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Estudo “REGIME DE THEMATA” EM BIZÂNCIO: ECONOMIA AGRÁRIA, SOCIEDADE E MILITARIZAÇÃO

Caros leitores,

No post “acadêmico” de hoje publicaremos parte de um projeto de pesquisa desenvolvido entre os anos de 2003 e 2004.  

Título: O “REGIME DE THEMATA” EM BIZÂNCIO: ECONOMIA AGRÁRIA,SOCIEDADE E MILITARIZAÇÃO

Autor: Rafael Mansano Dalbon, Prof. Dr. Celso Taveira (orientador)

Tipo de trabalho:   Esse estudo faz parte do Projeto: “Política, religião direito e ideologia na Idade Média”, desenvolvido com financiamento da Cnpq (PIBIC/CNPq/UFOP) no período de 01/08/2003 a 31/07/2004

Resumo: Baseados nas afirmações dos bizantinistas George Ostrogorsky e Paul Lemerle, os autores buscam as origens do “regime de themata” e dos “soldados-camponeses”, sobre os quais o Império Bizantino reestruturou-se administrativa e militarmente a partir do século VIII (resumo composto pelo site Bizantinística)

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A coleção bizantina do Metropolitan Museum (Nova Iorque) – parte I

No ultimo Natal estive em Nova Iorque, Estados Unidos e tive a oportunidade de visitar no Metropolitan Museum of New York, ou simplesmente o Met.

O Met foi o único dos grandes museus do mundo (aqui se inclui o Louvre, Hermitage ou do Prado) que visitei pessoalmente. (Já é possível visitá-los virtualmente graças uma das novidades da Google Inc). Enfim, passei duas tardes nesse museu e não tive tempo de ver ele inteiro, nem mesmo pude ver as coisas que mais me interessariam. No entanto, dediquei uma boa parcela de tempo no setor bizantino. Apesar de que as peças em exibição represente uma pequena parte da coleção bizantina do Met, exposto há uns anos atrás na exibição The Glory of Byzantium, os objetos que ali estavam já foram o suficiente para me impressionar.

A coleção bizantina do Metropolitan Museum (Nova Iorque) – parte II

A coleção bizantina do Metropolitan Museum (Nova Iorque) – parte III

Sendo assim, publicarei, nessa entrada e em algumas outras, as peças que, em minha opinião, são as mais significativas. Aproveito para pedir perdão pela pouca qualidade das minhas fotos. Elas foram feitas numa câmera que é longe de ser uma profissional, com vidros protetores, que muitas vezes faziam reflexo, e disputando espaço com centenas ou milhares de outros turistas.

Lecionário Bizantino. Escrito e iluminado em Constantinopla em aprox. 1100. Feito com tempera, ouro, tinta e pergaminho. Encapamento de couro.

A primeira peça que destaco é um lecionário feito em aproximadamente 1100, em Constantinopla. Provavelmente encomendado pelo Patriarcado em Santa Sofia, esse lecionário, uma reorganização dos Evangelhos conforme as liturgias diárias, é um belíssimo representante da arte – extremamente valorizada pelos bizantinos – de se fabricar livros. A caligrafia, os desenhos e até o encapamento eram trabalho feitos com enorme preciosismo, transformando o livro numa parte importante de um patrimônio pessoal ou eclesiástico.

Imagem de Mateus Evangelista, destacada do Lecionário.

Nesse livro destaca-se a imagem do evangelista Mateus escrevendo numa escrivaninha com um fundo urbano e a mão de Deus acima, abençoando-o. Essa cena de evangelistas, santos ou importantes figuras públicas ou literárias no ato da escrita ou da leitura individual é recorrente na iconografia bizantina, o que demonstra que tal prática (da leitura individual), ao contrário da Cristandade Feudal, era bastante comum. Tal constatação é importante para aqueles que se dedicam ao estudo da literatura bizantina.

Placa de bronze bizantina retratando São Jorge e São Teodoro em trajes militares.

Ícone de marfim com São Demétrio. Feito entre 950-1000.

As próximas imagens (as representações de São Teodoro, São George e São Demetrio) são resquícios de uma interessante prática, surgida no século IX, de representar santos de histórico militar com trajes do alto oficialato do exército bizantino. O aparecimento dessas imagens é profundamente ligado ao surgimento de famílias aristocráticas com raízes nas províncias orientais do Império, que, na luta contra os muçulmanos, adquiram uma forte identidade militar e gradativamente foram monopolizando os cargos mais altos da hierarquia do exército.

Vasilha bizantina de terracota com Guepardo feita entre 1000 e 1300.

