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O Islã, o Imperador e o Papa.

Uma das figuras mais mal compreendidas no cenário internacional, por isso, uma das mais controvertidas e criticadas, é o Papa Bento XVI. Apelidado de “Rotweiller de Deus”, taxado de nazista e sempre comparado com seu popular e midiático antecessor, o atual Bispo de Roma com certeza não é muito popular. Em seus cinco anos de papado, suas ações e palavras foram criticadas pela imprensa e por outras religiões, por isso, ele é considerado um inábil líder e um desastre em “relações públicas”. Principalmente agora, com a atual crise relacionada às várias acusações de pedofilia que atingem padres e paróquias por todo o globo.  Enfim, essa é a imagem que surge na superfície da personalidade deste Bento XVI e seu reinado, mas tal visão está fadada a não perceber o projeto concreto que ele defende e que cada ação e palavra do Papa não é de forma nenhuma uma iniciativa mal pensada, mas coerente com esse projeto.

Para melhor entender essa forma de agir, na maior parte das vezes não compreendida pela imprensa e público geral, será necessário analisar um desses casos que foi considerado um “desastre de relações públicas”: a Aula Magna ministrada por Bento XVI na Universidade de Regensburg, Alemanha, no dia 12 de Setembro de 2006. Nessa data, o Papa, sentindo-se a vontade no meio acadêmico alemão de onde proveio, fez uma leitura em que ele analisa o caráter e a missão da instituição universitária, como difusora da razão, como também o caráter racional do Deus Cristão. Assim, para criar um contraponto à racionalidade cristã, Bento XVI utiliza como ponto inicial de sua dissertação o discurso do imperador bizantino Manuel II Paleólogos (1391-1425) onde ele diz ao seu interlocutor, que é um sábio persa, o seguinte: “Mostra-me também o que Maomé trouxe de novo, e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como a sua ordem de difundir através da espada a fé que ele pregava”. Mais a frente, o imperador justifica sua afirmação dizendo que Deus não se apraz com o sangue diz ele não agir segundo a razão ‘σὺν λόγω”. A partir daí, Bento XVI construiu sua argumentação teológica que, na verdade pouco tem a ver com a fé muçulmana, mas sim com a fé cristã, sua racionalidade e seu papel formador da identidade européia. Inicialmente esse discurso era para ser somente um evento acadêmico sem maiores repercussões, mas transformou-se numa polêmica global. Nos dias seguintes, os noticiários e jornais estavam cheios de imagens de muçulmanos irados protestando e incinerando “bonecos de Judas” retratando o Papa e “vaticanistas” criticando a falta de tato de Bento XVI. Enquanto isso, o Papa evitava os olhos públicos e enviava notas, através de porta-vozes, lamentando-se que sua comunicação tenha causado tantos transtornos e afirmava respeitava a Fé Islâmica. Porém, com uma leitura mais aprofundada desse evento e suas consequências, compreenderemos o real caráter do programa desse papado e que o Papa queria ao publicar uma critica tão contundente ao último profeta do Islã, mesmo que essa crítica não seja dele. Para isso temos entender cada um dos personagens dessa polêmica: o Islã, o Imperador e o Papa.

O Islã

Enquanto, na Idade Media, a Europa Cristã tentava se reorganizar depois da queda do Império Romano, recriando núcleos de pensamento fragmentados em monastérios que lentamente copiavam obras da antiguidade e começavam uma produção intelectual de base cristã, o Islã já tinha um ambiente intelectual e científico dinâmico, diversificado e que se dialogava intensamente devido a universalidade do idioma árabe. Na Espanha, filósofos persas polemizavam com autores egípcios, que contestavam doutrinas sírias e todos liam traduções da obra de Aristóteles, para assim racionalizar a revelação profética e nômade de Maomé. No entanto, na mesma velocidade que o mundo intelectual cristão se dinamizava e enriquecia em qualidade e quantidade com a criação das primeiras Universidades, em Bolonha e Paris, a partir do século XI, o mundo muçulmano se fragmentava politicamente e sofria com a chegada continua de invasores nômades do Oriente. Turcos primeiro e depois os mongóis. Resultando, assim, numa gradativa decadência desse rico universo intelectual muçulmano. Uma nova unidade política muçulmana foi conquistada pelo Império Otomano, mas isso não evitou que decadência da produção intelectual muçulmana universal continuasse. Hoje em dia, encontramos um Islã politicamente despedaçado, economicamente atrasado e com a boa parte de seus fieis vivendo em profunda pobreza. Terreno muito pouco fecundo para a existência de um universo intelectual dinâmico e de alto nível como existiu nos primeiros séculos do Islã, mas bastante fértil para discursos simplistas de extremistas que culpam todos os infortúnios que os Islã está passando à elementos externos, em especial ao laicização do mundo ocidental. Portanto, a revolta de parte do mundo muçulmano ao discurso de Bento XVI era previsível, em especial para o próprio Bento XVI.

