Um ensaio sobre o legado do imperador Justiniano (527-565)

Paradoxalmente uma das maiores dificuldades da ciência histórica sempre foi analisar as grandes personalidades históricas. Durante muito tempo, historiadores viam nas figuras de Napoleão, Alexandre Magno e a rainha Elizabeth I luminares, líderes inspirados que levaram seus povos a grandes momentos históricos.

Essa visão tem sido muito questionada na última centúria. Essas figuras passaram a ser vistas de uma forma mais crítica, as contradições e as idiossincrasias estão sendo constantemente expostos, as vezes de forma exagerada. Além disso, os historiadores passaram a dar importância maior ao universo em que essas figuras surgiram. Alguns exageram e afirmam que todo indivíduo, incluso as grandes personalidades, são somente frutos de seus meio e que não há espaço para o brilho pessoal. Um exagero, em minha opinião. Acredito que seja o caso da pessoa certa no lugar certo. De fato, dificilmente um indivíduo como Napoleão Bonaparte teria o espaço para ascender tão rapidamente nas fileiras do exército se não fosse as mudanças causadas pela Revolução Francesa, mas, por outro lado, se não fosse a genialidade militar, brilho pessoal e sua ambição imensa, o Império Francês não teria existido e a Europa, assim como o resto do mundo, teria tido outro destino..

Nos estudos bizantinos, o maior exemplo desse paradoxo historiográfico é o reinado de Justiniano I (527-565). Ao abrirmos qualquer livro didático da 5ª série (atual 6º ano), pois, se não me engano, a História Antiga e a Medieval são tratadas nesse ano, quase todo meio capítulo que geralmente é dedicado a Bizâncio fala sobre o reinado de Justiniano e seu legado.

Geralmente são três pontos que são mencionados: a sua obra legislativa, a restauração das antigas fronteiras do Império Romano e a construção da catedral de Santa Sofia. O período de reinado desse imperador é visto como um canto do cisne de uma história marcada por uma gradual decadência finda com a conquista de Constantinopla pelos turcos em 1453. Nem entro na questão de que decadência é essa que durou mais de mil anos… A idéia que essa breve narração nos dá é que Justiniano foi um indivíduo inspirado que conseguiu levar um Império condenado a queda a um auge e que permitiu que ele tivesse vários séculos de existência. Nada mais longe que a verdade.

Painéis comemorativos de marfim em que Justiniano I agradece sua nomeação ao cargo de cônsul, em 521, e primeira vez que o nome "Justiniano" aparece junto ao seu nome de batismo "Petrus Sabatius". Ele deve ter adotado esse nome ao oficializar a sua adoção pelo seu tio e imperador Justino

O Império herdado por Justiniano estava muito bem, obrigado. Sob a égide imperadores reformadores como Zenão (474-491) e Anastácio (491-518), a Pars Orientalis do Império Romano conseguiu superar e se adaptar as mudanças do século IV e ressurgiu no século V mais próspero e poderoso que nunca. (Para saber um pouco do porquê da parte ocidental ter caído sob domínio “bárbaro” e a oriental não, clique aqui) Então, no momento da ascensão de Justiniano a púrpura, Bizâncio era um império rico, estável e poderoso. Então, o momento era certo para que um indivíduo inteligente e ambicioso como Justiniano subir ao poder. No entanto, não vejo no projeto de Justiniano um de pura e desenfreada ambição, mas de afirmação.

Justiniano veio de uma família de camponeses da Ilíria, uma província latinizada. Sua ascensão social deu-se por causa de seu tio Justino, que se tornou chefe dos excubitores, guarda costas imperiais, e depois do falecimento de Anastácio, ele se torna imperador. Então, é possível imaginar que Justiniano deveria sofrer certo preconceito por suas origens estrangeiras e camponesas. Os membros da elite de Constantinopla deveriam reverenciá-lo em sua frente por ser sobrinho e filho adotivo do imperador, mas desprezá-lo pelas costas. O esnobismo bizantino é um assunto curioso, pois se por um lado eles desdenhavam novos-ricos, a maior parte das famílias da aristocracia não conseguia traçar sua linhagem por mais de três gerações sem encontrar também um inconveniente emergente. Isso somente começará a mudar a partir do século XII, quando um grupo de famílias de origem provincial e ligadas ao exército passará a fechar as fileiras da aristocracia para novos-homens…

Retornando para Justiniano. Esse desprezo foi multiplicado quando ele decidiu se casar por uma atriz (sinônimo de prostituta naquele universo), filha de um domador de ursos, por quem ele havia se apaixonado. O nome da moça era Teodora. Para isso, ele chegou a convencer seu tio mudar uma lei que proibia esse tipo de união.