Continuando com as peças ligadas a essa aristocracia emergente, observamos esse prato com um guepardo representado. Os membros da aristocracia bizantina, incluindo imperadores, tinham na caça a sua principal forma de lazer e essa era realizada com ajuda de cães, falcões e guepardos treinados.

Painel de mármore com Grifo. Esculpido na Grécia ou nos Balcãs entre 1250 e 1300.

Fechamos entrada de hoje com uma bela representação em mármore de um grifo do século XIII. Os grifos eram animais vindos da mitologia pagã e protetores da realeza e dos mortos. Mesmo com o fim do paganismo, ele continuou a ser adotado por todo o mundo mediterrâneo. Segundo uma lenda bizantina, um grifo levou Alexandre Magno para o alto dos céus, para que desse modo ele pudesse ver todos os seus domínios, sendo assim ele continuou aparecendo tumbas aristocráticas bizantinas.

Em outras entradas, irei postar mais fotos que tirei da galeria bizantina no MetMuseum.

 Por João Vicente

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Entre solidificação cósmica e a transformação social ou o Império Bizantino realmente existiu?

Alguns podem ser chocar com essa afirmação, mas nunca, em nenhum momento da História, existiu um lugar chamado “Império Bizantino”. Ponto!

Explico-me. O Império que chamamos de “bizantino”, nunca, no período de sua existência, se autonomeou dessa forma. Bizâncio foi uma cidade fundada por colonos provindos da cidade grega de Mégara, em 667 a.C e ganhou esse nome devido ao líder dos colonos, que chamava-se Byzas. Bizâncio, então, prosperou comercialmente devido sua posição geográfica favorecida, porém nunca foi um grande centro urbano na Antiguidade até que Constantino I (306-337) decidiu estabelecer ali uma nova capital do Império Romano e rebatiza-la como “Constantinopolis”, a “cidade de Constantino”. A partir daí o nome “Bizâncio” gradualmente caí em desuso e passa a ser utilizado por alguns autores que pretendiam dar um ar de arcaísmo em seu texto. Os termos mais utilizados era “Constantinopolin”, “He Basileousa” (a Imperial) ou “Nea Rome” (Nova Roma). Da mesma forma, os habitantes dessa cidade e do Império em geral nunca se chamaram de bizantinos, mas sempre de “romaioi” ou romanos. Porque se chamariam de outra coisa? Seu Império (por eles comumente chamado de “Romania”, a terra dos romanos) era a continuadora da instituição imperial fundada por Augusto em muitos aspectos. A linha de sucessão imperial se manteve intacta desde esse primeiro imperador até, pelo menos, 1204, quando a Quarta Cruzada toma Constantinopla e lá estabelece uma linhagem imperial de origem francesa. Paralelamente, outras três tradições imperiais gregas surgem em pontos independentes do Império: no Épiro, em Trebizonda e em Nicéia. Sendo que a última sairá como grande vencedora ao tomar Constantinopla dos francos em 1261.

Augusto (27 a.C-14 d.C) e Basílio II (976-1025): dois imperadores dos romanos, mas que romanos são esses?

Além da linhagem imperial, uma série de outras instituições bizantinas remontava diretamente do Império, República e muitas vezes da Monarquia Romana: o Senado, a Justiça, o Exército, a burocracia etc. Um bom exemplo são exércitos das themata, sobre as quais a administração provincial bizantina se reformou a partir do século VII. Elas têm suas origens nas antigas legiões romanas acampadas nas províncias orientais do Império e que se refugiaram na Anatólia depois da grande expansão muçulmana posterior a morte de Maomé, nos séculos VII e VIII.

Obviamente nem todos viam os bizantinos dessa forma, principalmente os Ocidentais, que, tendo refundado seu próprio Império Romano, com a coroação de Carlos Magno, no natal do ano de 800, passaram a se recusar a dar o título de “imperador dos romanos” àquele sentado no trono de Constantinopla. Eles preferiam chamá-lo de “imperador dos gregos”, uma ofensa aos brios bizantinos. Um diplomata do imperador ocidental passou um tempo na masmorra por se dirigir ao imperador Nicéforo Focas (963-969) dessa forma.

Alguns apontam na transformação da identidade “romaioi” para uma proto-nacionalidade grega no período dos imperadores Paleólogos (1261-1453). Eu sou cético. Essa afirmação é quase inteiramente baseada nos trabalhos do humanista bizantino Gemisto Pleton (1355–1452/1454) que advogava a volta dos deuses olímpicos e chamava os bizantinos de “helenos”. Não acredito que os bizantinos de seu tempo pensassem como ele e há evidências bem claras que essa a identidade romana perdurou até os últimos dias do Império e Além. A população de religião ortodoxa e idioma grego continuaram a se chamar de romanos sob o domínio otomano. Isso só mudou quando o nacionalismo ocidental foi adotado pelos herdeiros de Bizâncio, no início do século XIX, que, por isso, passaram a idealizar o passado da antiguidade grega como um precursor do ideário liberal, e o legado bizantino, por isso, foi deixado em segundo plano.

Retrato de renascentista de Gemisto Pleton (1355-1452)

Para concluir, há que se pontuar que essa continuidade institucional e retórica romana existente no Império Bizantino era parte de um discurso que tinha duas pretensões: (1) manter o prestígio bizantino no universo medieval e (2) principalmente estabelecer quase forçadamente um ideal de permanência cósmica, a taxeis, que era o centro da concepção de mundo bizantina. Portanto, esse discurso escondeu importantes forças de mudanças sociais e culturais existentes na sociedade bizantina. Por durante um bom tempo, historiadores foram enganados por essa retórica. Devido as diferenças, principalmente estéticas, entre esse ideal bizantino do que era romano e a imagem que esses historiadores tinham da Roma Clássica, concluiu-se que o Império Bizantino era somente uma versão corrompida do Império Romano de Augusto, Trajano e Marco Aurelio e foi somente nos últimos cem anos que a historiografia passou a perceber a existência de um universo complexo, cambiante e completamente diverso debaixo dessa imagem estática que os próprios bizantinos criaram para si mesmos. É o que explica a utilização do termo “bizantino” até hoje. Cunhado para qualificar o Império Romano Medieval como uma versão decadente de sua fase clássica, hoje ele é necessário para compreender sua coerência e a singularidade histórica.

Leituras recomendadas:

ANGOLD, Michael. Bizâncio: A ponte da Antiguidade para Idade Média. Rio de Janeiro: Imago. 2002.

KAZHDAN, A & CONSTABLE, G. People and Power in Byzantium. Washington: Dumbarton Oaks. 1982

Por João Vicente

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Bizâncio, Brasil e as Especiarias.

Durante muito tempo, o pouco que havia sido ensinado nas escolas brasileiras sobre Bizâncio era uma suposta ligação entre a Queda de Constantinopla aos turcos otomanos, em 1453, e o início das Grandes Navegações Lusitanas, que resultaram no “achamento” do Brasil em 1500. Segundo essas explicações, ao tomarem Constantinopla, os otomanos fecharam os mercados dessa cidade, que sempre foi uma ligação mercantil e cultural com entre Europa e Ásia, aos mercadores cristãos. Portanto, querendo estabelecer uma nova rota de acesso aos produtos exóticos do Oriente, os portugueses lançaram-se ao mar em direção às Índias e uma dessas missões, liderada por Pedro Álvares Cabral, aportou na nossa costa.

"Cerco a Constantinopla" pintado em 1499.

Essa explicação tem muitas falhas. Primeiro, os Otomanos não eram estúpidos. Além da importância simbólica de Constantinopla, por ser um grande centro cristão, o que motivou os turcos a tomar essa cidade foi sua importância econômica. Eles estavam ansiosos em tirar proveito da posição geográfica favorecida de Constantinopla. Tanto que dias depois da tomada, o sultão Maomé II firmou tratados com as repúblicas italianas, grandes articuladores do comércio no mediterrâneo e praticamente donos dos bazares da cidade, para a continuação do lucrativo comercio. Mesmo que os otomanos não dessem importância ao comércio, fechar os mercados de Constantinopla aos europeus nunca seria uma opção, pois essa cidade não era mais um centro manufatureiro. Já havia sido nos tempos em que a autoridade imperial bizantina tinha forte prestígio e as oficinas imperiais de Constantinopla podiam manter monopólios de algumas produções como a de seda, cuja qualidade e sofisticação eram admiradas e cobiçadas por boa parte do mundo. No entanto, no período anterior a tomada pelos turcos, Constantinopla havia diminuído de importância e população, suas oficinas não conseguiam mais competir com as de outras partes e a riqueza e prosperidade que restava provinha quase exclusivamente do comércio entre a Ásia e Europa. Portanto fechar seu mercado aos cristãos do Ocidente seria com certeza um suicídio econômico. Não conheço nenhum documento que diga que tal coisa tenha sido feita, mas há sim registros, como afirmei acima, que os italianos mantiveram sua presença em Constantinopla e continuaram a ser os atravessadores dos produtos exóticos orientais para as nações cristãs da Europa. O que pode ter surgido foi uma condenação moral de se comprar produtos nos mercados das cidades do Império Otomano, que, após a tomada de Constantinopla, tornaram-se os grandes inimigos da Cristandade. No entanto, os reis e a nobreza europeia apreciavam demais as sedas e especiarias do Oriente para abrir mão delas por tal imposição moral. Por isso, esses produtos continuaram a ser altamente valorizados e afluindo para Europa através dos mercados turcos.