Manuscrito islâmico do século XIII retratando Sócrates e seus pupilos

O Imperador.

O Império Romano do Oriente – ou Império Bizantino, como nós o conhecemos hoje em dia – foi o estado mais rico e mais prestigioso de Europa até o final do século XII, quando uma série de guerras civis e por fim o saque a Constantinopla, a capital imperial, pelas forças da Quarta Cruzada, em 1204, tenha iniciado um processo de decadência política que somente terminaria quando os turcos otomanos tomassem essa cidade em 1453. Portanto, a Bizâncio da época de Manuel II Paleologos, que reinou entre 1391 a 1425, era uma sombra de suas antigas glorias. Seu território era limitado a Constantinopla e algumas poucas cidades ilhadas em meio do crescente Império Otomano. Suas forças de defesa eram praticamente limitadas a algumas tropas mercenárias que mais causavam problemas do que resolviam. Constantinopla, que havia sido a maior e mais importante cidade do mundo por século, havia perdido seu brilho. O comercio todo estava na mão dos italianos, as antigas construções e igrejas estavam em ruínas e a população como um todo havia diminuído significativamente e os que restavam estavam divididos em encarniçadas disputas teológicas. As narrações da época apresentam Constantinopla como uma cidade formada por várias cidades, pois os bairros se tornaram distritos murados separados por áreas ruralizadas, onde ovelhas pastavam em meio de forae abandonados. Por outro lado, talvez para demonstrar a superioridade bizantina que seus exércitos e sua economia não poderia mais mostrar, esse período é marcado por uma grande e brilhante produção intelectual e artística. O imperador Manuel II Paleologos foi parte desse “renascimento” bizantino. Ele foi um profícuo autor de cartas, epitáfios, obras teológicas e filosóficas. Foi também um hábil estadista, conseguiu, com os parcos recursos que tinha, dar último suspiro de prestígio ao desgastado Império Bizantino. No entanto, pouco ele pode fazer, pois ao se tornar imperador, Bizâncio era pouco mais de um protetorado otomano. Tanto que o discurso citado pelo Papa supostamente aconteceu durante um dos períodos que o imperador foi obrigado passar na corte do Sultão Bayezid (1389-1402) para prestar-lhe homenagem e dar ajuda militar. Em um pitoresco evento, acompanhado de um rico séquito, Manuel II viajou pela Europa para pedir ajuda contra os turcos aos reis cristãos. Em todo o lugar que passava o imperador surpreendeu as cortes reais e os humanistas renascentistas pela sua erudição, inteligência e conhecimento do grego clássico, ao mesmo tempo em que despertava compaixão quando lembravam a razão de ele estar viajando. Então, reforçar a superioridade intelectual do Cristianismo sobre o Islamismo, Manuel II apontou a única face de sua civilização que a invasão turca não poderia ser tomada pelos turcos.

O Papa

Último personagem da polêmica é o Papa Bento XVI, que, até sua nomeação para o trono papal, era um desconhecido para a maioria das pessoas. Alguns poucos, no Brasil, o conheciam por presidir a Congregação da Doutrina e da Fé, a instituição descendente da afamada Inquisição e que conduziu o processo disciplinar do teólogo brasileiro Leonardo Boff, onde ele foi “condenado” e expulso dos quadros sacerdotais da Igreja. Por esse cargo, muitos o taxaram de “ultra-conservador”, “Rotweiller de Deus” e até mesmo de nazista. Porém, a maior parte das pessoas ignora que Joseph Ratzinger é um dos mais famosos intelectuais vivos. Manteve discussões profundas com outros brilhantes pensadores contemporâneos, como Jürgen Habermas. Ratzinger criticou como professor, e critica agora como Papa, o que ele chama de “ditadura relativismo” cultural e por isso, defende superioridade intelectual e a racionalidade do pensamento católico. Ele defende também a ideia da base cristã da identidade europeia, por isso é contrário à entrada da Turquia na União Européia. Desse modo, entendemos as diferenças entre o papado de João Paulo II e Bento XVI: João Paulo II era midiático, político e agregador. Já Bento XVI é diferente, ele acredita numa Igreja mais coerente, mesmo que menor, não abrindo mão de seus dogmas para agradar gregos e troianos. Do mesmo modo, Bento XVI defende a superioridade da Igreja sobre todos os outros credos, mesmo dizendo que os respeitam.

