino pequeno, fundado e reconhecido no século XII, tendo em torno de um terço de seu tamanho atual. Da mesma forma que os outros reinos ibéricos, Portugal foi profundamente marcado pela luta contra os muçulmanos durante a “Reconquista”, o que propiciou um vasto alargamento de seu território, mas, diferente dos seus vizinhos ibéricos, Portugal atingiu um contorno fronteiriço semelhante ao atual ainda no século XIII, após a conquista do Algarve frente aos muçulmanos. Assim, as guerras contra os islâmicos movidas pelos reis portugueses entraram num longo período de estagnação. Mais de um século depois, em 1385, sobe ao trono o rei D. João, o primeiro desse nome e da nova dinastia, Avis. Ele era um filho bastardo do rei D. Pedro e meio-irmão do rei D. Fernando, o qual sucedeu. Justamente por ser um bastardo e por não figurar na linha de sucessão, ele precisou se legitimar. Uma das medidas para atingir seus objetivos legitimatórios foi a guerra, primeiramente contra a ameaça castelhana, depois contra os mouros no norte da África, ou seja, o início da expansão portuguesa para além da Península Ibérica e a retomada da luta contra o muçulmano. Devido a esse “espírito cruzado” ainda forte em Portugal, o novo rei acreditou que uma vitória sobre os muçulmanos seria importante para ele e seus apoiadores legitimarem a nova dinastia frente a Cristandade Ocidental. No entanto, quando D. João tomou o poder não havia mais muçulmanos em Portugal há mais de um século, então decidiu-se que os portugueses deviam ir atacar os muçulmanos na África. Sendo assim, D. João planejou e realizou um ataque a cidade marroquina de Ceuta em 1415, conquistando-a. Esse assalto foi um sucesso tamanho que outros ataques e viagens foram realizados a mando desse rei e por seus sucessores à locais cada vez mais ao Sul da costa africana. As riquezas trazidas por essas expedições abriram os olhos dos portugueses em relação as potencialidades financeiras de tais viagens e a cada viagem, mirava-se cada vez mais longe. Até que, aos poucos, o aumento do conhecimento maior das técnicas de navegação oceânicas e a crescente experiência dos marinheiros portugueses em mar aberto fez surgir a possibilidade, nunca dantes pensada, de comerciar diretamente Índia sem os atravessadores turcos e italianos que tolhiam boa parte dos lucros. Aos poucos, esse se tornou o grande objetivo dessas aventuras marítimas lusitanas.

Pois bem, se essa ligação entre a queda de Bizâncio e o início da colonização do Brasil não existe, por que algum historiador brasileiro deveria dedicar-se a estudar o Império Bizantino?

Responderei isso num próximo post.

Por João Vicente

Leitura recomendada.

RUNCIMAN, Steven. 1453: A queda de Constantinopla. Tradução de Laura Rumchinsky. Imago: Rio de Janeiro. 2002.

BERTOLI, Andre Luiz. Uma leitura possível da Crônica da Tomada de Ceuta, levando em conta a Representação do Infante D. Henrique nessa obra de Zurara. Sociedade em Estudos, Curitiba, v. 2, n. 2, p. 89-102, 2007.

Anúncios

5 pensamentos sobre “Bizâncio, Brasil e as Especiarias.

  1. […] Bizâncio, Brasil e as Especiarias. Share this:TwitterFacebookGostar disso:GosteiSeja o primeiro a gostar disso. […]

  2. Glaucia disse:

    Falar do Imperio Bizântino nos livro didático é falar de uma questão vaga, porque o governo produz livro para as massas não entende o que se passou a século e isso torna facíl a manipulação das mentes desprovida de conhecimento. O sistema é tão cruel que quando a pessoa forma-se em História tem por obrigação saber de tudo. Uma das coisa mais comprada é dominar a lingua “materna” Portuguesa e essa amarra que deixa a formação de relaçlão humana seu pai. nesse País Capitalista que o que compra apenas do aluno saber ler e escrever assim esse aluno vai se tornar acritico.

  3. Pois é bem isso que ensinam e está nos livros didáticos, essa suposta ligação entre a queda de Constantinopla e o inicio das Grandes Navegações Lusitanas, me lembro de quando eu estava no colégio. Aliás os livros didáticos tem muitas outras falhas. Mas parabéns pelo blog muito bom o esclarecimento.

  4. Nossa foi bem isso que eu estudei na escola, e está escrito nos livros didáticos, essa suposta ligação entre a Queda de Constantinopla, e o início das Grandes Navegações Lusitana. A história que ensinam nas escolas, os livros didáticos tem muitas falhas. Mas é muito bom esse exclarecimento parabéns pelo blog sempre me interessei por história, e pelo Império Bizantino..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Junte-se a 97 outros seguidores

Arquivos

%d blogueiros gostam disto: