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Como surgiu o Império Bizantino? Parte III (os primeiros passos)

De uma forma geral, o Império Romano Oriental e Bizantino saiu do período das grandes invasões bárbaras relativamente ileso. O período das invasões germânicas para essa parte do Império acabou em 476. Nesse ano, o Imperador Zenão conseguiu enviar os ostrogodos, que haviam se estabelecido na Trácia, para o Ocidente.

Como surgiu o Império Bizantino? Parte I (transformações e reformas do quarto século)

Como surgiu o Império Bizantino? Parte II (a ascensão do Cristianismo)

Apesar de algumas invasões danosas nas suas províncias balcânicas, o Império do Oriente não havia perdido nenhuma milha de território para os reinos germânicos. Isso se deve a situação econômica altamente superior e a coesão territorial e política que o Império Romano Oriental conseguiu manter, enquanto o Ocidental empobrecia, desgastava-se em divisões políticas e perdia controle de suas províncias para uma elite fundiária que tirava os camponeses do alcance do fisco imperial.

Imperador Anastasio (491-518) retratado no chamado “Diptico de Barberini”

Com o fim das grandes invasões, o Império Bizantino pode se dedicar a reformas necessárias. O imperador Anastácio (491-518) reformou o sistema monetário bizantino e criou uma moeda de bronze para transações cotidianas com valor estável, o follis. Pondo o fim, desse modo, com círculo vicioso de inflação galopante que já durava séculos.

O exército bizantino passou a depender menos de mercenários estrangeiros e suas forças adquirem um caráter mais nativo com a absorção das tropas pessoais da elite fundiária conhecidos como bucelarii, os comedores de biscoito. No entanto, a mudança mais marcante foi a volta da importância da capital imperial.

Desde o século III, a instituição imperial estava desapegada a Roma. Com as guerras civis e invasões estrangeiras, o centro do Império passou a ser o local onde o imperador estava. A refundação da antiga colonia grega de Bizâncio com o nome  Constantinopla por Constantino I, em 337, não mudou automaticamente essa situação. Os imperadores das dinastias constantiniana (305-363), valentiniana (364-392) continuaram a habitar outros lugares e Constantinopla tinha de competir com centros urbanos tradicionais, como Alexandria e Antioquia.

A partir do século IV, os imperadores da parte oriental do Império passaram a  se fixar mais fortemente em Constantinopla, até que gradativamente firmou a ideia – que perdurou até 1453 – de que o imperador romano era aquele que estava sentado no trono de Constantinopla. Por essa ligação com a cidade, a antiga Bizâncio, que a parte oriental do Império Romano passou a ser conhecida depois de sua queda como Império Bizantino.

As últimas grandes reformas institucionais que marcaram essa nova fase foram realizadas pelo famoso imperador Justiniano (527-565). Entretanto, devido sua fama, esse imperador merece uma entrada só para si.

Por João Vicente

  Leituras recomendadas:

RICHE, Pierre. As invasões bárbaras, Lisboa, Ed Europa-América, 1979.

TREADGOLD, Warren. Uma breve história de Bizâncio, Buenos Aires, Paidos Editora, 2001.

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Como surgiu o Império Bizantino? Parte II (A ascensão do Cristianismo)

Um dos grandes momentos de inflexão da História da Humanidade foi a visão de Constantino na batalha de Monte Mivio, em 312, onde, segundo relatos, ele teve a visão de uma cruz e a frase “Sobre este símbolo vences”(Ad hoc signus vinces).

Como surgiu o Império Bizantino? Parte I (transformações e reformas do quarto século)

Como surgiu o Império Bizantino? Parte III (os primeiros passos)

Verdade ou não, a decisão de Constantino de proteger o Cristianismo mudou os rumos da História do Império e, por conseqüência, do mundo. Contudo, antes de nos debruçarmos nas razões de Constantino abraçar o Cristianismo seria interessante entender o trajeto que essa religião traçou para assim compreender porque o imperador decidiu adotá-la, senão entender os benefícios que essa ação poderia ter resultado.

O deus Solis Invictus

Como pontuou Peter Brown, em “O Fim do Mundo Clássico”, o cenário político do Império do século III criou a necessidade de uma explicação universalista do mundo, os antigos deuses olímpicos adaptados as necessidades da “poleis” clássica não saciavam mais as necessidades espirituais do mundo romano.

O mundo não era mais uma comunidade de cidades governadas por uma só, Roma, mas uma unidade política isonômica, onde todos os habitantes pagavam os mesmos impostos e viviam sob a mesma lei.

Estabeleceu-se uma situação em que ao olharem para o lado todos eram iguais, mas ao olhar acima estava o imperador, que não era mais um magistrado tentando justificar seu poder extraordinário afirmando que era um cidadão como qualquer outro, mas uma entidade distante, opressora e cada dia mais sagrada, que se relacionava com seus súditos através de um leviatã burocrático formado por um enorme corpo de funcionários, que trabalhavam incessantemente para retirar o máximo da riqueza de todas as províncias quanto fosse possível.

Palácio que o imperador Diocleciano (286-305) construiu para ser a sede de seu regime burocrático em Salona (atual Split)

Assim, muito antes da “conversão” de Constantino, cultos secretos vindos do Oriente tornavam-se cada vez mais populares em todas as camadas sociais do Império Romano. Eram religiões que colocavam um deus numa posição superior a todos os outros deuses, como o culto de Isis ou de Mitras.

Os filósofos neo-platônicos, como Plotino, explicavam que os deuses olímpicos eram “emanações” de um mesmo ser sagrado superior e perfeito conhecido entre eles como o “Uno”. Portanto, o Cristianismo encontrou, no Império, um solo altamente produtivo para crescer e frutificar.

No entanto, no momento da conversão de Constantino essa religião não era uma religião de maioria, mas era uma religião importante e presente nas principais e maiores cidades do Império.

Num primeiro momento, ela foi muito profícua em meio da próspera camada comercial das cidades romanas, principalmente as localizadas nas províncias orientais. Isso não é de se suspeitar, afinal essas pessoas foram os primeiro a viver a “universalidade” resultante da consolidação do domínio romano.

Eram os comerciantes que viajavam pelo “mare nostrum” e pelas inúmeras estradas abastecendo as elites romanas e romanizadas locais com produtos exóticos de toda a parte do Império e além.

Mural de igreja com a representação de Cristo mais antiga conhecida (c. 235)

Sendo assim, o Cristianismo forneceu a essas pessoas uma rede comunitária presente nas principais cidades romanas, onde eles sempre poderiam encontrar apoio e ajuda.

No início do século IV, o Cristianismo, assim como os cultos secretos orientais e o neo-platonismo eram igualmente populares, aí então que Constantino I sai vencedor das guerras civis, reunifica o Império sobre seu comando e adota o Cristianismo.

Já houve a explicação que a conversão de Constantino foi um ato de puro interesse político, mas essa teoria é altamente questionável, afinal, apesar de ser uma religião de certa importância nos ambientes urbanos do Império, de longe era uma religião majoritária e a dedicação desse imperador pelas questões teológicas demonstra um interesse sincero.

No entanto, não se pode negar que Constantino e seus sucessores viram alguma utilidade em associar o poder imperial com essa religião, senão a conversão de Constantino não passaria de um evento se importância e não seguida por seus sucessores.

Peter Brown acredita que ao dar o espaço que deu ao Cristianismo, Constantino pretendia associar-se com as elites urbanas que haviam sido oprimidas e espoliadas no regime burocrático formado por pessoas de origem humilde e rural instaurado por Diocleciano.

Por isso, Constantino deixou-se cercar por bispos, que eram importantes lideranças urbanas, pois tinham multidões de apoiadores formados por fieis e pessoas sustentadas pelas obras caritativas relacionadas às Igrejas.

Representação bizantina de Concílio de Nicéia (325): Constantino entre seus bispos

Já Michel Rouche, em “os impérios universais”, indo na necessidade de uma explicação universalista do mundo, acredita que a conversão auxiliou a criar uma base religiosa que seus súditos poderiam se identificar, ao contrário do culto solar patrocinado por alguns de seus antecessores, considerado artificial por esse autor.

Seja como for, seus sucessores deram continuidade a esse processo de associação entre Igreja e Império liderando concílios ecumênicos, tomando parte em discussões teológicas, anexando a igreja a administração imperial, construindo templos etc.

Ainda que o Cristianismo tenha dado a coesão ideológica que o poder imperial estava há séculos procurando, isso não foi o suficiente para que o Império, em sua parte Ocidental, resistisse a processos econômicos e sociais que lhe ruíam suas bases.

O aumento do poder dos grandes proprietários tirava a maior parte dos habitantes do campo do alcance do fisco. O exército cada dia mais repleto de soldados e oficiais “bárbaros” tornava-se gradualmente de uma força de defesa para uma presença invasora estrangeira.

A inabilidade do governo imperial que, ao tentar a qualquer custo manter o status quo econômico e social, congelou preços, salários e mesmo pessoas em suas profissões, essas ações inflacionaram a moeda, empobreceram os trabalhadores, enriqueceram os grandes proprietários e por fim, destruíram o estrato médio de artesões e comerciantes que eram as bases da vida urbana clássica.

Criaram-se, assim, os elementos históricos que vão resultar no nascimento da civilização rural da Idade Média.

Na próxima entrada, irei tratar dos primeiros desenvolvimentos daquilo que se convencionou chamar de “Império Bizantino”.

Por João Vicente

 Leituras recomendadas:

BROWN, Peter. O fim do mundo clássico, Lisboa, Verbo, 1972.

ROUCHE, Michel. Os impérios universais, Alfragide-Portugal, Ed. Dom Quixote, 1980.

RICHE, Pierre. As invasões bárbaras, Lisboa, Ed Europa-América, 1979. 

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