Voltando ao evento que abriu essa entrada. Dessa forma nos perguntamos: Será que o Papa, ao citar o dizer daquele imperador, sabia exatamente a reação que haveria, assim queria expor exatamente aquilo que o imperador bizantino Manuel II queria mostrar, isto é, a “irracionalidade” do Islã e para isso provar a superioridade intelectual da Igreja a qual preside? Não é muito conveniente que esse discurso tenha sido feito um ano depois de outra polêmica envolvendo um jornalista dinamarquês que foi ameaçado de morte por extremistas islâmicos por fazer um cartoon retratando Maomé? Bem, se essa era a proposta do Papa, pode dizer-se que ele conseguiu, pois os jornais das semanas seguintes estavam recheados de fotos estereotípicas de vociferantes homens com turbantes portando fuzis e queimando bonecos do papa.

Leitura recomendada.

RUNCIMAN, Steven. 1453: A queda de Constantinopla, Tradução de Laura Rumchinsky, Rio de Janeiro, Imago, 2002.

HOURANI, Albert. Uma História dos Povos Árabes, São Paulo, Companhia do Bolso, 2006.   

“Fé, razão e universidade. Recordações e reflexões”: A leitura do Papa Bento XVI na Universidade de Regensburg.


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Artigo “LA CONSTRUCCIÓN DE LOS DOS PALACIOS: LA COMPOSICIÓN DEL POEMA DE DIYENÍS ACRITA Y LA REIVINDICACIÓN DE LA HEGEMONÍA ANATÓLICA DE ALEJO COMNENO”

Caros leitores,

O trabalho da entrada “acadêmica” de hoje é um artigo de minha autoria e fruto de meu trabalho de Dissertação de Mestrado publicado na tradicional revista espanhola Erytheia, da sociedade hispano-helenica. Nele eu exponho a principal parte da minha argumentação, onde apresento os principais pontos que ligam a figura do imperador Aleixo I Comneno (1081-1118) e o personagem épico bizantino Digenis Akritas.

Título: LA CONSTRUCCIÓN DE LOS DOS PALACIOS: LA COMPOSICIÓN DEL POEMA DE DIYENÍS ACRITA Y LA REIVINDICACIÓN DE LA HEGEMONÍA ANATÓLICA DE ALEJO COMNENO

Autor: João Vicente de Medeiros Publio Dias

Tipo de trabalho: artigo publicado na revista Erytheia da Associação Hispano-Helênica, número 31, ano 2010, páginas 55-73

Resumo: 

La llegada de la facción de los Comnenos-Ducas al trono imperial con la coronación de Alejo Comneno en 1081 representó un fuerte cambio en el discurso y reparto del poder en Bizancio. Pero mientras que las obras de propaganda de los reinados de su hijo y su nieto son mejor conocidas, los círculos literarios relacionados con el propio Alejo son casi desconocidos. En este artículo proponemos que el Poema de Diyenís Acrita fue una construcción literaria para legitimar las reivindicaciones de Alejo I Comneno en relación con la Anatolia tomada por los turcos. Basamos nuestra hipótesis en varias construcciones, materiales y discursivas: el palacio de Blaquernas en Constantinopla, el tratado impuesto por Alejo I al sultán selyucí Malik-Shah en 1116 y el palacio de Diyenís en el  Eufrates.  (resumo composto pelo autor)

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Arqueólogos búlgaros descobrem importante igreja construída pelos últimos imperadores bizantinos

16/07/2011 – traduzido da agência Novinite

Observação minha: apesar da notícia abertamente rasgar seda para o governo (creio que o portal de notícias que a noticiou  seja estatal ), ela é interessante por tratar diretamente do tema desse blog.

Reconstrução digital da Igreja dos Santos Apóstolos de Sozopol

Arqueólogos búlgaros desenterraram a igreja principal de um monastério bizantino do século XIV construído pela última dinastia do Império Romano do Oriente e localizado na cidade de Sozopol, no Mar Negro.

O time da arqueóloga Dr. Krastina Panayotova do Instituto Nacional de Arqueologia da Academia Búlgara de Ciências completou a primeira fase das escavações do Monastério dos Santos Apóstolos e de um castelo feudal medieval no Capo de Sozopol.