Mosaico na Igreja de São Vital em Ravenna retratando a imperatriz Teodora e seu círculo pessoal de aias e eunucos.

O desprezo elitista a Justiniano ficou bastante claro durante a Revolta de Nika, em 532. Originalmente ela foi uma revolta da plebe constantinopolitana resultante do descontentamento popular em relação aos impostos e crescimento desenfreado da criminalidade urbana, mas deflagrada por uma inabilidade do governo em apaziguar as facções do Hipódromo. No entanto, alguns membros da ala tradicional do Senado aproveitaram a aparente fragilidade e fizeram o lumpem revoltoso nomear Hipácio, um senador e sobrinho do falecido imperador Anastácio, como imperador. Ainda que esse tenha sido massacrado impiedosamente junto com outros 15.000 revoltosos pelas tropas imperiais, percebemos nesse evento um descontentamento latente de certa parte da elite em relação a esse imperador.

Sendo assim, percebemos um Justiniano tendo que se afirmar frente a aristocracia bizantina, mesmo sendo o autocrata e imperador dos romanos, um dos príncipes mais poderosos do mundo em seu tempo, e ele o fez. Na verdade, toda sua obra como imperador, chamada de megalomaníaca por uns, pode ser vista sobre esse prisma. Não bastava ele ser um bom imperador, ele teria de ser o maior de todos e seu legado deveria ultrapassar seus antecessores e sucessores.

Mosaico da Igreja de São Vital em Ravenna retratando o imperador Justiniano e sua corte composta por funcionários, generais, eclesiásticos e guarda-costas.

A Restauratio Imperii (restauração do Império) empreendida por Justiniano, mas capitaneadas por generais como Narses e Belisário, trouxe de volta a autoridade imperial as províncias da Itália, Norte de África e o sul da Hispania (atual Andaluzia). Ainda que ocupada há pelo menos um século por potentados de origens germânicas, ainda existia uma forte aristocracia de origem romana nessas regiões que aos poucos adaptavam-se e cooperavam com os novos senhores estrangeiros. Tanto que um século depois da morte de Justiniano observamos um bispo hispano-romano, Isidoro de Sevilha (560-636), rasgando elogios ao rei visigodo por sua luta contra os bizantinos estabelecidos na Península Ibérica. Porém, essa relação entre a nova elite romana e a nova elite germânica não foi somente um mar de flores e sempre que essa relação se estremecia, os primeiros voltavam-se a Constantinopla em busca de auxílio. Portanto, foram esses desentendimentos que desencadearam o programa de conquistas de Justiniano. Primeiro na África contra os Vândalos, depois na Itália contra os Ostrogodos e depois na Hispania contra os Visigodos. O que chama atenção nessas conquistas é que essas províncias são regiões bastante latinizadas. Portanto, seria essa uma forma de Justiniano trazer súditos que, como ele, tinham o latim como idioma principal de volta ao Império e com isso tentar reverter a forte tendência helenizante que vai por fim dominar o Império Bizantino? É plausível. Seja qual for o objetivo, essas conquistas foram em grande parte efêmeras, pois a expansão islâmica iniciada no século seguinte e os lombardos na Itália tomaram do Império a maior parte dessas reconquistas.

Império Bizantino na coroação de Justiniano (laranja escuro) e nos últimos anos de seu reinado (laranja escuro)

Outra parte do legado de Justiniano que pode ser atribuído a sua necessidade de se afirmar frente aristocracia bizantina é seu projeto arquitetônico. A Revolta de Nika de 532 resultou na destruição de diversos edifícios, incluindo a antiga Igreja de Santa Sofia. Justiniano aproveitou-se da situação para iniciar um amplo projeto de construções e bem-feitorias urbanas, entre as quais a que mais se destaca e mais ficou famosa é, sem sombra de duvida, é a Igreja de Santa Sofia.

De certa forma, acho ela bem semelhante a Catedral de São Basílio em Moscou construída pelo czar Ivan, o Terrível, entre 1555 e 1561. Ambas se enquadram dentro de uma tradição arquitetônica, respectivamente russa e bizantina, mas suas características únicas fazem delas as fundadoras de seu próprio estilo. Ainda que a Igreja de Santa Sofia tenha uma plataforma de basílica romana, suas múltiplas naves e tamanho colossal a fazem ser bem diferente da tradição arquitetônica eclesiástica bizantina, que preferia edifícios menores. Ela também representa uma grande inovação tecnológica, pois é a primeira vez que se vê um domo sendo sustentado por uma estrutura retangular.

Igreja de Santa Sofia em Istambul e Igreja de São Basílio em Moscou: inauguração e auge de seus próprios estilos

Essas inovações, a opulência e principalmente o tamanho colossal da Igreja de Justiniano é um típico exemplo de ostentação de um emergente. Creio que seja um fenômeno comum em todas as sociedades humanas: o novo endinheirado não tem um nome ou ancestrais para se firmar frente ao dinheiro mais antigo, por isso expressa seu novo status demonstrando opulência. Foi assim na Idade Média, quando os cavaleiros-vilões, plebeus abonados que tinham que lutar na cavalaria do exército real, apareciam com decorações espalhafatosas. É assim atualmente, quando jogadores de futebol e outros novos-ricos compram extravagantes mansões e enormes SUVs para demonstrar sua fortuna. Creio que foi esse o caso com Justiniano, um estrangeiro de origens humildes, inteligente, ambicioso e com ideais de grandiosidade, elevado ao posto de príncipe mais poderoso da Terra. Ele quis impor-se frente aos seus cortesãos, a antiga aristocracia e aos seus antecessores não por sua estirpe, pois isso ele não tinha, mas pela sua obra, que foi pensada para engrandecê-lo e fazer que esquecessem suas origens. Pelo jeito, ele teve sucesso.

Na verdade, essa agenda de afirmação pessoal resultou numa crescente autonomia do poder imperial, até então ainda bastante ligado a elite senatorial. Em Bizâncio, a pessoa do imperador era profundamente ligada ao cargo que ele ocupava, portanto ao querer se afirmar e superar a influência do Senado, ele acelerou uma tendência absolutista que já estava firmada do poder imperial e de perda de prestígio do Senado que, a partir de então, gradualmente tornou-se quase que uma instituição honorífica.

Interior da Igreja da Santa Sofia

Historiadores modernos acusam Justiniano de, em seu ímpeto expansionista, deixar de lado fronts bem mais importantes, assim como acusam seus projetos grandiosos de sobrecarregar a economia bizantina. Resultando na profunda crise e imensas perdas territoriais do século seguinte.

Retrato em mosaico do imperador Justiniano feito provavelmente no final de seu reinado

Apesar de essa afirmação ser uma meia-verdade no caso das fronteiras Bálcãs, onde os ávaros e outras tribos eslavas não foram impedidos por Justiniano de se estabelecer na região, resultando na instabilidade da autoridade bizantina naquela região para todo o sempre, o mesmo não pode ser dito do front oriental. Lá Justiniano fez o máximo para ao menos manter o status quo frente aos Sassânidas, os herdeiros dos persas e maior inimigo de Bizâncio naquele tempo, de forma que seus sucessores – principalmente Maurício (582-602) e Heráclio (610–642) – ainda conseguiram ter sucessos notáveis contra eles. Isso até a ascensão do Islã. Porém, a irresistível expansão muçulmana iniciada no século seguinte foi causada por fatores muito além de um possível legado “maldito” de Justiniano, tanto que os muçulmanos não foram irresistíveis somente aos bizantinos, mas também aos sassânidas, aos reinos da Índia e aos visigodos.

Ps: Sei que deixei de fora alguns aspectos muito importantes do reinado de Justiniano I, como as questões religiosas, sua reforma legal e a importância da imperatriz Teodora. Justifico-me dizendo que esse somente é um pequeno ensaio sobre um aspecto da multifacetada e complexa época em que ele reinou. Futuramente, em próximos artigos, com certeza irei tratar desses assuntos.

Leituras recomendadas:

ANGOLD, Michael. Bizâncio, a aponte da antiguidade para idade média, rio de janeiro, imago, 2002.

MAAS, Michael. Cambridge Companion to the Age of Justinian. Cambridge, 2005.

 EVANS, James Allan (Universidade da Columbia Britânica). Justinian, artigo na De Imperatoribus Romanis (em iglês)

PROCÓPIO DE CESARÉIA, De Edificiis.(relato bizantino sobre a construção de Santa Sofia) 

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