A segunda falha refere-se às motivações que levaram os portugueses a lançarem ao mar. Quando Constantinopla caiu, os portugueses já eram veteranos na exploração marítima, pois já empreendiam missões as costas africanas há quase quatro décadas e a motivação para isso não fora só econômica. Aliás, pode se dizer que os interesses econômicos ficaram em segundo lugar, uma vez que as primeiras missões marítimas portuguesas eram empreendimentos em que a possibilidade do retorno financeiro não compensava os riscos envolvidos.  O que levou os portugueses se lançarem aos mares “nunca d’antes navegados” foi a vontade de combater muçulmanos.

"Infante D. Henrique na conquista de Ceuta". Azulejo na Estação de São Bento, Porto, por Jorge Colaço (1864-1942)

Portugal era um reino pequeno, fundado e reconhecido no século XII, tendo em torno de um terço de seu tamanho atual. Da mesma forma que os outros reinos ibéricos, Portugal foi profundamente marcado pela luta contra os muçulmanos durante a “Reconquista”, o que propiciou um vasto alargamento de seu território, mas, diferente dos seus vizinhos ibéricos, Portugal atingiu um contorno fronteiriço semelhante ao atual ainda no século XIII, após a conquista do Algarve frente aos muçulmanos. Assim, as guerras contra os islâmicos movidas pelos reis portugueses entraram num longo período de estagnação. Mais de um século depois, em 1385, sobe ao trono o rei D. João, o primeiro desse nome e da nova dinastia, Avis. Ele era um filho bastardo do rei D. Pedro e meio-irmão do rei D. Fernando, o qual sucedeu. Justamente por ser um bastardo e por não figurar na linha de sucessão, ele precisou se legitimar. Uma das medidas para atingir seus objetivos legitimatórios foi a guerra, primeiramente contra a ameaça castelhana, depois contra os mouros no norte da África, ou seja, o início da expansão portuguesa para além da Península Ibérica e a retomada da luta contra o muçulmano. Devido a esse “espírito cruzado” ainda forte em Portugal, o novo rei acreditou que uma vitória sobre os muçulmanos seria importante para ele e seus apoiadores legitimarem a nova dinastia frente a Cristandade Ocidental. No entanto, quando D. João tomou o poder não havia mais muçulmanos em Portugal há mais de um século, então decidiu-se que os portugueses deviam ir atacar os muçulmanos na África. Sendo assim, D. João planejou e realizou um ataque a cidade marroquina de Ceuta em 1415, conquistando-a. Esse assalto foi um sucesso tamanho que outros ataques e viagens foram realizados a mando desse rei e por seus sucessores à locais cada vez mais ao Sul da costa africana. As riquezas trazidas por essas expedições abriram os olhos dos portugueses em relação as potencialidades financeiras de tais viagens e a cada viagem, mirava-se cada vez mais longe. Até que, aos poucos, o aumento do conhecimento maior das técnicas de navegação oceânicas e a crescente experiência dos marinheiros portugueses em mar aberto fez surgir a possibilidade, nunca dantes pensada, de comerciar diretamente Índia sem os atravessadores turcos e italianos que tolhiam boa parte dos lucros. Aos poucos, esse se tornou o grande objetivo dessas aventuras marítimas lusitanas.

Pois bem, se essa ligação entre a queda de Bizâncio e o início da colonização do Brasil não existe, por que algum historiador brasileiro deveria dedicar-se a estudar o Império Bizantino?

Responderei isso num próximo post.

Por João Vicente

Leitura recomendada.

RUNCIMAN, Steven. 1453: A queda de Constantinopla. Tradução de Laura Rumchinsky. Imago: Rio de Janeiro. 2002.

BERTOLI, Andre Luiz. Uma leitura possível da Crônica da Tomada de Ceuta, levando em conta a Representação do Infante D. Henrique nessa obra de Zurara. Sociedade em Estudos, Curitiba, v. 2, n. 2, p. 89-102, 2007.

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Bem-vindos ao Bizantinística.

Sejam bem-vindos ao que provavelmente é o primeiro site sobre o Império Bizantino em Língua Portuguesa.

O Império Bizantino foi uma unidade política única na História da Humanidade.  Bastião da civilização clássica no conturbado, brutal e brilhante milênio que ficou conhecido como Idade Média, era um império romano, grego e cristão. No entanto, Bizâncio é ainda um grande desconhecido no Brasil, mesmo em ambientes acadêmicos poucos são aqueles que dedicam a estudar sua História, Literatura ou Arte. Portanto, esse site apresenta-se como uma tentativa de agregar todos aqueles que querem se aprofundar e discutir o legado dessa civilização.

Por João Vicente

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