Durante as escavações financiadas pelo governo búlgaro, o time de Panayotova descobriu a igreja do monastério, uma pequena capela funerária e um castelo feudal datando entre os séculos  XIII e XV, os últimos dias do Império Bizantino antes de ele ser riscado do mapa pelos invasores turco-otomanos.

As atuais cidades de resort de Sozopolis e Nessebar estavam entre as últimas possessões bizantinas a serem conquistadas pelos turcos-otomanos – elas caíram somente em 1459 d.C, 6 anos depois de Constantinopla. As duas cidades foram primeiro conquistadas pelo Primeiro Império Búlgaro na Idade Média, mas sua possessão ia e voltava entre a Bulgária e Bizâncio.

A igreja recém-descoberta do monastério medieval dos Santos Apóstolos foi construída por volta de 1335, por Anastácio Paleólogo, tio do imperador bizantino João V Paleólogo (1341-1391), e um parente do tsar búlgaro Mihail Shishman (1323-1330).

Segundo o diretor do Museu Histórico Nacional da Bulgária Bozhidar Dimitrov, a igreja era a maior e mais bela da costa búlgara do Mar Negro. Ela tem 24 m. de comprimento e 16 m. de largura, e está localizada no cabo de Sozopol. Então, ela poderia ser vista por todas as cidades do golfo de Burgas – do Cabo de Emine até o Cabo de Maslen Nos.

Um total de 120 dignitários foi enterrado perto da igreja; em sua maior parte oficiais militares, uma vez que eles foram achados com botas com peças de ferro. Os arqueólogos búlgaros descobriram que um deles foi enterrado com um medalhão sofisticado retratando o nascimento de Cristo, e a cova de uma mulher contendo uma bolsa com 65 moedas de prata e cobre.

O Museu Histórico Nacional da Bulgária anunciou que na Quinta será iniciada uma “conservação de emergência” no achado arqueológico recém-descoberta.

Durante uma visita a Sozopol, o primeiro-ministro Boyko Borisov e o ministro das finanças Simeon Djankov ficaram “profundamente impressionados” com o achado e expressaram prontidão em enviar mais dinheiro público para a restauração da maior igreja cristã da costa búlgara do Mar Negro como parte do plano governamental de ampliar o desenvolvimento do turismo cultural e religioso.

Segundo o chefe do museu Dimitrov, os fundos governamentais serão usados tão logo o projeto enviado por Plamen Tsanev, arquiteto de Veliko Tarnovo, for aprovado. Tsanev projetou a restauração da Igreja de São Cirilo e Metódio em Sozopol.

A igreja recentemente abrigou as relíquias de São João Batista, que foram achadas em um monastério na Ilha de São Ivan, perto da costa de Sozopol no verão de 2010 pelo arqueólogo Prof. Kazimir Popkonstantinov.

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Artigo “O batismo de Vladimir e as relações entre os Rus e o Império Bizantino no fim do século X”

Caros leitores,

O trabalho da entrada “acadêmica” de hoje é um artigo que trata de um evento muito importante na História de Bizâncio e com profundos reflexos na História da Humanidade: a conversão de Vladimir, o Grão-Principe de Kiev, ao cristianismo ortodoxo no fim do século X. 

Título: O batismo de Vladimir e as relações entre os Rus e o Império Bizantino no fim do  século X

Autor: Fabrício de Paula Gomes Moreira

Tipo de trabalho: artigo publicado na revista Revista Alethéia de Estudos sobre Antigüidade e Medievo – Volume 2/2, Agosto a Dezembro de 2010. ISSN: 1983-2087

Resumo: 

Este artigo pretende discutir o batismo do Grão-príncipe Vladimir e de seus súditos no âmbito das relações internas e externas do principado de Kiev no século X. Pretendo elucidar as possíveis razões para que o soberano Rus´ adotasse o cristianismo ortodoxo, tal como praticado no Império Bizantino, a partir da análise e comparação da Crônica dos tempos passados, compilação elaborada em meados do século XI por monges de Kiev; ao tratado  De Administrando Imperio, do imperador bizantino Constantino VII Porfirogeneta e à Cronografia, do pensador bizantino Miguel Psellus. O objetivo da análise é demonstrar o quão múltipla era a decisão do príncipe Rus´:religiosa, mas também política, militar e econômica.  (resumo composto pelo autor)

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Prosopografia do Império Bizantino (642-1261)

Em algumas sociedades, principalmente as pré-modernas, é muito difícil traçar trajetos biográficos individuais. Nesse sentido, a prosopografia vai à direção de estudar as ligações individuais que unem todo um grupo humano, percebendo padrões de comportamento e de valores, fazendo, desse modo, uma “biografia coletiva”. A prosopografia é uma área bastante promissora dos estudos históricos.

Sendo assim, a entrada de hoje será sobre o projeto “Prosopografia do Império Bizantino”, que tem como objetivo “registrar todas as informações sobreviventes sobre todo o individuo mencionado nas fontes escritas bizantinas, junto com toda quantidade possível de indivíduos mencionados nos selos, no período entre 642 e 1261”

Os estudos prosopográficos já estão em estágio avançado na bizantinística. Alguns estudiosos já realizaram estudos nessa direção, baseados principalmente nos selos pessoais dos membros da aristocracia. Porém, esses são produções independentes e focadas em famílias específicas.

Essa iniciativa “universalizante” realizada pela Universidade de Londres é bastante arrojada, não só pela amplitude de documentos produzidos nesse enorme espaço de seis séculos, mas pela enorme dificuldade em traçar o que é e o que não é bizantino (aliás, temos um post sobre isso). Por exemplo: a Bulgária era fortemente ligada politicamente e culturalmente a Bizâncio. Ela entraria? E os protetorados armênios da fronteira oriental? Seus senhores eram independentes, mas reconheciam a autoridade imperial e tinham títulos honoríficos, portanto eles eram parte da aristocracia bizantina. Eles entrariam?

É um trabalho semelhante ao de Hércules, mas um primeiro passo foi dado. Lançou-se, em 2006, parte do estudo prosopográfico com os registros dos indivíduos “bizantinos” que viveram entre 1025 e 1102. Um recorte bem interessante, pois, no período, Bizâncio vive em ebulição política e há um grande número de indivíduos nas fontes e eles se relacionam bastante entre si.

Mais um grande instrumento online para aqueles que querem estudar Bizâncio.

http://www.pbw.kcl.ac.uk/

 Por João Vicente

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Como surgiu o Império Bizantino? Parte I (transformações e reformas do quarto século)

Caros leitores,

A partir de hoje, eu irei disponibilizar um texto que escrevi como exercício quando estudava para um concurso público que participei. Seu tema é a “transformação” do Império Romano em Império Bizantino.

Irei dividi-lo em três partes: o primeiro é sobre as mudanças que o Império Romano sofreu a partir do século III, no segundo falarei sobre a ascensão do Cristianismo à religião oficial do Império e no terceiro irei tratar sobre os primeiros desenvolvimentos da História que se estabeleceu chamar de “bizantina”.

Como surgiu o Império Bizantino? Parte II (a ascensão do Cristianismo)

Como surgiu o Império Bizantino? Parte III (os primeiros passos)

***

Em obra clássica, ainda que há muito ultrapassada, Fustel de Coulanges demonstra como as instituições políticas romanas, e gregas, eram também religiosas. De certa forma, um magistrado romano ou grego era um político e um sacerdote. No fim da república e início do império, os homens que ocupavam tais magistraturas não se importavam tanto com o fundo religioso de suas funções, ainda que, pelas aparências, demonstravam respeito por ele. Contudo, a associação entre religião e política volta à tona com a fundação do cargo de Imperador.

Otávio Augusto representando como Imperator – A origem do poder imperial romano é o comando geral das forças romanas dada em caráter excepcional pelo Senado: o Imperium.

 Essa inovação apresentava paradoxo para a tradição política romana por dois motivos. Primeiro, até as mais altas magistraturas como o de cônsul eram fiscalizadas por seus pares, que, em certos casos, poderiam decidir afastar alguém de seu cargo. Desse modo, a elevação de uma pessoa a uma posição como de imperador desequilibrava a equação. Segundo, os romanos tinham um legado anti-monarquista fortíssimo, César havia sido morto por suspeitarem que ele pretendia se coroar rei. Apesar das manobras feitas pelos apoiadores de Augusto, o primeiro imperador, que criaram o título de “princeps”, isto é, o primeiro cidadão, para convencer a sociedade romana, principalmente a elite senatorial, que a autoridade dada a Otaviano Augusto tinha como função resguardar e restaurar a República, a realidade era que a posição do imperador romano era quase análoga a de um rei. Não demorou para que surgissem discursos que divinizavam o imperador e assim, justificasse seu poder. Isso aconteceu, em primeiro lugar, nas províncias orientais, mais acostumadas a serem governadas por poderes monárquicos de origens divinas. Augusto aceitou que os gregos lhe chamassem de “basileos”, “rei” em grego, título que os imperadores romanos vão continuar a portar até o dia em que Constantinopla caiu para os turcos em 1453.

Até o final do século II, essa questão continuou ser complicada, uma vez que, tendo que justificar sua autoridade à elite romana, os imperadores geralmente eram cuidadosos para não ultrapassar o fino limite que diferenciava o poder “imperial” do poder “monárquico”. Os imperadores evitavam se divinizar ao mesmo tempo em que se associavam ao sagrado, divinizando seus ancestrais e declarando-se descendentes de deuses olímpicos e tomavam para si várias magistraturas ao mesmo tempo para dar a sua autoridade um caráter institucional.

Os tetrarcas Diocleciano, Galerio, Maximiano e Constâncio Cloro.

 Com o início do século III, esses cuidados foram deixados de lado. O fiel da balança política romana deixou de ser a elite da cidade de Roma e passou a ser as legiões, com poucas sensibilidades políticas em relação ao caráter religioso do poder imperial e mais preocupadas com a remuneração pecuniária que seus candidatos a imperador poderiam lhes fornecer. Essa foi a chamada “crise do século III”, quando os imperadores deixam de ser magistrados e passam a ser generais.

 Apesar de ter sido uma época de crise política e fragmentação territorial, Peter Brown, em seu “O fim do Mundo Clássico”, aponta que esse foi um período de profundas mudanças, que deram ao Império um novo fôlego no século IV e permitiram que o Império continue a existir, em sua metade oriental, por mais de um milênio, a qual a historiografia passou a chamar de “Império Bizantino”.

1 – Devido às constantes guerras, os imperadores do século III se desvincularam a cidade de Roma. A capital passou a ser onde o imperador estava. Isso permitiu que a identidade “romana”, antes circunscrita a Itália e as elites senatoriais espalhadas por todo Império para governá-lo, expandir-se. Todo habitante do Império podia agora ser nomeado “romano” e o Império passou a se denominar “Romania”.

2 – Apesar de que as frequentes aclamações militares como forma principal de nomear imperadores tenha resultado numa profunda crise política, criou-se a ideia de que o Império deveria ser governado por mérito e não por direitos ancestrais adquiridos. Portanto, nas reformas de Diocleciano, institui-se no exército e na burocracia romana um ideal de meritocracia. O Império passou a ser gerido e governado por figuras cuja origem eram os estratos mais baixos da sociedade romana, porém de grande capacidade, aumentando com isso a efetividade da burocracia e do exército.

3 – As mudanças acima referidas resultaram numa enorme mobilidade social. Então, esses “novos ricos” pretendiam assemelhar-se a antiga elite adotando o legado clássico como “identidade de classe”. Contudo, diferentemente da antiga elite senatorial romana, essa nova elite meritocrática era exponencialmente menos conservadora, portanto, ao adotarem a cultura clássica, essa nova aristocracia patrocinou uma renovação desse legado. Algumas vezes essa nova produção era bastante superficial, pois essa nova elite não tinha ligações fortes com o legado clássico, assim muitos deles só queriam aparentar-se sofisticados, porém outros o adotaram com corpo e espírito, de modo que patrocinaram ou produziram si próprios obras que seguiam os padrões clássicos, mas absorvendo elementos novos e estrangeiros. Aí que entra o Cristianismo.

 No entanto, sobre a ascensão do Cristianismo de culto obscuro a religião imperial irei tratar em outra entrada.

Por João Vicente

  Leituras recomendadas:

COLANGES, Fustel de. A cidade antiga, São Paulo, Matin Claret, 2009.  

BROWN, Peter. O fim do mundo clássico, Lisboa, Verbo, 1972.

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Celebração no Monastério de Vatopedi

Monte Athos é uma república monástica cristã-ortodoxa localizada numa península nos arredores de Salônica.

Os primeiros monastérios surgiram lá em meados do século X e durante muito tempo, os monges do Monte Atos foram extremamente influentes, ricos e poderosos devido suas vastas propriedades na Grécia e ao patrocínio de vários imperadores bizantinos. Hoje os monges formam uma comunidade autônoma sob proteção do Estado Grego e mantem um dia a dia que permanece praticamente o mesmo há mais de um milênio.

Esse video mostra uma celebração no Monastério de Vatopedi (sec. X).

 

Um dia dedicarei uma ou mais entradas sobre os Monastérios do Monte Atos e suas interessantíssimas histórias.

 Por João Vicente

 

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